Natureza mais natural não há

Já conhecia casas com vista para o mar  e casas-de-banho com belas vistas. Mas nunca tinha visto uma coisa assim: no meio do nada, na foz do Tejo, uma sanita tão bem colocada ao ar livre, tampa levantada encostada ao autoclismo, um ramo de árvore a penetrar no seu interior.

Quem fez isto tem uma clara intuição visual e arrisco pensar que foi alguém conhecedor da obra do surrealista Marcel Duchamp, autor do célebre urinol que ganhou honras de museu.

Façamos um pouco de história: em 1917 Marcel Duchamp pegou num urinol de porcelana branca, invertido, a que chamou Fonte. Em vez de assinar a obra com o seu nome, assinou como R. Mutt. Enviada a obra para a exposição da Sociedade de Artistas Independentes em Nova Iorque, foi rejeitada por ser considerada uma piada de mau gosto e uma indecência.

A ideia de Duchamp foi elevar um objeto industrial comum ao estatuto de obra de arte, com base no argumento de que a arte é definida pelo conceito dado pelo artista e pelo contexto da sua apresentação. Ao ser exposta num museu, levada por um artista, a peça ganharia o estatuto de arte. Não conseguiu convencer o júri e o original desapareceu, mas deu polémica e tornou-se uma lenda.

Depois de muitas solicitações Duchamp autorizou, entre 1950 e 1964, a produção de 16 réplicas, todas expostas em museus, hoje em dia avaliadas em milhões.

Voltemos à beira do Tejo, do lado da Cova do Vapor, onde encontrei esta peça. Confesso que acho particularmente interessante a conjugação do objeto com o ramo de árvore. Será uma alegoria à destruição da natureza e à forma como o homem a trata?

Lição do dia: mesmo o mais banal dos objetos pode dar que pensar e proporcionar múltiplas interpretações.

Estratégias de comunicação// Manuel Falcão escreve sempre à sexta-feira, no SAPO


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