Quatro anos de guerra na Ucrânia: resistência, sofrimento e convulsão global

A 24 de Fevereiro de 2022, a Europa assistia incrédula ao anúncio da “operação militar especial” de Vladimir Putin, um eufemismo que rapidamente se revelou aquilo que era: uma invasão em larga escala da Ucrânia. Em rigor, a guerra não começara naquele dia. Tinha tido um prelúdio inequívoco em 2014, com a anexação da Crimeia e o conflito no Donbass. Ainda assim, nada preparara verdadeiramente os líderes europeus, nem as sociedades, para o choque daquele amanhecer de Inverno, quando a Rússia lançou uma ofensiva militar de grande dimensão contra um Estado soberano no coração da Europa.

Quatro anos depois, o conflito arrasta-se sem sinais claros de resolução. O que começou como uma ofensiva relâmpago, aparentemente destinada a impor uma nova ordem política em Kyiv, transformou-se num confronto de desgaste brutal. A guerra redefiniu fronteiras, destruiu cidades, ceifou centenas de milhares de vidas e alterou profundamente o equilíbrio geopolítico global. Ao mesmo tempo, expôs as consequências humanitárias devastadoras do conflito, evidenciou a notável tenacidade da sociedade ucraniana e revelou também os limites, políticos, estratégicos e morais, das respostas internacionais. Nos primeiros dias da invasão, as imagens que chegavam às nossas televisões eram quase irreais: colunas de carros de combate, explosões em zonas residenciais, famílias em fuga com malas improvisadas, estações de metro transformadas em abrigos. A indignação foi imediata. Governos europeus multiplicaram declarações de repúdio, anunciaram pacotes de sanções e prometeram apoio político, financeiro e militar à Ucrânia com a sociedade civil a mobilizar-se de forma espontânea.

Mesmo em cidades médias, longe dos grandes centros políticos, a solidariedade fez-se sentir. Em Viseu, por exemplo, nos dias que se seguiram à invasão, a comunidade ucraniana, juntamente com muitos outros cidadãos, organizou recolhas de bens essenciais. Em poucas semanas, juntaram-se mais de 150 toneladas de ajuda humanitária. Mais de dez camiões TIR partiram rumo à Ucrânia, carregados de alimentos, medicamentos, roupas e esperança. Havia um sentimento coletivo de urgência moral, a convicção de que, mesmo à distância, não podíamos ficar indiferentes. Hoje o cenário é diferente. A guerra continua, mas já não ocupa o mesmo espaço emocional no quotidiano europeu. As manifestações de apoio tornaram-se mais raras, menos participadas, menos entusiastas. A cobertura mediática, embora constante, perdeu o carácter de choque permanente. A distância geográfica, aliada ao passar do tempo, vai amortecendo a intensidade da solidariedade inicial. A fadiga instala-se, política, económica e emocional.

Este desgaste é humano e compreensível, mas não deixa de ser inquietante, porque, enquanto a atenção diminui, o sofrimento persiste. As cidades continuam a ser atingidas, as famílias continuam a ser separadas, os soldados continuam a morrer nas trincheiras de uma guerra que já marcou uma geração inteira. O conflito pode parecer longínquo no nosso dia a dia, mas permanece brutalmente real para milhões de ucranianos.

Talvez o maior desafio destes quatro anos não seja apenas militar ou diplomático, mas moral: como manter viva a consciência e a solidariedade quando o choque inicial dá lugar à rotina da guerra? Como evitar que a normalização do conflito se transforme em indiferença? A resposta não é simples, mas começa, certamente, por não esquecer que, para quem vive sob as sirenes e os bombardeamentos, a guerra não é uma manchete antiga, é um presente contínuo.

A guerra na Ucrânia tornou-se um prolongado impasse estratégico. As fronteiras do conflito mal se alteraram desde 2024, com as forças russas controlando cerca de 20 % do território ucraniano, um número que contrasta com as expectativas iniciais de conquista total ou decisiva do país. Esse impasse não diminui, porém, a intensidade dos combates. Ataques com mísseis e drones continuam sistemáticos, com os sistemas energéticos e civis ucranianos frequentemente visados poucos dias antes do marco dos quatro anos, em ataques que causaram mortos e dezenas de feridos. Os dados militares refletem o custo humano e material gigantesco: estimativas recentes apontam para mais de 1,2 milhão de baixas russas e cerca de 600 000 ucranianas apenas no lado militar, sem contar civis mortos, feridos ou desaparecidos.

