Short Message Service
Esta semana, Portugal acordou com dois espelhos quebrados na mão. Num deles, Coimbra: áudios e mensagens racistas, xenófobas e misóginas, partilhados num grupo com centenas de estudantes, com referências que chegaram à apologia nazi. No outro, Oeiras: conversas entre alunos de uma escola, com ameaças e projeções armadas, entre facas, “atentados” e a coreografias do homicídio.
Dois casos diferentes, duas idades diferentes, dois contextos diferentes — mas com uma família de semelhanças inquietantes: WhatsApp, grupo, bolha, excesso, provocação, contágio e, claro, o sobressalto público. O denominador comum não é apenas o mau gosto; é a sensação coletiva de que qualquer coisa saltou da caixa. E quando Portugal sente algo a escapar-lhe, trata logo do pelotão de fuzilamento.
Condeno, sem tibiezas nem notas de rodapé, qualquer atitude racista, xenófoba ou discriminatória. Não sofro de qualquer romantização do preconceito, nem de tolerâncias para com a selvajaria moral.
Mas condenar não obriga a perder a cabeça. Pelo contrário: obriga a ganhá-la. E por isso talvez convenha baixar o volume da sirene nacional, pousar o archote cívico e pensar com alguma serenidade.
Primeira nota: estamos a falar de mensagens privadas. Privadas não quer dizer inocentes, claro. Mas quer dizer qualquer coisa. Numa sociedade democrática, a revelação do conteúdo de conversas privadas deve, pelo menos, levantar uma sobrancelha filosófica. Hoje, a multidão abre o telemóvel dos outros em nome do Bem; amanhã talvez abra a gaveta, o diário, a alma em nome do quê? E a História ensina-nos que o moralismo, quando ganha farda, raramente fica pelo primeiro degrau.
Segunda nota: são mensagens, não são atos. São palavras, bravatas, imaginação, pulsão, exibição, pensamento partilhado — que é uma coisa feia, por vezes repugnante, mas ainda não é o mesmo do que ação. O domínio do pensamento deve continuar a ser livre, justamente para que o domínio da ação possa ser julgado com rigor. Uma democracia que começa a punir imaginações acaba, mais cedo ou mais tarde, a policiar entrelinhas. E isso, convenhamos, é um péssimo upgrade civilizacional.
Claro que existe aqui uma magra fronteira , gelo fino, entre a boçalidade e a criminalidade, entre a fantasia e o incitamento ao ódio. Mas essa fronteira, a ser vigiada, tem de ser observada com pinças, não com histerias. Com critério, não com pânico. Porque o problema das sociedades em estado febril é confundirem justiça com catarse.
E atenção: quanto mais se asfixia a expressão de pensamentos extemporâneos, fugazes, agressivos ou socialmente inaceitáveis, mais se arrisca a empurrá-los para zonas menos visíveis e, por isso mesmo, mais perigosas. O que não pode ser simbolizado, metabolizado, processado tende a regressar em ato. Entra em curto-circuito. Aquilo que não encontra a palavra procura saída por outro lado — e normalmente não escolhe a porta mais elegante.
Não se trata de desculpar. Não se trata de relativizar o repugnante. Trata-se de impedir que o repugnante seja administrado por convulsões coletivas, justiça performativa e pedagogia de linchamento.
Entre o “qual é o mal?” e o “prendam já toda a gente”, talvez ainda existam mares de possibilidades. Só que evitar polarizações e estertores, pensar, analisar, ponderar e demorar também está quase proibido. Só vale mandar mensagens.
Ativista Política//Escreve à quarta-feira no SAPOCortexfrontal@gmail.com
