Teodoro e o Crime Perfeito |
O Professor Teodoro Ramalho deixou a Vila Berta bem cedo. O sol ainda tremia de frio. A neblina era uma poalha húmida sobre Lisboa. Teodoro empunhou a bengala de madeira rosewood, com castão derby. A caminhada prometia ser longa. A bica na Pastelaria Ideal da Graça foi cirúrgica. Apanhou o elétrico até à Praça Luís de Camões. Desceu a Rua do Alecrim e embicou em direção à Praça São Paulo. Nos carris os elétricos vão amarelando ao som do tacão do guarda-freio: dreliiim-dreliiim.
O charuto Montecristo vai deixando uma esteira de fumo enquanto Teodoro espreita lojas com balcões de madeira, armazéns vendendo todo o tipo de ferragens, alfaiates sondando clientes por cima dos óculos... Repentinamente Teodoro adentra à direita um portão de ferro encimado por uma arcada onde se lê: ‘Elevador da Bica’. Teodoro senta-se num dos compartimentos maneirinhos do ‘elevador’. Tabucchi já está acomodado no seu lugar junto à janela. Alisando o bigode minimalista, o italiano apaixonado por Portugal, faz uma leve saudação de cabeça. Teodoro leva dois dedos à aba do chapéu, e ajeita-se quando sente o solavanco inaugural.
— “Sabe, caro Tabucchi,” começou, enquanto se ouve o suspiro metálico da engrenagem, “Baudrillard diria que este elevador já não sobe nem desce. Simula.”
Tabucchi sorriu com aquela melancolia oblíqua de quem já escreveu sobre homens que procuram outros homens que talvez nunca tenham existido.
— “Simula o quê, Professor Teodoro?”
— “A própria gravidade. Em A Ilusão do Fim, ele sustenta que a História não acabou — evaporou-se. Continuamos a falar dela como quem descreve um cadáver que já não está na sala.”
Da Calçada da Bica desprendem-se escadinhas e travessas. Aparecem lampiões cheios de tédio, janelas com grades de ferro, vasos de flores e roupa estendida.
— “E em O Crime Perfeito,” prosseguiu Teodoro, “a tese é mais radical: houve um homicídio metafísico. A realidade foi assassinada pela sua representação. Não temos mundo; vivemos num lugar pós-histórico onde a velocidade da ilusão esmaga os relevos alisando-os em ecrãs planos”.
O Tejo surge, apertado entre prédios, como uma lâmina de estanho. Tabucchi afaga o bigode.
— “Mas Baudrillard não diz que a realidade desapareceu. Diz que foi substituída por simulacros.”
— “Simulacros…” repetiu Teodoro. “Lisboa sempre viveu de simulacros. O Império era um simulacro marítimo. O sebastianismo foi um simulacro messiânico. Agora temos simulacros digitais. Mudam-se as ferramentas; permanece a ilusão.”
O elevador deu outro safanão. Uma turista tentou fotografar a inclinação impossível da rua e quase perdeu o equilíbrio.
— “Como Baudrillard”, continuou Teodoro, “todos pensávamos ter ultrapassado o terror nazi, derrubado o muro, dissipado as trevas. E, no entanto, chegámos à total objetivação do outro.”
— “Isso é mais inquietante,” murmurou Tabucchi.
Da Calçada desprendia-se o cheiro a roupa estendida.
— “Lévi-Strauss avisou,” prosseguiu Teodoro. “A humanidade acaba na fronteira da tribo. Tocqueville viu castas. Montaigne chamou barbárie ao que não era hábito. Nada disto é novo. O que é novo é a eficácia.”
Tabucchi inclinou-se.
— “Sim. A decadência tornou-se eficiente. O outro virou coisa operacional. Coisa que estrebucha, sangra ou grita como um robô — mas nunca como ser humano.”
O Tejo lá fundo é uma frase demasiado longa à procura de ponto e vírgula.
— “E o crime?” perguntou Tabucchi.
— “Baudrillard diz que a realidade foi assassinada. Eu suspeito que ela se escondeu. Vivemos num mundo,” continuou Teodoro, “onde os significados não explicam — substituem. Fazem desaparecer o real e ao mesmo tempo mascaram essa desaparição. Isso é engenhoso. Mas não é perfeito.”
O elevador estremeceu perto do topo. Tabucchi levantou ligeiramente as sobrancelhas.
Teodoro apagou o charuto com a ponta da bengala.
— “Porque ainda há este barulho. Ainda há esta rua. Ainda há o Tejo. Este elevador. Ainda há o incómodo. Enquanto houver incómodo, o crime não é perfeito.”
O elevador parou. A porta abriu-se para a luz inclinada da Bica. Teodoro levantou-se, compôs o chapéu e preparava-se para descer. Foi então que Tabucchi falou, ainda sentado, olhando a rua como quem olha um parágrafo inacabado:
— “Meu caro Teodoro… se o crime fosse perfeito, nós não estaríamos aqui a comentá-lo.”
Teodoro ficou imóvel por um segundo. Lá fora, o Tejo cintilava estreito. Tabucchi levantou-se com vagar.
— “Enquanto houver quem escreva — e quem leia — a realidade ainda respira. Pode estar ferida. Mas respira.”
Teodoro não respondeu. Limitou-se a bater com a bengala na calçada, confirmando que o chão era real.— “Tens razão, Tabucchi. O problema é que já ninguém sabe pontuar. Confundem exclamações com argumentos. Falta vírgula ao mundo.”