menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O pretendente ao Prémio Nobel da Paz inicia a sua oitava guerra

14 0
07.03.2026

Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

E fala-se com razão, uma vez que esta guerra, ao contrário das outras que estão a decorrer, já está a ter repercussões em todo o planeta - O efeito mais evidente é o aumento do preço do petróleo, que provavelmente chegará aos 150 dólares por barril. De sexta passada para sábado, subiu 10% (para 86 dólares) e durante esta semana subiu mais 7%. O preço do combustível afeta os transportes, que por sua vez aumentam o custo de vida em todo o mundo. A correlação é o resultado da redução da produção nos países diretamente afetados pela guerra e pelo fecho do estreito de Ormuz, por onde passa 20% do crude.

Os Estados Unidos estão a gastar mil milhões de dólares por dia nas nesta “operação militar especial” e Israel cerca de 47 mil milhões, dos quais uma grande parte paga pelos norte-americanos em material de guerra. Para a semana o custo será maior, tanto do petróleo como dos gastos militares, e maior ainda para a semana seguinte – e assim sempre em crescendo até ao fim da guerra, que não está à vista.

Durante a campanha presidencial de 2019, Donald Trump fez várias promessas hiperbólicas, uma delas sendo que não haveria mais guerras. Mas desta vez exagerou.

A operação “Fúria Épica” (que as más línguas chamam de “Fúria Epstein”) é a quarta vez que os Estados Unidos da América entram num conflito que esperam ser rápido e que tem tudo para se arrastar por muitos anos. Os precedentes não enganam: a guerra da Coreia durou três anos, a do Vietname 20 anos e a do Afeganistão outros 20. Nos três casos não atingiram os objetivos – mudança de regime e criação de um Estado democrático, o que quer que isso seja. Mas os norte-americanos ainda não aprenderam que a sua superioridade tecnológica e forças armadas colossais não são suficientes para entrar por um país adentro e impor o regime que queriam. E os exemplos anteriores ocorreram em pequenos países, nada que se compare com os 1.648 Km2 e 91,5 millões de habitantes do Irão. (A exceção foi o rapto de Maduro, que durou 24 horas, mas também não levou à ambicionada “mudança de regime” na Venezuela. Já aqui falei nesta situação esdrúxula: o regime não mudou, e é Trump, pessoalmente, que manda no país.)

Será que a “ameaça laranja” não pensou nisso? Segundo os analistas, houve três razões que o levaram a esta decisão precipitada: ajudar Israel, impedindo que o Irão desenvolva uma bomba atómica que permitiria só com uma ogiva arrasar os 22.245 km2 do Estado judaico; mostrar que os Estados Unidos podem bulir com qualquer país do mundo à vontadinha; e, finalmente, desviar as atenções para os problemas do seu governo, especialmente o “caso Epstein”.

Faz agora um ano que Israel e os Estados Unidos atacaram as centrais nucleares iranianas, o que levou Trump a dizer que tinham sido “completamente obliteradas”, mas que pelos vistos não foram. Fora isso, não há nenhuma razão para começar agora uma guerra que poderia esperar mais dez anos ou que poderia simplesmente nunca vir a acontecer.Uma outra razão, cumulativa, seria ver o mundo livre de uma potência regional agressiva e fanaticamente religiosa. Desde 1979 que o regime teocrático de Teerão criou uma teia de países e movimentos proxies, mantendo toda a região em constante estado de sobressalto. Pode argumentar-se que se esse regime desaparecesse haveria paz na região – que não é uma região qualquer, dadas as suas reservas petrolíferas. E também se pode dizer que o ataque seria mais eficiente agora, quando o Irão perdeu alguns desses proxies – Hezbollah, Hamas e Síria – e está num momento estratégico frágil. Além disso, há bases militares norte-americanas na região que estavam sempre ameaçadas: Al Udeid Air Base no Qatar, Ali Al-Salem Air Base no Kuwait, Al Dhafra Air Base nos Emirados Árabes Unidos, Quartel Geral da marinha no Bahrain, e várias instalações no Iraque.

Podia-se questionar para que é que os americanos precisam de tantas bases na região; mas as razões são óbvias: petróleo e Israel. A outra razão é que são imperialistas por natureza – sempre tentaram dominar a América do Sul, de uma maneira (impondo um governo ditatorial) ou de outra (invadindo). Basta pensar que nesta mesma semana desencadeou uma operação contra os cartéis da droga no Equador, com o Comando Sul norte-americano a usar uma expressão inovadora: os “narco-terroristas”.A aviação norte-americana tem vindo a bombardear a Somália contra os terroristas da al-Shabaad. No mês passado os Estados Unidos atacaram várias vezes grupos islâmicos na Síria.

O ataque ao Irão tem outra escala. Mas, como é habitual, não se conhece um “end-game”. Acabar com o regime teocrático? Parece um objetivo impossível só com bombardeamentos. Seria necessário colocar soldados no terreno (“boots on the ground”) e, como aconteceu nos casos já citados, fazer uma ocupação de 20 anos e acabar por sair com o rabo entre as pernas. Levar os iranianos a mudar o regime? Os números de pró e contra ayatollahs levariam a uma guerra civil, nada mais. Trump tem uma proposta surreal: seria ele a escolher o novo líder em Teerão.Outros objetivos do candidato ao Prémio Nobel da Paz incluem absorver o Gronelândia, mudar o regime em Cuba, e ocupar o Panamá. Ainda não percebeu que teria que ocupar a Noruega, cujo Parlamento é que escolhe a Comissão do Prémio. Quando perceber, vamos ter mais uma guerra, com certeza.

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.


© Sapo