Teodoro e o nome das ruas |
O Professor Teodoro Ramalho lembra-se do tempo em que os táxis ainda falavam. Havia no interior do carro um murmúrio contínuo de destinos debitados por uma operadora central. A cidade chegava-lhe aos ouvidos antes de chegar aos olhos. “Um táxi à Penha de França”, dizia a voz neutra, e imediatamente o mundo ganhava coordenadas afetivas. A Rua da Penha de França, nº 128 – 1º esq. – morada da Vó Guida, a bondosa avó de Teodoro.
Teodoro recorda uma crónica de Eduardo Prado Coelho, no espaço Fio do Horizonte (circa 2001) onde o autor descreve o choque ao ouvir pelo sistema de rádio dum táxi, o nome do pai transformado em topografia: “veículo à Rua Prof. Jacinto do Prado Coelho”. O pai convertera-se em passeio, semáforo, asfalto, fachada, piso alcatroado. De pai passara a infraestrutura. Uma metamorfose inquietante! “Era uma pessoa, hoje é um lugar. Espero que seja um lugar feliz” – escrevia Eduardo Prado Coelho.
Por entre o fumo do seu charuto Montecristo, Teodoro, espicaça a imaginação: agora que Eduardo Prado Coelho também é uma rua, será que ele habita num lugar feliz!? A sua rua fica em Carnaxide, perto da Rua José Viana – ator querido – e ao virar da esquina da Rua Adolfo Casais Monteiro. Curioso! Casais Monteiro foi um poeta modernista que se exilou no Brasil em 1954, e aí viveria o resto dos seus dias. Casais Monteiro transformou-se num amante dos trópicos, dizendo que gostava da cachaça brasileira, da mulher brasileira e da Praia Grande no Estado de São Paulo. Detestava cinemas cheios, teatros vazios e grã-finos profissionais.
Muito curioso, também, o facto de Eduardo Prado Coelho ter uma rua em São Paulo, no Brasil. Fica em Diadema, e é uma paralela à Rua José Saramago (infelizmente, não escolhemos os vizinhos, nem na vida nem na morte!). Todavia, nas imediações existem a Rua da Terra, a Rua do Mar, a Rua de Vénus, a Rua de Marte, a Rua de Júpiter, a Rua de Neptuno, a Rua do Sol, a Rua da Lua... toda uma galáxia! E ao virar da esquina espera-nos a Rua das Três Meninas. Teodoro não sabe quem são estas meninas, mas pressente que o Eduardo Prado Coelho descansa num lugar feliz.
O Professor Teodoro ajeita o chapéu na melena rebelde, dá uma tragada, e num trejeito do pulso endireita a bengala de madeira rosewood, com castão derby. Teodoro gosta de pensar que as ruas conservam traços do temperamento dos seus patronos. A Rua Aquilino Ribeiro cheira às aventuras do Malhadinhas e as suas pauladas nos botões dos rufias. A Rua José Cardoso Pires Diniz alberga baladas de cães rafeiros. A Rua Augusto Abelaira, o autor do memorável Enseada Amena, aguça o apetite. Teodoro conhece bem a geografia do Bairro do Rego que dá guarida (todo o bom Lisboeta sabe disso) à “Adega da Tia Matilde” – lugar de paladares únicos.
Teodoro leva este exercício físico-mental mais longe e traz à liça outros personagens. Por exemplo: Al Berto. Como se sentirá o poeta ali nas Olaias? – indaga o Professor. Será que ele está bem naquela rua onde os gatos dormem pelos cantos e as crianças brincam nas ruas? Teodoro aposta que na Rua Al Berto é sempre noite para que o poeta possa acender as cidades que inventou. Seria um erro urbanístico iluminá-la em excesso. Com franqueza musculada Teodoro pensa em Fernando Namora. A sua rua soa-lhe sempre clínica, como quem ausculta a cidade. Teodoro desconfia que o autor escrevia de ouvido colado ao peito das aldeias, registando febres, silêncios e aquela teimosa dignidade de quem vive longe do mapa, mas perto da condição humana. Porém, quase contra natura, a Rua Fernando Namora fica no movimentado bairro de Telheiras, em Lisboa.
A memória encurta distâncias, e Teodoro topa com a Rua Eça de Queirós (perto do Marquês), com ar de vigilância social permanente; Teodoro suspeita que, se Eça ali vivesse, passaria horas à janela estudando a fauna da vizinhança. O olhar do Eça e o passo do Professor esgueiram-se até à Rua Camilo Castelo Branco, ali perto, grávida de mal-entendidos a virar paixões fatais — Teodoro jura que há ali amores contrariados, orgulhos feridos e tragédias suficientes para encher uma biblioteca. Numa acrobacia mental, Teodoro chega à Rua Florbela Espanca, em Alvalade. Ali, até o silêncio tem vida sentimental. O Professor Teodoro é conhecedor deste território. Em jovem perdeu-se por ali em suspiros apaixonados, não correspondidos.
O Professor analisa o charuto e sacode a cinza com cuidado académico. A única conclusão possível é que o nome das ruas é uma versão modesta da eternidade. Um homem escreve livros, morre, e transforma-se em placa aparafusada na parede. A cidade segue indiferente e barulhenta, mas de vez em quando um táxi antigo anuncia o nome duma rua/escritor pela rádio — e por um segundo a literatura volta a respirar.
Depois o sinal muda, o trânsito arranca, e o nome da rua regressa à sua função administrativa. A eternidade dura exatamente o tempo de uma luz verde. O resto é urbanismo desatinado: falta vírgula ao mundo — assevera o Professor Teodoro Ramalho.