A Ceia de Natal da IA |
Bacalhau na mesa, como sempre, com azeite a mais e batatas a menos, porque o excesso faz parte do ritual e a contenção nunca foi um valor natalício. Os telemóveis estão ali, pousados ao lado dos pratos, sem estarem escondidos, nem envergonhados, como se também fizessem parte do serviço. A tia envia mais uma coisa estranha no grupo de WhatsApp da família, o primo levanta o smartphone para filmar o presépio, não tanto por fé mas para deixar prova do seu espírito natalício nas redes sociais. Avó, por sua vez, continua a perguntar se alguém quer mais vinho, mesmo sabendo que metade da mesa está a responder a mensagens de trabalho que, em teoria, podiam esperar, mas na prática nunca esperam.
A ceia acontece assim, aos pedaços. Um comentário aqui, uma ausência ali, uma conversa que começa inteira e acaba interrompida por uma vibração supostamente silenciosa no bolso do casaco. Já ninguém repara. Fingimos que é normal, talvez porque admitir que não é implicaria decidir alguma coisa, e decidir dá trabalho.
A inteligência artificial, ou IA que é mais chique, não foi formalmente convidada para a mesa, mas isso é irrelevante. Já estava presente quando as prendas foram escolhidas por sugestão automática, quando o caminho foi decidido por um mapa que sabe mais sobre os nossos hábitos do que nós próprios, quando aceitámos que uma aplicação nos dissesse quais os........