O último grito

Xu Bing é um artista chinês que vive entre Pequim e Nova Iorque. Ele criou uma caligrafia que junta aquela espécie de quadrados chineses e, dentro deles, o alfabeto ocidental. O efeito é notável: mistura (parece misturar) as duas caligrafias, transformando-as numa só: visualmente, o resultado é um texto com caracteres chineses ou — para um olho menos familiarizado, orientais —, mas na verdade a leitura é ocidental, ou seja, da imaginação de Xu Bing resultou o encontro amigável de duas matrizes aparentemente inconciliáveis que se fundem, através das tintas e das palavras, numa só. A ideia desta miscigenação é evidente, não exige muitas explicações: há um mundo inteiro de possibilidades e oportunidades culturais, económicas, sentimentais… — todas as que desejarmos ter — para quem escolhe sair da calha fixa onde nasceu e se abre à diferença que nos rodeia a todos. O Oriente que acolhe o Ocidente e se reinventa numa fusão deliberada; ou vice-versa. Ninguém exclui ninguém.

Em junho de 2025 fui a uma exposição deste artista chinês em Hong Kong, no bairro de Tsim Sha Tsui. Com a marca da passagem britânica ainda bem visível, não haveria melhor cidade para aproveitar este encontro natural entre culturas tão diferentes — os autocarros de dois andares andam pelas avenidas de Kowloon, a zona mais chinesa da antiga colónia britânica, ganha após a Guerra do Ópio, no início do século XIX, como se circulassem por Mayfair; e, sim, hoje estão em casa nos dois sítios. Não houve uma aculturação forçada, deu-se uma integração natural (há autocarros verdes, amarelos…) promovida e sustentada pelas pessoas. A nova caligrafia global de Xu Bing expressa a mesma ideia de harmonia (não-conflito) que está em frontal desacordo com o pequeno e agressivo mundo de Trump que divide, bloqueia, separa para, finalmente, ele próprio se rejeitado como corpo estranho e infetado que está a adoecer o mundo.

Agora, de novo em Pequim, mais de dez anos depois da minha primeira e única visita, a caligrafia deste artista impôs ainda mais a sua poderosa força simbólica. A China, gigante de 1,4 mil milhões de pessoas, com quatro vezes mais gente que a América, embora com sensivelmente a mesma dimensão de território, contribui hoje para a humanidade com previsibilidade, boa diplomacia e boas relações, investimentos oportunos e inteligentes em inovação e muito (muito) desenvolvimento científico e tecnológico com real utilidade industrial. Exporta desenvolvimento, não regressão e retrocesso civilizacional.

Provas e sinais desta época de ouro chinesa não faltam: por exemplo, os carros elétricos dominam as ruas da capital. A quantidade de marcas chinesas diferentes chega a impressionar. São automóveis de qualidade, requintados e confortáveis por dentro, modernos e não toscos, não cópias, originais, objetos de desejo que atestam uma das expressões de vitalidade económica que mais se destaca à vista de quem chega; mas há muito mais para ver.

Também a robótica tem em Pequim um dos seus mais relevantes centros de desenvolvimento. Os humanoides estão cada vez mais aperfeiçoados e funcionais. Há apenas dois anos mal serviam um café sem derramar metade, hoje estão a ser treinados para desempenhar tarefas domésticas e até cuidar dos mais velhos, papel importante já que a China começou a envelhecer e a perder população nos últimos anos. Os robôs de quatro patas, como cães agressivos (Made in USA), estão nos antípodas disto. É evidente que também na China estes humanoides poderão um dia ser usados na guerra em vez dos soldados de carne e osso; acontece que a China, apesar da tensão histórica com Taiwan, não dispara um único tiro fora das suas fronteiras há mais de três décadas, o que é encorajador. Mais do que isso, a China contribui para o diálogo global, não para o confronto e incerteza. Demonstra liderança pela inteligência e utilidade, não pela ameaça e força brutas.

Nós, ocidentais, condenamos apressadamente os investimentos e os empréstimos a países asiáticos, africanos ou sul-americanos incluídos na Belt and Road Iniciative. Achamos que são um suborno disfarçado que, inevitavelmente, dará lugar a uma miserável chantagem. Não tenho dúvida de que o excesso de dívida cria dependências e riscos políticos e económicos — sabemos bem o que isso é em Portugal —, mas seria conveniente tirarmos de vez em quando as palas dos olhos para pormos momentaneamente de lado tantos preconceitos.

De que outra forma estes países pobres ou mais pobres conseguiriam fazer investimentos em estradas, energia renovável, etc.? Pura e simplesmente não os fariam, ficariam ainda mais para trás, apesar das exigências que lhes são impostas nos encontros globais organizados para tentar salvar o planeta. A alternativa para ter algum capital para investir seria ficarem ainda mais reféns da histórica economia extrativa ocidental, seja ela europeia ou americana, que tem séculos de lastro sem grandes vantagens para as populações locais.

