Teodoro e a Chávena de Catarina
O Professor Teodoro Ramalho esperava na Igreja de São João de Brito. A tarde avançava devagar, e a claridade nos vitrais deixava no chão manchas pálidas. O dia hesitava em abandonar Lisboa. O silêncio era interrompido apenas pelo toque suave da bengala de Teodoro contra a madeira dos bancos.
O Professor consultou o relógio e ficou a olhar a nave da Igreja, interrogando-se sobre a estranha natureza daquele encontro.
Foi então que a Princesa de Gales entrou. Trazia no rosto a serenidade das pessoas habituadas a ser observadas e um cansaço visível. Naquela tarde, a luz de Lisboa parecia vir de um inverno antigo. Kate caminhou até Teodoro e sentou-se ao seu lado.
— Professor, queria falar-lhe de uma mulher que nunca conheci, mas que me acompanha há algum tempo. Catarina de Bragança.
Teodoro voltou ligeiramente a cabeça.
— Sim — assentiu Kate, com um sorriso contido. — A mulher viajou para Inglaterra para casar com Carlos II. Tenho pensado no que significa chegar a um país estrangeiro, ocupar um lugar que não escolhemos inteiramente e, ainda assim, conseguir transformar alguma coisa.
Teodoro ia responder quando reparou numa mulher que se aproximava pelo corredor central. Vestia de escuro, com uma dignidade sem ostentação. O rosto parecia guardar uma solidão milenar. Teodoro levantou-se.
A mulher olhou para Kate.
— Catarina de Bragança — disse o Professor.
Kate levantou-se também. Durante alguns instantes, as duas mulheres permaneceram frente a frente, separadas por mais de três séculos e unidas por um nome que o tempo não conseguira gastar.
— Sempre tive curiosidade em conhecê-la — disse Kate.
Catarina franziu a testa sobriamente. Foram à Mexicana. Sentaram-se num canto tranquilo e Teodoro pediu chá para os três. Quando colocaram a chávena diante de si, Catarina observou-a demoradamente. Tocou-lhe........
