Ribeiro Telles e as barragens: repensar a água a partir da paisagem
Num contexto de alterações climáticas, escassez hídrica e eventos extremos cada vez mais frequentes, a gestão da água voltou a ocupar um lugar central no debate público. Em Portugal, onde secas prolongadas coexistem com cheias rápidas e destrutivas, multiplicam-se as propostas de novas barragens como solução para armazenar água e regular caudais. Porém, revisitar o pensamento de Gonçalo Ribeiro Telles — arquitecto paisagista, professor e uma das figuras maiores do ordenamento do território — permite compreender que a questão é mais complexa do que simplesmente construir ou não construir barragens.
Ribeiro Telles não defendia uma rejeição absoluta das barragens. O que criticava era o paradigma das grandes infraestruturas hidráulicas concebidas de forma isolada, desligadas das dinâmicas ecológicas das bacias hidrográficas e da estrutura da paisagem. Para ele, a água não era apenas um recurso a armazenar ou controlar; era um elemento estruturante do território, indissociável do solo, da vegetação, da agricultura, das cidades e dos ecossistemas.
A sua abordagem partia de um princípio fundamental: os problemas da água resolvem-se a montante, no modo como organizamos o território. Quando os solos são impermeabilizados, as linhas de água canalizadas e a vegetação ripícola destruída, a água deixa de infiltrar, escoa rapidamente e transforma-se em ameaça — ora sob a forma........