Ora bem, a China não caiu agora do céu com asas de anjo, mas o facto de não ser uma democracia não nos deve levar a um grau de desconfiança extremo, exagerado e inútil. Essa ideia peregrina de querer exportar as democracias liberais para todas as partes do bloco tem sido desastrosa e fonte de ruína para muitas nações e povos. Digamos que é preciso avaliar o contexto com mais calma. Estamos todos cansados de invasões bem-intencionadas que acabam em desastres e até em estados falhados. Estamos fartos de falsas razões para intervenções militares que não passam de crimes de Estado e violações grosseiras da lei internacional. Até o Irão, um país com sérios problemas quanto aos direitos humanos que alimenta grupos terroristas como o Hamas e o Hezbolah, levanta uma certa compaixão face à fúria americana e israelita.

É por isso que a pergunta é tão simples como a resposta: quem respeita mais a lei internacional hoje em dia — a China ou os Estados Unidos? Não restam muitas dúvidas de que o velho polícia do mundo perdeu a confiança geral e não a recuperará tão cedo. A eleição de Trump parecia ter pelo menos uma vantagem, talvez apenas essa: não implicaria uma política expansionista e beligerante de modo a agradar aos muitos isolacionistas que o apoiam. A realidade acabou, no entanto, por ser a oposta e está a ter consequências deploráveis para o mundo.

Mais uma vez, os EUA estão enfiados numa guerra na zona do Golfo que parece impossível de ganhar e, espantosamente, não têm quase benefício nenhum a retirar — exceto perturbar a venda de petróleo iraniano à China. Para um país com tantos e tão bons think tanks e tantas universidades de prestígio… é extraordinária a repetição do mesmo erro existencial: mais uma guerra sem qualquer sentido para os americanos.

A China hoje é um parceiro muito mais fiável do que a América — é genuinamente confiável. Isso não significa ter uma fé cega e absoluta na liderança de Xi Jinping — significa prestar atenção aos factos e perceber que, apesar da concentração de poder em Xi, apesar do mandato renovado pela terceira vez, o que muito perturbou o Ocidente (mas não os chineses), apesar de não haver espaço na China para qualquer espécie de dissensão político-partidária — ela é esmagada ao primeiro sinal —, a verdade é que o país está a crescer, a desigualdade a diminuir e os 50% mais pobres da população têm hoje melhores condições de vida. Há uma classe média crescente.

Os chineses apreciam a ordem e a segurança que os rodeia, beneficiam ainda da extraordinária expectativa de que a geração seguinte viverá melhor do que a delas. Nós, europeus, com tanto moralismo e arrotando superioridade fora de prazo, não podemos dizer o mesmo. Pelo contrário, a desmoralização e a desconfiança são fenómenos tão instalados que, em Portugal, deram forma a um partido perigoso e destrutivo como o Chega, já a caminho dos órgãos mais altos do Estado com toda a legitimidade democrática — de resto como está a acontecer pela Europa fora.

A China vive tempos otimistas, não está refém do mais obsceno populismo. Os últimos 40 anos têm sido sempre a crescer e com permanentes correções de rumo. Na primeira década deste século, instalou-se algum (muito) novo-riquismo. O poder dos bilionários ganhou visibilidade e peso político, a corrupção dentro do partido comunista e entre os dirigentes disparou. Xi Jinping travou os dois impulsos. Na realidade, continua a travar: caem generais e membros do Politburo, caem presidentes da câmara de grandes ou de pequenas cidades — e tudo isso assusta os europeus pela forma cortante e visível como acontece. Não percebemos a intenção e o método implacável, vemos o gesto como purga partidária levada a cabo pelos mandarins de Xi.

Outra pergunta é, por isso, inevitável: quem está a ganhar a guerra: EUA/Israel ou o Irão? Nenhum deles. A China é quem está a ganhar. Enquanto a destruição prossegue ao ritmo das mentiras de Trump, o Império do Meio abre-se e reinventa-se, realiza conferências e colóquios com gente relevante do mundo inteiro. Atrai talento e saber. Por estes dias, houve três acontecimentos da máxima importância: a Davos do Oriente, em Boao, que atraiu empresários e gestores das maiores empresas do mundo (Tim Cook, da Apple, por exemplo) e também políticos e representantes das agências internacionais, como o FMI. E ainda um encontro com os países do Sul Global sobre financiamento verde e ainda outro gigantesco colóquio sobre Inteligência Artificial envolvendo muitos dos protagonistas globais. Assim se faz uma grande nação.

Em tempos, os EUA também foram assim, eram um dínamo de otimismo, mas perderam a bússola; esperemos que a sabedoria chinesa evite o mesmo erro clamoroso. Há 20 anos desviavam tecnologia, hoje vendem o último grito.

(Para a semana: o Sul Global)


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