Requalificação digital: por que Portugal não pode perder o comboio |
Por Miguel Muñoz Duarte, co-founder do NoCode Institute
Portugal habituou-se a olhar para si próprio como um país tecnológico. Falamos com orgulho dos nossos unicórnios, da cobertura de fibra ótica de classe mundial e do facto de acolhermos um dos maiores eventos tecnológicos do planeta, a Web Summit. Nos últimos anos, o país tornou-se também um destino cada vez mais atrativo para talento internacional e nómadas digitais. À primeira vista, tudo isto parece indicar que estamos bem posicionados para a economia digital.
No entanto, essa perceção pode ser enganadora. O sucesso de um ecossistema tecnológico visível, não significa necessariamente que toda a economia esteja preparada para acompanhar a transformação que está em curso. A inovação mede-se menos pela existência de algumas empresas altamente avançadas e mais pela capacidade de um país integrar tecnologia no funcionamento normal das suas organizações.
É precisamente neste ponto que surge uma das grandes questões para o futuro económico de Portugal.
A inteligência artificial está a acelerar uma mudança profunda no mercado de trabalho e na forma como as empresas operam. Mais de 40% dos empregos atuais poderão ser impactados pela IA na próxima década, de acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional, e mais de 1,1 mil milhões de pessoas terão de se requalificar até 2030, segundo o Fórum Económico Mundial. Esta transformação não afeta apenas setores tecnológicos, está a alterar profissões, cadeias de valor e modelos de negócio em praticamente todas as áreas da economia.
Num contexto destes, a diferença entre acompanhar ou ficar para trás não depende apenas da tecnologia disponível. Depende sobretudo da capacidade das pessoas e das organizações para se adaptarem.
Durante décadas associamos o desenvolvimento tecnológico a percursos altamente especializados e técnicos. Esse modelo permitiu avanços extraordinários, mas também criou barreiras que afastaram muitos profissionais da utilização ativa das ferramentas digitais no seu trabalho. O resultado é uma economia onde algumas empresas aceleram com tecnologias avançadas, enquanto muitas outras continuam a operar com processos pensados para uma realidade que já mudou.
É por isso que o verdadeiro risco para países como Portugal não é a falta de inovação.
O verdadeiro risco é não conseguir distribuí-la por toda a economia.
Hoje, paradoxalmente, a tecnologia deixou de ser o principal obstáculo. Ferramentas de inteligência artificial, plataformas Low-Code e No-Code e novos modelos de aprendizagem tornaram muito mais acessível a criação de soluções digitais e a automatização de processos. O desafio deixou de ser tecnológico e passou a ser sobretudo de capacitação.
Preparar profissionais e empresas para uma economia cada vez mais digital exige repensar a forma como aprendemos, como requalificamos talento e como aproximamos a tecnologia da realidade das organizações. Porque a verdadeira transformação digital não acontece quando um país atrai startups ou organiza grandes conferências tecnológicas.
Acontece quando a base da economia consegue trabalhar de forma diferente.
Portugal tem talento, infraestrutura e um ecossistema tecnológico cada vez mais visível. O verdadeiro teste à nossa ambição digital não está apenas no número de unicórnios que conseguimos criar, mas na capacidade de garantir que o resto da economia consegue acompanhar essa mudança.
A questão agora é saber se Portugal vai embarcar ou se corre o risco de ver o comboio passar.