Startups de Defesa: muito entusiasmo, pouca estratégia |
Para compreender verdadeiramente o momento que hoje atravessa o sector da Defesa, marcado por um verdadeiro boom de eventos, hackathons, seminários, startups, tecnologias emergentes e novos instrumentos de financiamento europeus e nacionais, é necessário ir além do entusiasmo do presente. Só olhando para três momentos-chave da última década se percebe a profundidade da transformação em curso: o período anterior a 2014, a ruptura provocada por 2022 e o novo contexto estratégico em que hoje nos movemos.
Durante mais de duas décadas após o fim da Guerra Fria, grande parte das democracias ocidentais viveu sob o “dividendo da paz”. A queda da União Soviética alimentou a percepção de que os conflitos tinham sido ultrapassados e que a segurança europeia estava estruturalmente garantida. Nesse contexto, muitos países europeus reduziram os seus orçamentos de Defesa, diminuíram efetivos e adiaram investimentos estruturais em capacidades militares pesadas. A prioridade deslocou-se para outras áreas da governação, enquanto a indústria de Defesa se mantinha concentrada em programas de longo prazo, com ciclos de desenvolvimento extensos e fortemente centralizados. A pouca inovação tecnológica no sector militar permaneceu largamente dependente dos gigantes tradicionais. O sector passou a ser percepcionado por grande parte do ecossistema tecnológico como burocrático, lento e pouco permeável à inovação externa, afastando naturalmente muitos empreendedores e investidores.
Quando a Rússia anexou a Crimeia em 2014 e iniciou o conflito no Donbass, esse foi o primeiro sinal claro de que o ambiente de segurança europeu estava a mudar. Foi um alerta estratégico importante. Contudo, apesar da preocupação política e diplomática que gerou, a realidade é que o ecossistema de Defesa europeu pouco se alterou. Houve alguma revisão de prioridades, um aumento moderado da atenção estratégica, mas no essencial o sistema manteve-se inalterado, como se este sinal fosse apenas uma excepção e não o prenúncio de uma transformação mais profunda no equilíbrio de segurança europeu. A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em Fevereiro de 2022, marcou uma mudança mais profunda. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a Europa voltou a assistir a uma guerra convencional de grande escala, envolvendo centenas de milhares de soldados, grandes volumes de artilharia, carros de combate, sistemas de Defesa aérea, drones, guerra eletrónica e operações combinadas de larga dimensão. Este conflito demonstrou várias realidades que muitos haviam subestimado, o consumo massivo de munições e equipamentos em guerras de alta intensidade, a importância da resiliência industrial e logística, o papel crescente de tecnologias relativamente acessíveis, como drones e sensores comerciais adaptados e a centralidade da guerra eletrónica, da informação e do ciberespaço. A guerra na Ucrânia tornou evidente que a segurança europeia não pode depender apenas de forças profissionais reduzidas ou de equipamentos extremamente sofisticados, mas produzidos em quantidades limitadas. Na dissuasão é necessária massa, resiliência e capacidade industrial.
Em paralelo, o conflito acelerou o interesse por tecnologias dual use, dos drones, à inteligência artificial, sistemas autónomos, análise de dados, sistemas OSINT, sensores avançados e software militar, abrindo espaço para uma maior participação de startups tecnológicas no ecossistema da Defesa.
Em resultado, a Defesa deixou de ser apenas uma questão militar e tornou-se um ecossistema estratégico multidimensional. A segurança nacional passou a incluir não apenas forças armadas, mas também a segurança energética, as cadeias de abastecimento críticas, as infraestruturas digitais, a capacidade industrial e a soberania tecnológica
A guerra na Ucrânia, as tensões no Indo-Pacífico e a recente guerra no Médio Oriente mostram que o mundo entrou definitivamente numa fase de competição estratégica entre grandes potências. Neste novo contexto, os países europeus enfrentam, nesta e porventura na próxima década, três desafios simultâneos.
O primeiro é reconstruir capacidades militares convencionais que foram negligenciadas durante décadas, o segundo é acelerar a inovação tecnológica, integrando novos actores industriais, incluindo startups e empresas tecnológicas que historicamente estiveram afastadas do sector da Defesa e o terceiro é reforçar a base industrial europeia, garantindo que a Europa possui capacidade própria para produzir sistemas críticos em quantidade suficiente e sem dependências excessivas de terceiros, sejam os EUA ou a China.
