Habitação e cenas

Um ano inteiro de trabalho e poupança, para descobrir que a casa ficou ainda mais longe. No segundo trimestre de 2026, os preços das casas em Portugal estavam 16,5% acima dos de um ano antes, enquanto a remuneração média dos trabalhadores tinha crescido 5,1%. As casas encareceram a mais do triplo do ritmo dos salários, na maior subida entre os países da União Europeia com dados disponíveis.

Havia um contrato implícito segundo o qual duas pessoas a trabalhar conseguiriam, com esforço, pagar uma casa e construir uma vida. É esse contrato que está a ser quebrado, juntamente com a confiança de que trabalhar nos permite ter uma casa e fazer planos para o futuro.

Para quem vive apenas do seu trabalho, a habitação está a tornar-se um luxo. Mesmo quem consegue comprar pode ficar preso a umas algemas financeiras durante trinta ou quarenta anos, refém de uma subida dos juros que faça a prestação ultrapassar o próprio salário. A casa que devia dar segurança passa a condicionar todas as outras decisões.

A habitação tornou-se um dos mais poderosos mecanismos de reprodução da desigualdade. Duas pessoas com o mesmo salário podem ter possibilidades de vida completamente diferentes consoante tenham uma casa paga ou precisem de entregar uma parte substancial do rendimento para ter onde viver. Essa diferença acumula-se todos os meses, na capacidade de poupar, de investir ou de ajudar os filhos, prolongando-se pela geração seguinte.

Por isso, compreendo profundamente quem sai à rua. Quem adia ter filhos ou continua no quarto onde cresceu, depois de um dia inteiro de trabalho, tem razões de sobra para........

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