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Teodoro e o Bird

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24.03.2026

O Professor Teodoro Ramalho é um melómano. Para sermos exatos, diríamos que ele é um jazzomaníaco. Quando há alguns anos apareceu um serviço de internet chamado Jazztel, ele aderiu de olhos fechados. E quando surgiu um carrito da Honda, modelo Jazz, ele foi a correr comprar a maquineta. Manias dum amante do jazz, vertente bebop, diga-se de passagem. As boas línguas até dizem que Teodoro viu Charlie Parker, em carne e osso. Mas carne do que osso, naturalmente.

O dia em que Teodoro viu Parker ao vivo, foi marcante. Figura volumosa e impassível, parecia uma montanha musical. Genial. O movimentado Dizzy Gillespie fazia gingados com o corpo. Teodoro achou aquele som intrigante. Parker já tinha a alcunha de Bird, colada à pele. Aos ouvidos do Teodoro parecia haver ali a poética dum espírito livre que cantava através do saxofone. Pura ilusão! O termo Bird, vinha de yardbird, pássaro do pátio, uma gíria americana para os frequentadores habituais dos pátios murados das prisões. Parker, desde muito jovem, entrava e saía de prisões e hospitais, por dá cá aquela palha. Ou melhor, por causa da droga. Havia pouca poesia no universo de Parker.

Teodoro ajusta a agulha da vitrola. Abre as janelas. O tema Just Friends voa no som límpido de Parker, escondendo as derrapagens musicais dos violinos e do oboé. As cordas respiram. O fraseado bop de Parker enche as varandas suspensas da Vila Berta. O fumo do charuto em rodopios voa nos volteios musicais do sax tenor. O bebop era a música da cidade, a música da técnica, a música da explosão urbana. Eis, aí, Lisboa! A tua banda sonora. Exultai gente alfacinha! Nada de pieguices. É a realidade sórdida da selva de betão, numa batida lírica sem concessões. É jazz na sua versão mais densa. 

Na opinião de Teodoro, os músicos que desenharam o bebop queriam mostrar como eram melhores, e por isso inventaram um estilo que exigia destreza e sofisticação musical acima da média. Pelo meio, inventou-se a arte mais radical da América. Mas havia um detalhe: esta música era auto referenciável. A novidade e a beleza nasciam e morriam nos tecidos musicais jazzísticos. Fora dele o bebop era órfão. Inexistente. Teodoro deleita-se nisso: O som dos eleitos.

Zé Gaspar, o pedinte mais letrado de Lisboa, passa no passeio da Vila Berta. Colado na sua esteira Tejo lança olhares furtivos à janela do Teodoro: “O velho biruta e a sua música!”

Teodoro pensa em Parker e na possibilidade de ele ter emigrado para a Europa, onde seria endeusado e provavelmente teria todas as drogas que quisesse sem problemas. Mas esta também pode ser uma presunção poética. Talvez ele soubesse que não podia ‘cantar’ longe da sua gaiola, que a sordidez era o que alimentava o seu génio. E isso é literatura. Flaubert dizia: “Ce n’est pas avec le cœur qu’on écrit, c’est avec la tête” (não se escreve com o coração, mas com a cabeça). Parker, pelo contrário, era só vertigem. Uma espécie de descida aos infernos, mas com método. 

Anthropology roda na vitrola. Tempo ultrarrápido. Upíssimo. Impossível para um mero mortal. Todavia, Bird sola solto e leve. Rapidíssimo. Bird lives and still flies!

Teodoro fecha os olhos. Summertime invade os sentidos. O sax rearranja as ‘palavras’, alarga os intervalos, acentua a frase musical. É a coagulação da música. Embora, a progressão harmónica seja preservada, há improviso. E, aí, a conexão entre melodia e execução é frenética, porque o ritmo é impecável. “Be-bop” - vocalização onomatopaica de uma frase típica, com acentos em staccato. “Be-bop, bere-bop”. O melhor do bebop aconteceu até o Miles Davis começar a usar sandálias. E Parker foi o zénite da aventura intelectual do bebop. Entra o Parker’s Mood. Sublime.

A música invadia o bairro... O vizinho da frente bateu a janela. A vizinha do lado espinafrou-se toda: “Oh Teodoooooro, baixa a múúúúúsica!”

Teodoro engatilhou o charuto entre os dentes, murmurando: “Que filisteus!”


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