Para onde vamos com esta guerra?

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 O presidente dos EUA ora admite uma guerra breve, ora fala de semanas de guerra com ameaças de morte a quem se opuser à vontade dele, ora evoca uma solução “ao estilo venezuelano” com recurso a uma Delcy Rodriguez saída de alguma brecha na Guarda Revolucionária iraniana.

A guerra parece destinada a terminar por uma de duas maneiras: ou com uma mudança de regime em Teerão ou com um acordo entre o Irão, os Estados Unidos e Israel. Hoje, nenhuma das opções parece próxima.

Será que é possível um acordo de paz entre o Irão e os seus atuais agressores, Israel e EUA? É possível que haja divergências sobre esta questão entre fações rivais dentro do regime iraniano. O resultado dessa luta é imprevisível, mas a nomeação do filho de Khamenei sugere que o grupo mais radical — a Guarda Revolucionária — continua a ser, por agora, o mais forte. Washington vai sempre exigir alguma mudança de regime em Teerão,  de modo a que em vez de hostilidade ao Ocidente fique instalado um poder com quem seja possível negociar novos equilíbrios.

A evolução do conflito passará por nos perguntarmos o que é que a Guarda Revolucionária vai favorecer: procurar alguma forma de compromisso com Washington ou manter-se em combate a contar que os Estados Unidos recuem? A baixa credibilidade dos compromissos anteriores de Trump faz pensar que os da Guarda Revolucionária se dispõem a esticar o confronto e os analistas militares entendem que o Irão continua a ter forças militares para resistir.

Esses duros da ala militar da teocracia estão há muito a preparar-se para este combate. É duvidoso que alguma vez aceitem tornar o regime de Teerão “apresentável” para americanos e ainda mais para israelitas. Frente a frente estão inimigos que, à exceção de Israel, praticam a imprevisibilidade.

Netanyahu vai continuar a pressionar Trump para o combate total. O eleitorado MAGA está repetidamente a mostrar que não gosta desta guerra e em ano de eleições parlamentares de meio do mandato, Trump pode querer fazer o que fez no ano passado, quando para fechar a guerra dos 12 dias, declarou “obliterada” a capacidade nuclear do Irão e proclamou triunfo retumbante. É uma hipótese de bis que ganha probabilidade. Resta saber o que, nesse caso, vai fazer Netanyahu – que deseja guerra permanente até erradicar os inimigos no Irão e no Líbano.

Estamos num momento em que a desordem e a imprevisibilidade estão promovidas a sistema nas relações internacionais. E até agora não há sinais de que a guerra vá aproximar o povo iraniano da liberdade ambicionada.

No Irão como no Líbano há muitas pessoas em desespero, a fugir e em luta para sobreviver. A palavra esperança perde significado, a ilusão de futuro melhor dissipa-se por entre muita gente com a alma desmoronada e o medo a entrar pelas janelas. E muitas pessoas a morrer. Antes era por causa do regime que perseguia, espancava os corpos, torturava, agora são as bombas lançadas sobre privilegiados desse regime mas que causam muitas baixas colaterais e não se vê que possam prometer felicidade.

Na Europa como em muito da Ásia quase toda a gente está a pagar o preço demasiado alto do petróleo e do gás – ainda que o impacto sobre a Europa seja incomparavelmente menor do que o verificado há quatro anos, logo a seguir à invasão russa da Ucrânia. Seja como fôr, agora, com a enorme volatilidade da total imprevisibilidade, Aconteceu num só dia, a segunda-feira 9 de março, o preço do barril de petróleo ter oscilado entre a alta até aos 130 dólares e a baixa para os 100, conforme os ziguezagues de Trump nos comentários sobre a evolução desta guerra.

Os americanos nos Estados Unidos também não estão imunes a esta crise: apesar de a extração de petróleo de xisto quase eliminar as importações americanas de combustíveis fósseis, encher o depósito nos EUA também está mais caro.

Mas se o Médio Oriente continuar em chamas e o Estreito de Ormuz continuar fechado, esta guerra acabará por se espalhar dramaticamente por toda a economia global.

A regra nesta guerra está a ser a ausência de regras.

Há uma consequência já evidente desta guerra é o desvio de atenções sobre a guerra na Ucrânia. Os europeus têm  aqui um desafio principal e outra tarefa: a de impedir que um dos efeitos colaterais da guerra no Médio Oriente seja o fortalecimento da posição de Putin na Ucrânia.

Estamos entre múltiplos conflitos e continuamos perante o risco de a qualquer momento saltar uma gota a mais e provocar um descontrolo maior.

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