O Pedro e o Lobo: a sustentabilidade da floresta portuguesa
Há décadas que Portugal fala da sustentabilidade da floresta como elemento central no combate às alterações climáticas. É um ativo estratégico no sequestro de carbono, na preservação da biodiversidade e na coesão social. Um discurso cada vez mais presente, onde a floresta surge como solução para múltiplos desafios.
Mas o discurso, e os PowerPoint, continuam desalinhados com a prática.
Discursa-se sobre incêndios. Sobre milhões de euros para a floresta. Sobre medidas, com foco no mediatismo de curto prazo. Sobre o desordenamento. Sobre a falta de fiscalização. Sobre a falta de resposta dos organismos oficiais.
E, no fim, cometem-se os mesmos erros.
Como na história do Pedro e o Lobo, o alerta repete-se tantas vezes que perde impacto. Perde confiança. Perde credibilidade.
O problema já não é falta de diagnóstico. É falta de ação estratégica suportada em quatro princípios essenciais: os 4C: Coerência, Coesão, Conexão e Cooperação.
Coerência: o que se exige e o que se faz
Portugal tem uma das estruturas fundiárias mais complexas da Europa: uma floresta privada (91% do território florestal), fragmentada e com forte presença de pequenos proprietários. Neste contexto, medidas voluntárias que mobilizem os privados na gestão e valorização do território devem ser priorizadas.
São um aliado, com vista ao aumento da resiliência, sustentabilidade e cumprimento legal, face às cada vez mais exíguas capacidades do sistema público no apoio e fiscalização do território.
Mas persiste uma incoerência estrutural. O Estado regula, financia e exige, mas tem dificuldade em assumir um papel exemplar nas áreas sob sua gestão, nomeadamente nas matas nacionais, em cerca de 50 mil hectares no Continente.
A certificação florestal, reconhecida internacionalmente como garantia de boa gestão, continua longe de ser assumida como........
