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Ucrânia, Europa e o declínio da confiança atlântica

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A História mostra-nos que, até 1945, o sistema internacional foi dominado por um conjunto de grandes potências, maioritariamente europeias, que competiam entre si pela supremacia global. O fim da I Guerra Mundial e o Tratado de Versalhes estabeleceram uma nova ordem internacional. Contudo, essa ordem, embora redesenhando o equilíbrio de poder, semeou as bases de uma instabilidade futura.

O Império Britânico atingiu formalmente o seu auge no pós-guerra, mas já enfrentava sinais claros de declínio económico e financeiro, agravados pelas dívidas acumuladas junto dos Estados Unidos. Em paralelo, a Alemanha, humilhada, caminhava para a radicalização; Itália ressentia-se pela ausência de compensações proporcionais às suas perdas humanas; o Japão sentia-se desconsiderado no sistema internacional, nomeadamente pelas limitações impostas pelo Tratado Naval de Washington (1922); e a Rússia emergia de uma guerra civil devastadora.

A decisão dos Estados Unidos de regressar ao isolacionismo após a I Guerra Mundial criou um vazio de poder que permitiu o ressurgimento de rivalidades históricas, conduzindo, quase inevitavelmente, à II Guerra Mundial. A ausência americana do palco internacional amplificou tensões latentes, permitindo que antigos ressentimentos ressurgissem com intensidade acrescida. Após 1945, o sistema internacional reorganizou-se em torno de duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética. A Europa estava em ruínas e o Reino Unido, embora ainda relevante, já não dispunha da capacidade para exercer liderança global.

Desta vez, os Estados Unidos adoptaram uma estratégia distinta e decisiva:

Investiram massivamente na reconstrução europeia através do Plano Marshall;

Garantiram a segurança colectiva por via da NATO;

Construíram uma rede de alianças baseada na confiança, previsibilidade e interdependência.

Ao contrário do período pós I Guerra Mundial, os Estados Unidos não recuaram. Pelo contrário, assumiram um papel central na reconstrução e estabilização da Europa Ocidental. Durante as décadas de 1940 e 1950, a presença americana era amplamente valorizada: símbolo de prosperidade, segurança e modernidade. Esta relação consolidou uma profunda confiança transatlântica. A Europa Ocidental ancorou-se no poder militar americano e no seu guarda-chuva nuclear, reconhecendo nos Estados Unidos um parceiro fiável e previsível, sustentado por valores partilhados.

Contudo, o início do século XXI marcou uma inflexão significativa. A presidência de George W. Bush, os atentados de 11 de Setembro e as intervenções no Iraque e no Afeganistão fragilizaram a credibilidade estratégica dos Estados Unidos. Muitos aliados europeus seguiram Washington em conflitos cuja legitimidade viria a ser amplamente questionada, gerando dúvidas profundas quanto ao julgamento estratégico americano. As armas de destruição maciça de então, são um exemplo.

A administração Obama não conseguiu restaurar plenamente essa confiança. Posteriormente, a presidência de Donald Trump acentuou a percepção de imprevisibilidade e erosão dos compromissos tradicionais. Ainda que a administração Biden tenha procurado travar este declínio, a ideia de um parceiro totalmente confiável ficou definitivamente abalada. A reeleição de Trump veio acentuar as reservas e a crítica central passou a incidir sobre três aspetos fundamentais:

A incapacidade de compreender o valor estratégico da confiança e da lealdade;

A crescente visão transaccional das alianças;

A desvalorização do capital político acumulado ao longo de décadas.

Neste contexto, a guerra na Ucrânia revelou uma transformação estrutural na natureza da guerra moderna. Com recursos limitados, a Ucrânia demonstrou uma notável capacidade de inovação, nomeadamente:

Utilização intensiva de drones e sistemas de comando distribuído;

Capacidade de neutralizar forças convencionais superiores;

Adaptação rápida a novas dinâmicas operacionais.

A União Europeia reconheceu rapidamente a importância desta evolução. O apoio à Ucrânia não é apenas político ou moral, é profundamente estratégico. Tal como os Estados Unidos apoiaram o Reino Unido em 1940-41, a Europa entende que esta é uma causa demasiado relevante para falhar. A Europa parece ter descoberto que hoje a Ucrânia já conta mais para a Europa que o inverso.  Mais do que isso, a guerra tornou-se um laboratório de aprendizagem. A eficácia das soluções ucranianas demonstrou que a natureza do conflito armado mudou de forma irreversível. Consequentemente, a sobrevivência da Ucrânia tornou-se também essencial para o futuro da defesa europeia. Ao apoiar Kiyv, a Europa assegura acesso a conhecimento, inovação e capacidade industrial emergente.

