Chamar os gatinhos pelos nomes

A 04/02/2026 a APA respondeu a um agricultor nos seguintes moldes: “Exmos Senhores. Após análise do requerimento submetido informa-se V. Exas. que a massa de água em questão, Bacia do Tejo-Sado/ Margem Esquerda, encontra-se sujeita a restrições, na sequência das determinações da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento (CPPMA) dos Efeitos da Seca, pelo que, por tempo indeterminado serão indeferidos os pedidos para novas captações de água subterrânea não prioritárias.”

 Os epítetos para os quais as organizações de que hoje falo – os gatinhos, visto que não são tão fãs assim da Pecuária para que se cumpra com o ditado – se qualificam são, citando apenas declarações públicas do nosso, corajoso, Ministro da Agricultura e Mar: cobardes, mentirosos, fundamentalistas, radicais, empatas.

Ao longo do texto, os leitores – os mais corajosos - poderão acrescentar, se assim o desejarem, por sua iniciativa e com fundamento, alguns outros como: ideológicos, negacionistas, irracionais, obtusos, ignaros ou fanáticos.

O setor agrícola – que, diariamente, sofre por via dos braços armados na Administração Pública destes gatinhos – bem como portugueses que veem, constantemente, “águas passadas” por moinhos que ficaram por fazer, devem levantar-se em apoio de um político que, não dependente de qualquer cargo ou posição, tem a liberdade para qualificar devidamente determinados gatinhos com grande capacidade demagógica e, por conseguinte, mobilizadora de massas – votantes, entenda-se.

Chame-se os gatinhos pelos nomes: o país está refém dos braços armados dos gatinhos infiltrados na APA e no ICNF. 

Estes gatinhos transmitem por toda a cultura destas instituições uma mentalidade errada, visto que a certa passaria por, antes de chumbar projetos – e vidas no processo – procurar o enquadramento no quadro legal vigente, sugerir melhorias ao proponente e, se necessário, a posteriori articular com os corpos legislativos alterações à Lei ao invés de procurar obsessivamente a vírgula que impeça o projeto de acontecer.

O país simplesmente não pode continuar paralisado pela inércia, pela ideologia, dos gatinhos infiltrados nestas duas organizações porque isto tem impactos reais.

Impactos reais em pontos de injeção na rede elétrica – que precisam de resiliência acrescida – cujas hibridizações (complementação com recurso a outras fontes de energia) não são permitidas.

Impactos reais quando plantações são proibidas em 80.000ha altamente produtivos e das melhores terras agrícolas do país para salvaguardar meia dúzia de abetardas.

Impactos reais quando “linhas de água” registadas em carta militar (aquelas de 1960…), actualmente inexistentes, são usadas para vetar empreendimentos no meio de zonas já altamente urbanizadas.

Impactos reais quando políticas públicas de gestão cinegética – como as associadas com os javalis – levam a avultadíssimos prejuízos para os agricultores.

Impactos reais quando a 4 de fevereiro do presente ano a APA responde a um agricultor nos seguintes moldes: “Exmos Senhores. Após análise do requerimento submetido informa-se V. Exas. que a massa de água em questão, Bacia do Tejo-Sado/ Margem Esquerda, encontra-se sujeita a restrições, na sequência das determinações da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento (CPPMA) dos Efeitos da Seca, pelo que, por tempo indeterminado serão indeferidos os pedidos para novas captações de água subterrânea não prioritárias.” A margem esquerda do rio Tejo está arbitrariamente extirpada da possibilidade de realizar furos há mais de 3 anos.

Impactos reais na proteção de culturas quando os agricultores se veem impedidos de entrar no campo com recurso a métodos comprovadamente mais eficazes, seguros e que levam a uma redução significativa da quantidade de substância ativa aplicada – como os drones.

Como se nota, os exemplos que justificam os epítetos supra – e, portanto, integralmente as declarações do ministro – são inúmeros e têm sido, infelizmente, recorrentes nos últimos anos. 

A gota de água foi mesmo um comunicado de um grupo de gatinhos a 09/02/2026 alegando que “a má gestão do Alqueva põe em causa necessidades de água para consumo”.

