Investimento na Defesa: qual o caminho certo?

A guerra na Ucrânia continua e a sua ligação ao conflito no Médio Oriente tornou-se cada vez mais evidente. Já não estamos perante crises isoladas, mas sim perante um sistema de conflitos interligados, onde decisões num teatro têm impacto directo noutros. Vladimir Putin percebe isso com clareza. Ao explorar tensões envolvendo o Irão, Moscovo não apenas alivia pressão económica interna, através da subida dos preços da energia, como também cria um ambiente estratégico que procura diluir o foco dos Estados Unidos e reduzir o apoio ocidental à Ucrânia.

Há, aliás, um paradoxo revelador desta interligação: o Irão, aliado da Rússia desde o início da guerra, forneceu drones que saturaram os céus de Kyiv. Hoje, essa mesma realidade levou a Ucrânia a tornar-se fornecedora de conhecimento e tecnologia para países do Golfo, ajudando-os precisamente a combater ameaças desse tipo. A aproximação entre Kyiv e países como Arábia Saudita, Emirados Árabes ou Qatar resulta dessa nova lógica. Estes Estados, confrontados com vulnerabilidades nos seus sistemas tradicionais de defesa e com ameaças indirectas associadas ao Irão, procuram agora soluções adaptadas à guerra contemporânea.

Essa convergência materializou-se em acordos estratégicos de médio/longo prazo, centrados em cooperação tecnológica, em desenvolvimento conjunto e em partilha de experiência operacional em drones, mísseis e guerra eletrónica. A Ucrânia oferece algo único: experiência real de combate em larga escala contra um adversário tecnologicamente relevante. Em troca, reforça a sua base industrial e garante financiamento para a sua sustentabilidade futura. Estamos, assim, perante uma mudança estrutural: a segurança deixou de ser um monopólio euro-atlântico. A Ucrânia nesta matéria já conta mais para a Europa que a Europa pesa para a Ucrânia. A corrida ao investimento em defesa é agora global.

Nos últimos anos, muitos aliados da NATO ultrapassaram finalmente o objectivo dos 2% do PIB em defesa. No papel, isso representa progresso. Na prática, levanta uma questão mais incómoda: esse investimento está alinhado com a natureza da guerra actual?

O caso do Reino Unido é ilustrativo. Apesar do discurso político, persistem cortes e decisões contraditórias. O governo britânico continua a ignorar a necessidade de aumentar o investimento na defesa. Na verdade, ordenou ao Ministério da Defesa que encontrasse cortes de 500 milhões de libras em despesas para cumprir o orçamento material do ano financeiro, desviando essas poupanças para financiar compromissos existentes. Um dos cortes foi a eliminação de dois importantes navios auxiliares da frota, colocados em reserva para poupar dinheiro. Foram agora vendidos a uma empresa de serviços públicos, que aparentemente os irá renovar e depois alugá-los a qualquer marinha “amiga” interessada. O caso do contratorpedeiro HMS Dragon, um de apenas dois operacionais entre seis construídos, enviado para Chipre para defender as bases britânicas tornou-se público. Quatro navios estão em grandes modernizações, após se descobrir que os motores não funcionavam bem em águas quentes. O Dragon e um navio irmão já foram reequipados. Um dos porta-aviões está em revisão profunda. Apenas um dos seis submarinos nucleares da classe Astute está operacional, com uma tripulação mista do Reino Unido, Austrália e EUA. Não há submarinos nucleares de ataque operacionais em águas europeias até Março de 2027. O governo não acelerou os trabalhos de modernização.

Esta realidade ajuda a explicar a prudência europeia face a um eventual envolvimento mais directo no conflito com o Irão: não é apenas uma questão de legalidade internacional. É, sobretudo, uma questão de capacidade real.

