Mais Saramugos e menos Saramagos!

Atualmente, insiste-se numa narrativa artificial que coloca Agricultura e Ambiente em lados opostos da barricada. Nada mais falso. Desde que passámos a primitiva fase de caçadores-recoletores que a Agricultura se tornou o único modelo – funcional e sustentável – de convivência com a Natureza.

Ao artificial, lá está, opõe-se o natural.

Os agricultores são aqueles que mais diretamente dependem do ecossistema em que se integram para sustentar o seu modo de vida. Todos, todos, todos dependemos da Agricultura por uma questão de sobrevivência, mas cada vez menos são aqueles – como os agricultores – que dependem diretamente do ecossistema para pagar os seus salários mensalmente. Assim, os poucos cidadãos hodiernos que continuam a depender mesmo do capital natural a que tiverem acesso são, lá está, os agricultores.

A derivação lógica é a de que, estruturalmente e por inerência, os agricultores são os maiores interessados em defender o Ambiente – ou, por outras palavras, o seu ganha-pão. Não sei quantos são aqueles que tiram um curso universitário para fazerem algo a que se vão dedicar apenas meia dúzia de anos – diria que poucos –, porém, geralmente, a área de especialização de uma pessoa é aquela à qual pretendem dedicar toda uma vida e… são cada vez mais os agricultores muito bem-educados (de um ponto de vista formal).

Ora: se escolhem uma área de especialização; se tendencialmente dedicarão toda a sua vida a essa área; se dependem do ecossistema para pagar salários ao final do mês; então os agricultores são os mais alinhados com a preservação do Ambiente que os rodeia.

Não queria cair numa espiral de silogismos – até porque para agricultor-filósofo lê-se muito melhor Alberto Caeiro –, no entanto “mostrem-me o incentivo, que eu vos mostrarei o resultado”, já dizia a sabedoria intemporal de Charlie Munger: se detetámos o incentivo, caríssimos, detetámos o resultado!

Porque têm os interesses alinhados como nenhum outro, serão os agricultores, sem qualquer dúvida, os melhores aliados na preservação do Ambiente. Na verdade, importa sempre relembrar que não se o faz sem eles visto que são estes os responsáveis pela gestão direta de mais de 70% do território nacional – entre floresta e terra arável.

Assim, é altura de inverter o paradigma. 

Podemos pegar em algumas espécies com um estatuto de conservação, classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), “ameaçado” para atacar o problema.

O Triops vicentinus (camarão-girino) é um fóssil vivo. Só pode ser encontrado – em todo o mundo! – em charcos temporários mediterrânicos. Precisamos de menos ambientalistas presos a um passado intensivista que já não é o da Agricultura atual – autênticos fósseis vivos – e de mais Triops vicentinus!

O Anaecypris hispanica (saramugo) é uma espécie endémica da bacia do rio Guadiana que também só por cá se encontra. É o peixe mais pequeno deste nosso grande rio. Precisamos de menos ambientalistas agarrados a uma doutrina perniciosa partilhada pelo Saramago – e de mais Saramugos!

A Galemys pyrenaicus (toupeira-de-água) é endémica do norte da Península estando, como referido, literalmente classificada como ameaçada e, quando assim se sente, faz guinchos agudos para afastar os predadores. Precisamos de menos manifestações ambientalistas histéricas e plenas de guinchos – e de mais toupeiras-de-água!

O Emys orbicularis (cágado-de-carapaça-estriada) é um dos répteis mais antigos do mundo e a Chioglosa lusitanica (salamandra lusitânica) é um anfíbio ameaçado comum em zonas de montanha. Precisamos de menos comportamentos reptilianos – porque consistentemente para ardilosamente chumbar projetos (ou anfíbios); porque umas vezes é mar e outras vezes é terra dependendo do proponente do projeto (no ICNF, na APA ou na DGADR) – e de mais cágados de carapaça estriada e salamandras lusitânicas!

A Aquila fasciata (águia-de-Bonelli) é uma águia, ameaçada, diferente de outras, visto não gostar de escarpas ou rochas desconfortáveis para fazer o seu ninho, mas preferir sobreiros ou pinheiros grandes que por cá temos para chamar de seu lar. Precisamos de menos olho-de-falcão a tentar chumbar projetos e de mais águias-de-Bonelli!

A Vipera latastei (víbora-cornuda) é uma serpente venenosa com cabeça em forma de triângulo e escamas que formam um apêndice na zona do nariz e fazem lembrar um corno. Precisamos de menos sangue-frio na apreciação burocrática e quadrada de vidas dedicadas à agricultura e de mais víboras-cornudas.

A Otis tarda (abetarda-comum) é das aves voadoras mais pesadas do mundo. Precisamos menos de entidades públicas pesadas e anafadas, incapazes de agilizar, e de mais abetardas-comuns.

Estas são as nossas espécies que me dá gosto, a alguns, dar a conhecer e que principalmente temos de contribuir para preservar. A lista podia continuar, mas a mensagem é simples – precisamos de continuar a produzir, todavia isso não é o antípoda de proteger e preservar. Nunca foi.

Se queremos mais saramugos, naturalmente temos de ter menos Saramagos, pois a ótica terá de ser a de criar condições para que quem vive da terra possa continuar a geri-la – e não a de criar condições e, quantas vezes, instituições artificiais para onerar tudo e todos e com resultados muito pouco mensuráveis. Tem de haver mecanismos de compensação eficientes e programas articulados com os agricultores para a preservação destas espécies e do Ambiente como um todo. Mais, e melhores.

Volto onde comecei. Os agricultores nunca estiveram do lado errado da barricada – e os que lá encontrarem rapidamente serão forçados por aquela que em todos nós manda, a Natureza, a sair da atividade.

Nós, agricultores, estamos, como sempre estivemos, no terreno – os primeiros e mais consequentes ambientalistas. Não nos cortem as pernas… deem-nos asas!

Mestre em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia e Mestre em Finanças e Mercados Financeiros pela NOVA SBE. Jovem Agricultor juntamente com a sua mulher com quem coordena uma exploração familiar especializada no pistácio. Profissionalmente, trabalha num dos maiores grupos agroindustriais com operação em Portugal, com foco na amêndoa, azeitona e azeite. Pai de duas filhas, por agora.

As Crónicas Rurais incidem sobre temas relacionados com o mundo rural, com uma periodicidade semanal. São asseguradas por um grupo de autores relacionados com o setor, que incluem Afonso Bulhão Martins, Cristina Nobre Soares, Daniel Montes, Filipe Corrêa Figueira, Marisa Costa, Pedro Miguel Santos e Susana Brígido e Tomás Roquette Tenreiro.


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