O estranho caso dos tecnototalitários

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Igualmente extraordinário é como esses homens conseguiram juntar fortunas colossais em poucos anos, ao mesmo tempo que mudavam de ideias.Pensei em chamar-lhes tecnofacsistas, como a maioria dos comentadores, mas acho que o fascismo é uma doutrina diferente do totalitarismo. Estas pessoas não andam fardadas em paradas (pelo contrário, tendem a ser reclusas) e nem querem um partido único e a execução dos opositores. São muito mais modernas do que isso.

Tecnofascismo, a expressão que os anglo-saxónicos usam para classificar esta ideologia, é definido como a convergência de tecnologias digitais de ponta – tais como IA, vigilância individual e controle das redes sociais – com ideias autoritárias, de extrema-direita e antidemocráticas. Estas super-elites juntam grandes empresas tecnológicas, controlos algorítmicos e extração ilegal de dados para manipular as sociedades. A fusão do poder tecnológico com vigilância pessoal, resulta num modelo antidemocrático, mesmo que as pessoas não percebam que estão a ser manipuladas. Podem envolver formas mais desagradáveis de manipulação, como a xenofobia, racismo e desigualdade de oportunidades.

É muito interessante ver como se chegou aqui. Ao contrário do que perorava Marx, qualquer sociedade produtiva envolve capital e trabalho para se desenvolver. No capitalismo, o capital está na mão dos ricos; no comunismo está na mão da elite no poder. Em ambos os casos quem manda não é o povo (a “classe trabalhadora”, segundo o vocabulário comunista). O poder dos sovietes operários na União Soviética acabou ainda Lenine estava vivo. E não esqueçamos que Kim Jong-Um estudou num colégio de elite na Suíça.

O que aconteceu foi o desenvolvimento muito rápido de certas tecnologias que se queriam democráticas, mas que depressa se tornaram também muito autoritárias. Quer dizer, a ideia da Internet era uma troca opiniões a nível mundial, e acabou por se tornar uma fonte universal de notícias falsas. Criou um produto em que a receita está na devassa das preferências das pessoas e não no que elas consomem (Facebook, X, Signal, Instagram, Tik-Tok, etc. são todos gratuitos, porque ganham a vender dados dos utilizadores).

O “complexo industrial-militar” (termo cunhado por Eisenhower em 1961) foi substituído pelo “mercado da informação”. Considerando que a Internet foi inventada (por Tim Berners-Lee) em 1989, tem apenas 36 anos. Nestas quase quatro décadas criou-se um setor novo que até hoje cresce exponencialmente. Toda a gente sabe que começou em Silicon Valey, uma área da Califórnia. Os pioneiros tinham características comuns: eram democratas, igualitários, anarquistas ou libertários (anti-autoridade). Criaram espaços de trabalho arborizado em que funcionários podiam levar os seus animais de estimação, meditar em “casulos” e escolher os seus horários (estou a pensar na Google, cujo o lema era “Don’t be evil” - “não faça o mal”) Não eram muito bem vistos pelos poderes políticos, sobretudo pelo Congresso, constituído por “velhinhos” que nem sabiam usar um computador.

Aliás, é famosa a frase de um director da IBM que disse: “Para que é que as pessoas precisam dum computador em casa?” Já foi reformado, claro, e a IBM perdeu a corrida digital.

Numa reviravolta incompreensível (pelo menos para mim) esses pioneiros digitais tornaram-se autoritários, autocratas, até fascistas, afastados do mundo em mansões isoladas e iates gigantescos. Todos deram milhões para a eleição de Trump e estiveram presentes na sua tomada de posse. 

Elon Musk (Tesla, SpaceX, xAI) contribuiu com 250 milhões de dólares para a campanha Trump e durante meses dirigiu um departamento da Administração criado especialmente para ele, o DOGE, responsável pelo despedimento de milhares de pessoas e esvaziamento de serviços públicos, além de recolher dados confidenciais do Imposto de Renda (IRS). Musk, que tem fotografias a fazer a saudação nazista, também apoia os movimentos de extrema-direita europeus.

Larry Page e Sergey Brin (Google) não são, pelo menos oficialmente, apoiantes de Trump, mas tem tido problemas com a recolha de dados privados na maior plataforma de email e motor de busca do mundo. Os legisladores norte-americanos e europeus andam às voltas para arranjar uma maneira de o impedir, mas até agora não conseguiram.

Jeff Bezos (Amazon, Blue Origin) deu um milhão de dólares para a tomada de posse de Trump e proibiu o jornal “Washington Post” de endossar Kamala Harris. Bezos comprou o Post em 2013 e conseguiu destruir a reputação do jornal que, famosamente, investigou o caso “Watergate”. Bezos, que leva uma vida faustosa com a sua nova “trophy wife” (termo que significa uma esposa espampanante para um homem velho e rico) e é conhecido pela gestão violenta que faz na Amazon, despedindo e rebaixando um milhão e meio de funcionários a seu bel-prazer.

Mark Zuckerberg (Meta, Facebook) também doou um milhão de dólares para a tomada de posse de Trump e também gere brutalmente os seus 80.000 funcionários.

Larry Ellison foi o fundador da Oracle, uma empresa de software empresarial (daí ser menos conhecida do público) começou a comprar órgãos de informação, sobretudo canais de televisão, numa tentativa de criar um monopólio conservador da informação tradicional. É dono da Paramount, Skydance e CBS, e está a tentar comprar o TikTok. Também é um MAGA fiel e amigo de Donald Trump, a quem já doou milhões de dólares e frequenta Mar-a-Lago.

Jensen Huang (NVIDIA), amigo de Trump, actua como intermediário não oficial em negócios entre os Estados Unidos e a China, alinhando a produção industrial, crescimento energético e políticas anti-regulatórias dos dois países. A NVIDIA é o maior produtor mundial de microchips.

Peter Thiel (PayPal, Palantir, Facebook) considera-se um visionário libertário, mas a sua empresa Palantir é um gigante daquilo que os libertários mais detestam: o controle de dados pessoais com fins políticos e comerciais. Nascido na África do Sul (como Musk) num enclave branco que cultiva o nazismo, actualmente tem negócios “por baixo do radar em todo o mundo. Foi o patrono do vice-Presidente J. D. Vance. A Palantir é a empresa mais sinistra de “mineração de dados”, com contratos com a CIA e o ICE. Em 2009 escreveu numa revista do Cato Institute (um “think tank” que promove o livre pensamento): “Deixei de acreditar que a liberdade e a democracia sejam compatíveis.

Até Tim Cook, o director da Apple, subsidiou Trump e esteve presente na tomada de posse. Se nos lembrarmos que a Apple foi fundada por Steve Jobs, hippie e libertário, e Steve Wozniak, filantropo ainda vivo, vemos como a empresa tem evoluído politicamente...

Esta lista de mega-milionários de direita, extrema-direita e MAGA não estão nem pouco completa, uma vez que não inclui aqueles cujos rendimentos não vêm da tecnologia ou não são norte-americanos. Mas o que queríamos demonstrar é que o movimento tecnototalitário existe, não é uma distopia. E também não falamos dos efeitos perversos que vai ter (ou já tem) a Inteligência Artifical, no controle dos indivíduos – os seus hábitos, preferências, ideias políticas estilo de vida. Há empresas de IA no portfólio de todos estes megamilionários.

Enfim, o futuro seja o que Deus quiser, mas não será certamente determinado por Deus!

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