É precisamente neste cruzamento entre tecnologia, indústria e estratégia que surgem hoje muitas iniciativas de inovação em Defesa, mas a realidade continua a ser exigente: entrar neste mercado exige compreender profundamente doutrina militar, processos de aquisição, integração operacional e requisitos de segurança. Ao contrário de muitos mercados tecnológicos, a Defesa não recompensa apenas a criatividade. Recompensa sobretudo fiabilidade, integração e capacidade de sobreviver à realidade do campo de batalha.
O que está a acontecer atualmente é um fenómeno ambivalente. Por um lado, existem exemplos muito positivos de empresas portuguesas que conseguiram posicionar-se de forma credível no mercado internacional da Defesa, como é o caso, passe a publicidade, da Tekever, da Beyond Vision e de outras iniciativas tecnológicas que souberam identificar necessidades concretas e desenvolver soluções com aplicação real.
Porém, em paralelo com esses casos de sucesso, começa também a surgir um número crescente de startups que aparecem no sector mais por efeito de tendência do que por uma estratégia clara. Há hoje muito financiamento disponível para a Defesa, grande vontade de investir e um ambiente político favorável. O problema é que nem sempre esse entusiasmo vem acompanhado de ideias sólidas, conhecimento do mercado ou apostas estratégicas bem estruturadas.
O resultado é previsível. Se os drones estão na moda, então surgem drones por todo o lado. De repente, parece que qualquer equipa tecnológica decide criar mais um drone, como se o mercado estivesse à espera de dezenas de soluções idênticas. Portugal tem alguma tradição neste comportamento. Quando um negócio parece funcionar, a tendência é replicá-lo em série. O vizinho abre um café e pouco tempo depois surgem mais dez na mesma rua. Durante algum tempo parece haver espaço para todos, mas ao fim de um ano a realidade impõe-se: sobrevivem apenas os dois melhores, normalmente os que já lá estavam no início e no fim da rua.
No sector da Defesa, porém, esta lógica é ainda mais implacável. Não basta ter tecnologia interessante ou uma boa apresentação. É preciso compreender profundamente as necessidades operacionais, integrar-se em cadeias industriais complexas e demonstrar fiabilidade ao longo do tempo. Sem isso, muitas destas iniciativas acabam por desaparecer tão rapidamente quanto surgiram.
Muitas soluções são construídas a partir de uma ideia própria ou de um único mercado local, com a convicção de que, se algo funciona num país, naturalmente funcionará noutros. Na Defesa, essa suposição raramente se confirma. Os mercados são moldados por doutrinas militares diferentes, sistemas de aquisição próprios, estruturas de comando específicas, requisitos de segurança rigorosos, ecossistemas industriais protegidos e, acima de tudo, culturas institucionais distintas. O que funciona num país pode falhar completamente noutro.
Há ainda um equívoco recorrente no financiamento. Muitos investidores aplicam métricas típicas do mundo das startups, crescimento rápido, expansão imediata, escalabilidade quase automática, a um sector onde os ciclos de decisão podem demorar meses, senão anos e onde a confiança se constrói lentamente. A Defesa não é uma cafetaria onde se escolhe um produto na montra. É um jogo de médio/longo prazo, construído sobre credibilidade, integração em sistemas existentes e capacidade de sobreviver a ambientes onde o fracasso tem consequências reais.
O problema torna-se evidente no posicionamento. O “construímos drones” ou “usamos inteligência artificial”, só por si, não descreve uma capacidade militar.
A verdadeira pergunta é sempre outra: que problema da missão está a ser resolvido? Quem é o “end user”? Onde se integra o sistema? Como resiste à guerra electrónica? Como é mantido, protegido e sustentado? E, acima de tudo, porque razão o comandante militar deveria confiar nele quando muito e até vidas dependem dessa decisão? Na Defesa, a imprecisão não sobrevive ao contacto com a realidade.
Os comandantes não procuram soluções milagrosas. Procuram sistemas que funcionem dentro de ecossistemas operacionais complexos. Isso implica parcerias, integração tecnológica, cadeias logísticas, alinhamento doutrinário e, sobretudo, tempo para construir credibilidade. Os inovadores que acabam por ter sucesso nesta área raramente são os mais ruidosos. São os que começam por ouvir, fazem as perguntas difíceis e procuram compreender os soldados utilizadores, a missão e o ambiente operacional em que a tecnologia terá realmente de funcionar. Porque, no final, na área da Defesa o jargão não impressiona ninguém. O que realmente conta é simples: se a tecnologia ou o equipamento falha, alguém paga o preço…
Coronel, Consultor de Defesa // Escreve de acordo com a antiga ortografia