Paralelamente, com a guerra do Irão, emergiu um desenvolvimento geopolítico inesperado: a aproximação entre a Ucrânia e os países do Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar. Estes Estados, confrontados com vulnerabilidades nos seus sistemas de defesa tradicionais e com ameaças indiretas no contexto das tensões com o Irão, procuram soluções mais eficazes e ajustadas às novas dinâmicas da guerra contemporânea. Esta aproximação materializou-se recentemente na assinatura de acordos estratégicos de defesa, com duração de cerca de dez anos, entre Kiyv e estes países do Golfo. Esses entendimentos incluem cooperação tecnológica, desenvolvimento de projetos conjuntos, investimento no sector da defesa e, sobretudo, a partilha de conhecimento operacional no combate a drones e mísseis, uma área onde a Ucrânia adquiriu experiência única em contexto de guerra real. Em concreto, a Ucrânia comprometeu-se a fornecer sistemas integrados de defesa, incluindo drones navais, capacidades de guerra eletrónica e soluções de intercepção, bem como apoio técnico e envio de especialistas para o terreno. Em contrapartida, Kiyv procura reforçar a sua base industrial e financeira através destes parceiros.

Neste contexto, Zelensky até foi mais longe ao abordar a eventual contribuição ucraniana para a segurança do Estreito de Ormuz. Recordando a experiência no Mar Negro, sublinhou: “Enfrentámos um desafio semelhante quando a Rússia bloqueou o nosso corredor alimentar. Utilizaram uma vasta gama de meios, não apenas navios de guerra, mas também helicópteros, mísseis e caças. Conseguimos destruir grande parte da frota russa e forçá-la a afastar-se. Posteriormente, organizámos comboios de navios civis, recorrendo a drones navais para neutralizar ameaças aéreas e outros meios ofensivos.” Acrescentou ainda que o corredor alimentar se encontra hoje operacional e sob controlo ucraniano, salientando a disponibilidade de Ucrânia para partilhar essa experiência com outros países. No entanto, clarificou que, até ao momento, não houve qualquer pedido formal para intervenção no Estreito de Ormuz, limitando-se os parceiros a solicitar a partilha de conhecimento e boas práticas.

Neste cenário, a Ucrânia posiciona-se como:

Fornecedor de conhecimento em guerra moderna;

Parceiro tecnológico emergente;

Actor relevante na arquitectura de segurança regional.

Em contrapartida, recebe investimento, apoio financeiro e perspectivas de reconstrução sustentadas. Mais importante ainda, estabelece relações estratégicas baseadas em interesse mútuo e confiança crescente.

Segundo esta perspectiva, os Estados Unidos terão cometido erros estratégicos relevantes ao subestimar:

A complexidade do Irão;

A evolução da guerra assimétrica;

As consequências das suas acções na estabilidade regional.

Os conflitos no Iraque e no Afeganistão já haviam exposto limitações profundas das abordagens tradicionais. A repetição desses erros reforça a percepção de declínio estratégico. O mundo parece caminhar, assim, para uma nova ordem multipolar:

Menos centrada nos Estados Unidos;

Mais distribuída entre vários polos de poder;

Assente em tecnologia, adaptabilidade e alianças flexíveis.

A Ucrânia emerge como um actor inesperado, mas potencialmente determinante neste novo sistema. Simultaneamente, a Rússia enfrenta desgaste estrutural, os Estados Unidos veem a sua influência relativa diminuir e a Europa reposiciona-se estrategicamente. A História ensina-nos que períodos de destruição podem preceder fases de renovação e crescimento. Após a II Guerra Mundial, países devastados como Alemanha e Japão transformaram-se em potências industriais de referência.

Hoje, um cenário semelhante poderá estar a desenhar-se:

A Ucrânia poderá emergir como potência tecnológica e militar;

O Irão poderá reconfigurar-se no pós-conflito;

A ordem internacional será redefinida por novos actores e novas dinâmicas.

A conclusão é clara: no mundo contemporâneo, a confiança, a capacidade de adaptação e a antecipação do futuro são mais determinantes do que o poder tradicional. O mundo está a mudar e aqueles que compreenderem essa mudança serão os que irão moldar o seu resultado.

Coronel, Consultor de Defesa // Escreve de acordo com a antiga ortografia


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