Nenhuma estatística militar pode encapsular verdadeiramente o sofrimento humano. Milhões de ucranianos perderam as suas casas, foram deslocados internamente ou tornaram-se refugiados no estrangeiro, uma crise migratória e humanitária sem precedentes na Europa contemporânea. Histórias individuais e familiares que atravessam o tempo da guerra dão rosto a estes números: vidas destruídas por bombas, destruição de comunidades inteiras, experiências de perda que atravessam gerações. Além do deslocamento e das baixas, há outras feridas sociais profundas: famílias separadas, traumas psicológicos duradouros entre crianças e adultos, educação interrompida para toda uma geração e uma economia fragmentada. Manter a vida quotidiana sob constante ameaça tem implicações duradouras para a coesão da sociedade.

Apesar das perdas colossais, a sociedade ucraniana demonstrou uma resiliência impressionante. A necessidade de defender a soberania e a identidade nacional intensificou a coesão social, reforçando o sentido de propósito coletivo entre muitos cidadãos. Em vários sectores, a economia ucraniana mostrou sinais de recuperação e adaptação, ainda que a infraestrutura tenha sido severamente danificada e a dependência de apoio externo permaneça elevada. A vontade de proteger a própria terra transformou o sentimento público e consolidou uma maior consciência sobre a importância de laços democráticos, direitos civis e integração europeia, dimensões que antes da guerra eram muito menos consensuais.

Do outro lado do conflito, a Rússia também sofreu impactos profundos, embora de forma diferente. A guerra não trouxe ganhos territoriais robustos ou um claro “sucesso” militar. Pelo contrário, o custo económico, social e humano tem sido vasto, com recursos drenados e sacrifícios exigidos ao povo russo. Internamente, o regime de Vladimir Putin tem enfrentado uma reconfiguração social e política. Há relatos de crescente repressão, limitação de vozes dissidentes e uma classe elite que, para sobreviver, tem optado por alinhamento com o Estado, em vez de oposição aberta. Embora a economia russa, impulsionada por sectores como o de energia e guerra, ainda seja resiliente em alguns indicadores macroeconómicos, as vidas dos cidadãos comuns são marcadas por inflação elevada, dificuldades económicas e um futuro incerto para muitos.

No início da guerra, a União Europeia, os Estados Unidos e outros parceiros ocidentais mostraram uma frente relativamente unida no apoio à Ucrânia e na imposição de sanções económicas severas contra a Rússia. Ao longo de quatro anos, essa resposta incluiu apoio militar, ajuda humanitária, incentivos económicos e pressões políticas. O Parlamento Europeu, por exemplo, discutiu resoluções exigindo justiça e segurança duradouras para a Ucrânia, sublinhando o compromisso com os princípios do direito internacional. No entanto, apesar dessas ações, a eficácia das sanções e da coesão ocidental tem sido contestada. A Rússia conseguiu manter fluxos de receita através de combustíveis fósseis e outros canais, apesar de desafios económicos, e a adesão completa e simultânea das nações ocidentais nem sempre se mostrou unânime. Além disso, iniciativas de paz e negociações de cessar-fogo têm avançado lentamente, com progressos limitados e vetos implícitos ou explícitos por parte da Rússia.

Quatro anos de guerra na Ucrânia trazem à tona questões que transcendem fronteiras geográficas: a defesa dos princípios universais do direito internacional, a crise humanitária dos deslocados, o papel das grandes potências na manutenção da paz e os limites da intervenção externa. Este conflito ilustra, de forma dolorosa, que as guerras modernas são não apenas disputas militares, mas choques profundos de identidades, economias, valores democráticos e modelos de segurança coletiva. A busca por uma paz justa e duradoura continua a ser um desafio monumental, exigindo coragem política, solidariedade internacional e, acima de tudo, respeito incondicional pelos direitos humanos. Contudo, importa reconhecer um dado essencial: não há sinais consistentes de que a Rússia esteja a agir de boa-fé ou genuinamente interessada num fim negociado para o conflito. Pelo contrário, a persistência dos ataques, a retórica beligerante e a instrumentalização diplomática do diálogo sugerem uma estratégia de desgaste prolongado, na expectativa de dividir aliados e enfraquecer o apoio à Ucrânia. Essa realidade tem implicações profundas para a Europa. Não se trata apenas da defesa de um país vizinho, mas da salvaguarda dos princípios que sustentam a ordem europeia: soberania, integridade territorial e primado do direito internacional. Se a agressão for normalizada ou recompensada, abre-se um precedente perigoso que fragiliza a segurança colectiva do continente. Por isso, mais do que desejar o fim da guerra, a Europa precisa compreender que a paz não pode ser construída sobre ilusões ou concessões unilaterais, mas sobre garantias sólidas, responsabilidade e dissuasão eficaz.

Que os próximos anos não sejam marcados pela resignação ou pela fadiga estratégica, mas por uma lucidez firme: enquanto não houver vontade real de cessar a agressão, a defesa da Ucrânia continuará a ser, também, a defesa da própria Europa.

Coronel, Consultor de Defesa // Escreve de acordo com a antiga ortografia


© Sapo