Há, naturalmente, desenvolvimentos encorajadores. A cooperação entre o Reino Unido e a Noruega em fragatas Type-26 e sistemas de drones aponta para uma maior integração operacional. A Noruega, ao elevar o seu investimento para 3,5% do PIB, demonstra alinhamento com a nova realidade estratégica. A França, por sua vez anunciou um novo porta-aviões nuclear de 78.000 toneladas, o “France Libre”, previsto para entrar ao serviço em 2038. Operará aeronaves de sexta geração, drones e Rafale-M, com sistema EMALS (Electromagnetic Aircraft Launch System). Também em Portugal, o navio "revolucionário" da Marinha Portuguesa foi lançado ao mar nos estaleiros da Damen, na Roménia e o ramo espera ter a plataforma multifunções operacional no primeiro trimestre do próximo ano. Na Polónia, nos Bálticos e em muitos outros países europeus é fácil perceber este esforço de reequipamento das suas forças armadas.

Porém, estes exemplos levantam uma questão crítica: estamos a preparar-nos para a guerra do futuro ou a modernizar a guerra do passado?

Nos EUA, o aumento massivo do orçamento de defesa revela outro problema: não basta gastar mais, é preciso conseguir produzir. É referida a escassez de munições, os atrasos industriais, os problemas na entrega de sistemas como o F-35 e várias limitações nos estaleiros navais mesmo num gigante da indústria da Defesa como são os EUA. A base industrial de defesa ocidental não está preparada para sustentar conflitos prolongados de alta intensidade. Isso tem impacto directo na Europa e na Ucrânia. Sistemas críticos como os Patriot enfrentam escassez, e a reposição de stocks poderá demorar quase uma década.

O campo de batalha ucraniano trouxe uma realidade difícil de ignorar: sistemas tradicionais altamente sofisticados, e extremamente caros, estão vulneráveis a tecnologias mais simples, baratas e escaláveis.

O programa britânico numa parceria internacional com a Itália e Japão com o objectivo de criar um caça de 6ª geração até 2035, conhecido como “Tempest / Future Combat Air System (FCAS) / GCAP (Global Combat Air Programme)”, que muitas vezes aparece associado a conceitos como Force 2030+, está hoje numa fase relativamente avançada, mas ainda crítica. A Alemanha, em conjunto com França e Espanha, enfrenta impasses profundos no projeto do Future Combat Air System (FCAS), o caça europeu de sexta geração, devido a desacordos industriais, com relatos indicando que o programa está à beira do colapso. A França poderá seguir sozinha, mas está anos atrasada face ao projecto britânico.

Ainda mais preocupante é o investimento contínuo em sistemas que podem já não ser eficazes. Na Ucrânia, muitos carros de combate modernos foram destruídos por drones. Os Abrams, Leopard 2 e Challenger 2 sofreram perdas significativas.

Isto levanta uma questão estratégica fundamental: estaremos perante um momento equivalente ao do couraçado revolucionário da Marinha Real Britânica HMS Dreadnought, que redefiniu a guerra naval, ou estaremos já num ponto ainda mais disruptivo, em que a própria lógica das grandes plataformas começa a ser substituída por sistemas distribuídos, massificados e de baixo custo?

Hoje, os drones podem estar a fazer o mesmo. Países com capacidade de os produzir em massa terão vantagem. Pequenas nações podem equilibrar forças com tecnologias acessíveis. Hoje, são os drones, a robótica e a IA - e não os sistemas pesados - que podem estar a redefinir o equilíbrio de poder. A grande questão permanece: estamos preparados? Ou continuaremos presos a sistemas caros, tácticas antigas e uma falsa sensação de segurança?

O investimento em defesa é hoje incontornável. Mas o verdadeiro desafio não está na quantidade, está na qualidade, relevância e adaptação. Se o investimento continuar orientado por lógicas industriais antigas, por interesses políticos e inércia estratégica corremos o risco de construir forças armadas preparadas para guerras que já não existem.

A Ucrânia mostrou que:

a inovação pode superar a escala

a adaptação pode compensar a falta de recursos

e a experiência real de combate é um multiplicador estratégico decisivo

A questão central mantém-se: estamos a aprender com esta guerra, ou apenas a reagir a ela?

O mundo está a mudar rapidamente.E, na defesa, quem se adapta mais depressa não é apenas mais eficiente, é quem sobrevive.


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