O professor Teodoro e o gato morto

O Professor Teodoro Ramalho ocupa sempre a mesma mesa lateral do Martinho da Arcada, não por superstição, mas por método. A argúcia requer parede nas costas. O chapéu repousa na cadeira vizinha como uma defesa silenciosa da forma; o charuto, aceso apenas depois do primeiro café, dá ao Professor uma calma editorial. Lá fora Lisboa respirava em pedra polida, pombos administrativos e turistas a fotografar o ar com a seriedade de funcionários do efémero. Lisboa transformara-se num manuscrito mal pontuado, onde a circulação substituíra o encontro.

O café era dominado por um homem que falava alto. O seu nome — repetido ao telemóvel com insistência litúrgica — era Rúben Felicíssimo. Todo um programa ideológico num nome. Rúben pertencia à classe dos optimistas técnicos: indivíduos que confundem energia com sentido. Não conversava; emitia relatórios. Prometia crescimento orgânico, expansão de marca, rentabilidade de recursos. O léxico corporativo, quando ouvido de perto, possui a abstração do catecismo económico.

Teodoro abriu um exemplar gasto de Elevem as Vigas do Tecto, Carpinteiros. Regressava sempre a Salinger como quem regressa a um instrumento de medição moral. A frase aguardava-o intacta: Seymour Glass declarando que a sua única ambição era ser “um gato morto”. E insistindo: “Um gato morto tem um valor inestimável porque ninguém lhe consegue atribuir um preço.”

A literatura raramente produziu recusa mais precisa. Seymour não responde a uma pergunta profissional; desmonta-a. A interrogação sobre o futuro, tão naturalizada pela sociedade moderna, contém já uma teoria de valor: o indivíduo é concebido como projecto economicamente legível. Perguntar “o que vais ser?” é perguntar “como serás integrado na circulação de utilidades?”. A imagem do gato morto interrompe brutalmente essa lógica. O cadáver não participa na economia do desejo. Não progride, não compete, não se optimiza.

Rúben Felicíssimo gargalhou e prometeu duplicar resultados trimestrais.

O escândalo contemporâneo não é o materialismo, pensou Teodoro; é a sua transparência. Salinger compreendera que o problema do materialismo não é a sua vulgaridade, mas a sua naturalização. O escândalo não é vender — é pensar que nada existe fora da venda. O gato morto adquire, por isso, um valor paradoxal: é inestimável precisamente porque não pode ser convertido. Primeira ideia: só escapa à captura o que não pode ser traduzido em preço no mercado.

Pela janela, a Praça do Comércio funcionava como diagrama vivo. Corpos deslocavam-se para posterior comprovação. Experiências eram registadas antes de serem sentidas. O mundo transformara-se em rascunho de si próprio. A memória fora terceirizada para máquinas; a presença tornara-se um intervalo técnico entre duas imagens.

Rúben iniciou outra chamada sem transição emocional.

Segunda ideia: a recusa não é negação da vida, mas defesa da sua espessura. Seymour não abandona o mundo; recusa a sua tradução contabilística. O gato morto é a recusa de equivalência universal. Permanecer fora de preço é talvez a última forma de dignidade humana.

Teodoro fechou o livro sem marcar a página. A releitura dispensa sinalética. O charuto desenhava no ar uma vírgula lenta — gesto mínimo de resistência. A civilização moderna, concluiu, não sofre tanto de crise moral quanto de aceleração gramatical. Tudo corre. Nada respira.

Rúben Felicíssimo saiu do café com a urgência de quem persegue a própria sombra.

O Professor Teodoro Ramalho permaneceu imóvel, praticando o escândalo silencioso de não justificar o tempo. A literatura ainda permite, pensou, a existência de coisas sem preço. Olhou a praça, o fluxo, a ansiedade organizada, e murmurou o seu diagnóstico irreversível: falta vírgula ao mundo.


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