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A América que se afasta, a Europa que se redefine

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27.07.2026

Duas leituras recentes, aparentemente distintas, merecem ser lidas em conjunto. Uma descreve a passagem, deliberada e regulamentada, do comando da NATO e do “procurement” de defesa europeu para mãos europeias. A outra descreve algo mais desconfortável para Washington: as dificuldades demonstradas pela Marinha dos Estados Unidos, ainda a mais poderosa do mundo, em operar livremente no Estreito de Ormuz face a um Irão tecnologicamente isolado e fortemente sancionado. Importa, porém, ler as duas com o mesmo rigor com que se leem os relatórios que as sustentam: não como prova de declínio americano, mas como sinal de que o próprio modelo de superioridade militar em que a relação transatlântica assentou durante oitenta anos está a mudar de natureza, e a Europa, tê-lo escolhido ou não, já não pode dar-se ao luxo de presumir o contrário.

Do lado institucional, o afastamento é agora mensurável e não resulta de a Europa ter decidido empurrar os Estados Unidos para a saída, mas de Washington ter redefinido com clareza as suas prioridades estratégicas, deslocando o centro da sua atenção para a competição com a China. O gatilho é fácil de datar. A 14 de fevereiro de 2025, na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente norte-americano JD Vance proferiu um discurso a que muitos responsáveis europeus ainda hoje se referem, entre a ironia e a seriedade, como o momento em que os papéis do divórcio foram entregues. Acusou os governos europeus de sufocarem a liberdade de expressão e de terem perdido o contacto com as suas próprias populações em matéria de imigração, uma censura que muitos dos presentes, receberam como insulto deliberado, não como crítica de aliado. O que importou não foi o conteúdo, mas o sinal: Washington deixara de falar com a Europa como parceira a gerir, para passar a tratá-la como súbdita a repreender. As capitais europeias, muitas das quais já tinham simulado em gabinete um segundo mandato de Trump marcado pelo afastamento geopolítico, receberam o discurso como confirmação — e avançaram.

A reação europeia foi expectável, discreta e sobretudo estrutural. Com o programa SAFE (Security Action for Europe), que sustenta 150 mil milhões de euros em empréstimos e exclui dos principais contratos empresas de fora da UE, da Ucrânia ou da EFTA, a União Europeia decidiu que parte significativa dos novos recursos deverá reforçar a sua própria base tecnológica e industrial de defesa, não apenas para comprar equipamento, mas também desenvolver capacidade de o conceber, produzir, sustentar e modernizar em solo europeu. O envelope mais alargado, de 800 mil milhões de euros até 2030, exige que 55% da despesa vá para equipamento europeu ou ucraniano; a Alemanha autoimpôs um teto de 8% às compras americanas; a quota americana nas compras europeias de armamento, superior a 66% em 2024, caiu para cerca de 51% em finais de 2025.

A estrutura de comando seguiu o........

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