António Lobo Antunes: um escritor marcado pela guerra e que decidiu escrever para “aquele pé”

Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

Quando morre uma figura pública há quase sempre um gesto, talvez um pouco cruel, de regressar à sua vida. Voltamos às entrevistas, às frases, às histórias que contou. Como se a morte viesse lembrar-nos daquilo que, entretanto, deixámos para trás.

Duvido, no entanto, que esse seja totalmente o caso de António Lobo Antunes. Mesmo nos anos em que viveu mais recolhido, nunca deixou de habitar o imaginário literário português.

Esta manhã voltei a ouvir algumas das suas entrevistas. Muitas delas marcadas pelo ar sorumbático. Uma melancolia seca, muitas vezes irónica, que parecia nascer das experiências que mais o marcaram: a guerra, a medicina e a escrita.

A guerra foi talvez a primeira grande fratura da sua vida. Entre 1971 e 1973 esteve em Angola, como alferes miliciano, durante a Guerra Colonial. Essa experiência atravessa grande parte da sua obra e da sua memória. Numa entrevista à RTP , em 2017, afirmava:

“Eu dizia aos meus companheiros: isto deu cabo da nossa juventude, vai dar cabo da nossa idade madura e da velhice.”

Essa ferida está presente em muitos dos seus livros onde a guerra surge como um espaço de desgaste moral, absurdo e de solidão. Nessa mesma entrevista dizia: “Ninguém desce vivo de uma cruz .

Afirmou ainda: “Não queria que os portugueses tivessem vivido aquilo (a guerra), aquilo era horrível. Não esqueçam o que as pessoas que lá estiveram sofreram”.

Mas antes de ser escritor reconhecido, foi médico. E foi também no hospital que encontrou algumas das experiências mais perturbadoras da sua vida.

Numa entrevista com Fátima Campos Ferreira, em 2011, recordava os tempos em que era interno de pediatria, que o fizeram ter uma relação “conflituosa” com Deus. Havia algo que nunca conseguira compreender: a morte das crianças.

Há uma história que contou e que ajuda a perceber o momento em que a escrita se tornou inevitável.

Quando as crianças morriam no hospital eram enroladas num lençol e levadas para a morgue. Num desses momentos viu “um pezinho a abanar fora do lençol”.

Decidiu que ia escrever “para aquele pé”.

Na verdade, a literatura sempre esteve presente na sua vida. Entrou em Medicina muito cedo, aos 16 anos, mas nunca escondeu que o que queria realmente fazer era escrever.

“Durante o curso nunca parei”, contou na entrevista.

A escrita não era para ele um gesto planeado ou técnico. Descrevia-a como algo quase involuntário, voltando à sua relação com Deus.

“A mão anda sozinha. Quem a faz andar? Não sei.”

Distinguia ainda o que, para si, era um mau e um bom livro: “Um mau livro é o que fala no universo fora de nós, um bom livro fala do que está dentro de nós. É aquele que leio e me revejo a mim mesmo e as páginas tornam-se espelho”.

Noutra conversa, desta vez com Ana Sousa Dias no programa “Por outro lado” (2001), reflete sobre o lado de lá, de quem lê: “Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre”.

Ler António Lobo Antunes é, por isso, mais do que acompanhar uma história. É entrar numa memória coletiva que Portugal parece muitas vezes querer esquecer.

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.


© Sapo