Antes de Alqueva é que a água canalizada para a maior parte dos municípios do Alentejo era impossível por falta de uma reserva centralizada, como aliás fica mais do que claro no Relatório Final feito pelo CEDRU e pela EY/Parthenon - Avaliação do Impacto económico da Implementação do EFMA, e cujos quadros incluo como anexo ao presente artigo.

A inexistência do Alqueva, como esses gatinhos pugnaram há uns anos e ainda hoje o fazem por via de eufemismos como a “renaturalização” dos rios, é que poria em causa, com toda a certeza, as necessidades de água para consumo humano.

Onde os gatinhos se escaldam, e, portanto, ficam com medo, é mesmo na fria da matemática – aquela realidade que insistem em negar.

A barragem do Alqueva tem capacidade total de 4.150 hm³, dos quais cerca de 3.150 hm³ são volume útil. Nunca, desde que se fecharam as comportas em 2022, Alqueva viveu situações de stress ou, sequer, pré-stress estrutural. Na verdade, nos últimos dez anos, o volume útil nunca desceu abaixo de 1.734 hm³, ou seja, nunca se utilizou mais de cerca de 45% da capacidade útil do reservatório.

O consumo direto humano derivado do EFMA ronda os 10hm3/ano. Colocando em perspectiva:

A capacidade total da barragem corresponde a 415x (quatrocentas e quinze vezes) o volume de água que os gatinhos dizem estar comprometido;

O volume útil da barragem corresponde a 315x (trezentas e quinze vezes) o volume de água que os gatinhos dizem estar comprometido;

O volume total armazenado que nunca se utilizou corresponde a 237x (duzentas e trinta e sete vezes) o volume de água que os gatinhos dizem estar comprometido;

O volume útil que nunca se utilizou corresponde a 173x (cento e setenta e três vezes) o volume de água que os gatinhos dizem estar comprometido.

Os gatinhos tiveram ainda a mestria de divulgar este comunicado alarmante após 3 semanas ininterruptas de… descargas. Há mais de duas semanas, que Pedrógão (a “contra-barragem” de Alqueva) descarrega!

Desde 29 de Janeiro de 2026, o caudal médio em Pedrógão – o último ponto onde é possível controlar o escoamento – foi da ordem dos 2.500 m³/s, tendo atingido picos próximos de 5.000 m³/s. Assumindo, de forma conservadora, os 2.500 m³/s durante 16 dias, passaram pelo sistema mais de 3.450 hm³, ou seja, 345x (trezentas e quarenta e cinco vezes) o volume de água que os gatinhos dizem estar comprometido e, na verdade, mais do que todo o volume útil da barragem.

Para quem tem memória curta, em 2025, foram enviados rio abaixo quase 2.000hm3 quando o caudal ecológico por lei rondava os 400hm3. Têm sido sucessivos os anos em que pautamos por este “excesso” de caudal ecológico.

Em artigo futuro, tratarei do papel essencial para a segurança das pessoas que esta barragem – implantada naquele que era o “rio assassino” que matou 11 pessoas no Baixo Alentejo nas cheias de 1997 e desalojou 200 famílias – e tantas outras pelo país fora desempenham.

Entretanto, apoio o ministro e as suas declarações e urjo os gatinhos a deixarem de ser cobardes, mentirosos, fundamentalistas, radicais, empatas, ideológicos, negacionistas, irracionais, obtusos, ignaros ou fanáticos.

Vejo estes gatinhos como preocupantes para o desenvolvimento do país que amo… mas, vai na volta, até sou só eu que prefiro os cães. 

Mestre em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia e Mestre em Finanças e Mercados Financeiros pela NOVA SBE. Jovem Agricultor juntamente com a sua mulher com quem coordena uma exploração familiar especializada no pistácio. Profissionalmente, trabalha num dos maiores grupos agroindustriais com operação em Portugal, com foco na amêndoa, azeitona e azeite. Pai de uma filha, por agora.

As Crónicas Rurais incidem sobre temas relacionados com o mundo rural, com uma periodicidade semanal. São asseguradas por um grupo de autores relacionados com o setor, que incluem Afonso Bulhão Martins, Cristina Nobre Soares, Daniel Montes, Filipe Corrêa Figueira, Marisa Costa, Pedro Miguel Santos e Susana Brígido.


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