Estórias com Propósito. Ricardo Costa (Grupo Bernardo da Costa): Transformar a dor em amor

A Associação Fernando Costa nasceu não de um plano estratégico, mas de uma ferida. De uma perda irreparável – a do meu irmão. E nasceu, sobretudo, da vontade de transformar essa dor em algo que pudesse melhorar a vida de outros.

Por Ricardo Costa, presidente do Grupo Bernardo da Costa

Há momentos na vida que nos partem. E há decisões que tomamos para não ficarmos partidos para sempre. Durante muito tempo, acreditei que o sucesso se media pelos resultados, pelas empresas que fazemos crescer, pelos empregos que criamos, pelos desafios que superamos. Continuo a acreditar nisso. Mas a vida ensinou-me que o verdadeiro sucesso mede-se, sobretudo, pela forma como transformamos a dor em amor e a ausência em presença.

A Associação Fernando Costa nasceu assim. Não de um plano estratégico. Não de uma ambição institucional. Nasceu de uma ferida. De uma perda irreparável. De uma saudade que não desaparece e que aprendemos a transportar connosco, todos os dias. E nasceu, sobretudo, da vontade de transformar essa dor em algo que pudesse melhorar a vida de outros.

Criei este projecto em nome do meu irmão. Em sua homenagem. Em sua memória. E na convicção de que as pessoas que amamos não desaparecem verdadeiramente enquanto continuarmos a fazer o bem em seu nome. Há ausências que nunca deixam de doer, mas há também legados que podem crescer a partir dessa dor. Foi isso que decidi fazer: transformar a perda num compromisso com a vida.

A mim e ao meu irmão nunca nos faltaram condições para estudar. Tivemos oportunidades, apoio e um caminho aberto pela educação. Mas a vida ensinou-nos também que essa realidade não é a de todos. Sabemos que há milhares de jovens talentosos que vêem os seus sonhos condicionados por falta de meios. Jovens que trabalham, que se esforçam, que têm mérito e ambição, mas que muitas vezes desistem porque não têm as mesmas oportunidades.

E sabemos, com total clareza, que a educação continua a ser o mais poderoso elevador social. O instrumento mais justo de mobilidade. A ferramenta mais eficaz para quebrar ciclos de pobreza e desigualdade. Investir na educação de um jovem é investir no futuro de uma família inteira. E, muitas vezes, de gerações.

Foi essa consciência que deu forma ao propósito da Associação Fernando Costa: apoiar jovens no acesso ao ensino superior e ajudá-los a construir um caminho que, sem esse apoio, poderia não ser possível. Não por falta de talento, mas por falta de oportunidade. Porque o talento não escolhe berço. E o mérito não pode depender das circunstâncias de partida.

Ao longo da minha vida empresarial, aprendi que as organizações existem para criar valor. Hoje sei que esse valor só é verdadeiro quando é partilhado. Quando chega a quem mais precisa. Quando gera impacto real e duradouro na vida das pessoas. Quando cria mobilidade social e esperança concreta.

Cada bolsa atribuída é mais do que um apoio financeiro. É um sinal de confiança. Cada jovem apoiado é mais do que um estudante. É um projecto de vida. Cada percurso académico que se torna possível é uma pequena vitória sobre a desigualdade e sobre a indiferença. É a prova de que a sociedade só faz sentido quando ninguém fica para trás. É também um lembrete permanente de que a felicidade só é verdadeira quando é útil aos outros.

Há algo profundamente transformador em perceber que uma iniciativa nascida da dor pode gerar esperança. Que uma história pessoal pode ter impacto colectivo. Que a memória de alguém pode continuar viva através das oportunidades que criamos para outros. Isso dá-nos responsabilidade. Mas dá-nos também propósito.

A Associação não é sobre o passado. É sobre o futuro. Não é apenas sobre quem partiu. É sobre quem cá fica e sobre quem está a começar a vida. Sobre jovens que sonham, que lutam, que acreditam e que precisam apenas de uma oportunidade justa para provar o seu valor.

Acredito profundamente que todos temos uma responsabilidade social que não pode ser delegada. Não basta sermos bons profissionais, líderes competentes ou gestores eficazes. Precisamos de ser cidadãos activos, conscientes e comprometidos. Precisamos de perceber que o sucesso só é completo quando é partilhado. E que a verdadeira liderança se mede pela capacidade de gerar impacto positivo na vida de outros.

Transformar dor em amor não é um exercício poético. É uma decisão diária. Exige coragem, consistência e propósito. Mas quando olhamos para trás e percebemos que uma história de perda deu origem a muitas histórias de esperança, tudo ganha sentido.

No final da vida, não seremos lembrados pelo cargo que ocupámos, pelos títulos que acumulámos ou pelo património que construímos. Seremos lembrados pelo bem que fizemos, pelas vidas que tocámos e pelas oportunidades que criámos para outros. Pelo legado humano que deixámos.

Se a Associação Fernando Costa conseguir garantir que mais jovens estudam, crescem, sonham e constroem um futuro digno, então a dor que esteve na sua origem terá encontrado a mais bonita das respostas: a esperança. E essa será sempre a forma mais nobre de honrar quem nunca deixará de estar presente.

Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (nº. 182) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.


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