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O preço do desleixo

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28.03.2026

Há janelas geopolíticas que não se abrem por si: quando ficam escancaradas, basta um momento de distracção para que alguém entre. Cabo Delgado está nessa categoria.

O que ali se decide já não é apenas a segurança de uma província moçambicana. É uma peça da arquitectura energética europeia. A decisão final de investimento da ExxonMobil no Rovuma está prevista para 2026. O projecto da TotalEnergies aponta para o início da próxima década. O gás de Moçambique deixou de ser um tema regional para entrar, por mérito próprio, na equação estratégica de Bruxelas. A sua relevância ganha peso num contexto de forte perturbação no Golfo Pérsico e de risco acrescido para corredores energéticos estratégicos.

Acontece que a segurança dessa equação está assente num apoio instável. E quando a segurança é instável, o capital começa a olhar para outro lado.

Em Cabo Delgado, a moldura operacional que hoje permite a continuidade dos megaprojectos de GNL depende, em larga medida, do dispositivo ruandês. São mais de dois mil militares e polícias concentrados em Palma e Mocímboa da Praia. Esse dispositivo está a semanas de ficar sem financiamento europeu garantido. Os dois pacotes de 20 milhões de euros cada, aprovados ao abrigo do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz, expiram em maio, sem que Bruxelas tenha anunciado renovação. Kigali já deixou claro que não aceita uma presença indefinidamente subsidiada por expectativa. A Comissão Europeia respondeu com a fórmula habitual das responsabilidades difusas: cabe a Maputo e a Kigali encontrar a solução adequada. Um modo elegante de adiar responsabilidade.

O problema é que o pouco, aqui, pode custar caro. As Forças de Defesa de Moçambique não dispõem, a curto prazo, dos meios técnicos, logísticos e de projecção de força necessários para substituir o dispositivo ruandês. Eurodeputados portugueses de AD e PS alertaram formalmente a Alta Representante Kaja Kallas para o risco de que uma redução do apoio ruandês crie precisamente a janela que os insurgentes procuram, no exacto ponto onde se concentram os activos mais sensíveis do país. Quarenta milhões de euros para proteger investimentos que valem centenas de vezes mais. O cálculo não é complexo. A hesitação é que está a ser.

É neste vazio específico que outros actores entram.

A Rússia entra como sabe entrar: com pouco, mas com muito ruído. Tendas, alimentos, gestos simbólicos, frases de amizade estratégica. A visita de Estado do Presidente Daniel Chapo a Moscovo, já em preparação a convite de Putin, completará o ciclo. A verdade, porém, é menos épica do que a propaganda russa gostaria de sugerir. Moscovo já testou a presença de segurança no terreno em Cabo Delgado através de companhias militares privadas, com resultados muito abaixo do anunciado. Não tem, hoje, condições para uma nova empreitada robusta naquela região. Tem, isso sim, margem para se tornar interlocutor político com visibilidade, precisamente quando Moçambique precisa de multiplicar canais e reduzir isolamento.

A China joga noutro campeonato. Não oferece presença simbólica: oferece alavancagem. É o maior credor bilateral de Moçambique, com cerca de 1,4 mil milhões de dólares em dívida activa, e o próprio Presidente Daniel Chapo admitiu publicamente que uma eventual reestruturação não é uma ideia descabida. Pequim parte de uma posição negocial estruturalmente favorecida e não precisa de impor nada de forma teatral. A visita de Estado do Presidente da República a Pequim, marcada para abril, chegará exactamente quando o país está mais vulnerável. As contrapartidas que Pequim colocará na mesa tendem a reflectir o padrão seguido noutros contextos africanos: cadeias de abastecimento, portos, comunicações e infraestruturas críticas. Não é, necessariamente, corrupção. É um modelo estabelecido, documentado e repetido com precisão quase contratual. Basta deixar que a matemática faça o trabalho.

O envolvimento ocidental em Moçambique é real e substantivo, e não pode ser tratado como inexistente. O Reino Unido mantém e reforça a presença através de uma linha de investimento bilateral em energia limpa, saúde, educação e digitalização. A EUMAM-MOZ, missão de assistência militar europeia sob comando do Comodoro César Pires Correia da Marinha portuguesa, mantém no terreno algumas dezenas de militares de vários Estados-Membros, com Portugal e Moçambique a pedirem conjuntamente a renovação do mandato. Portugal lançou na cimeira do Porto de dezembro de 2025 uma linha de crédito de até 500 milhões de euros para o investimento privado português em Moçambique, o maior sinal de confiança bilateral em décadas e um ponto de partida que o próprio Presidente Daniel Chapo considerou destinado a crescer à medida que a parceria se aprofunde. O problema não está na ausência. Está na incoerência entre esse envolvimento consistente e a hesitação específica no financiamento ruandês.

Portugal tem aqui uma posição singular. A linha de 500 milhões, a liderança da EUMAM-MOZ e a presença empresarial em sectores estruturantes conferem a Lisboa um capital de credibilidade que nenhum outro Estado-Membro possui com a mesma profundidade. O argumento que Lisboa deveria levar a Bruxelas não é sentimental. É de interesse estratégico objectivo: os 40 milhões em discussão são a condição de viabilidade de investimentos europeus e americanos que, num contexto internacional mais volátil, ganham ainda maior relevo para a segurança energética do continente. Não há segurança sem financiamento. Não há investimento sem estabilidade. E não há coerência numa política energética europeia que trata Moçambique como activo estratégico e adia o custo da sua protecção.

A janela continua aberta. Mas janelas abertas também deixam entrar o que não se quer. E o preço do desleixo é quase sempre pago depois, quando já é tarde e muito mais caro.


© Sapo