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O preço dos combustíveis não é só culpa dos mísseis

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20.03.2026

Por Tiago Preguiça, Country Manager da Plenergy em Portugal

Nos últimos dias, os portugueses têm vivido um cenário de déjà vu indesejado. As notícias sobre a escalada do preço dos combustíveis voltaram a dominar o debate público. No entanto, enquanto a discussão se foca frequentemente no labirinto da geopolítica e das cotações internacionais – fatores que nenhum de nós pode mudar -, há uma variável fundamental que está ao nosso alcance alterar e que é, frequentemente, esquecida: o poder da concorrência interna.

Não podemos mudar o preço do barril em Londres, mas podemos – e devemos – questionar margens modelo do setor que temos em Portugal. É precisamente nos momentos de maior pressão sobre os preços, que o papel dos operadores de baixo custo deixa de ser uma alternativa secundária, para se tornar um pilar essencial da resiliência económica das famílias e das empresas.

A ideia de que o combustível “mais barato” é de menor qualidade é um mito que o mercado já desmontou (são vários os estudos independentes que se publicaram ao longo dos últimos anos). Também de forma sistemática, o regulador faz fiscalizações ao produto vendido ao consumidor, mantendo padrões elevados de qualidade. O combustível em Portugal é, na sua grande maioria, o mesmo para todos. A diferença no preço final não reside essencialmente no produto, mas na estrutura que o entrega e na visão de modelo de negócio.

A competitividade no setor nasce da agilidade operacional. Quando se eliminam estruturas pesadas, programas de fidelização complexos que forçam o consumo cruzado e custos de marketing desproporcionais, o benefício é transferido diretamente para o cliente. Uma diferença de 10 ou 15 cêntimos por litro não é apenas uma poupança estatística; é a margem que permite a um pequeno empresário manter a sua carrinha na estrada ou a uma família chegar ao fim do mês com mais fôlego.

A importância de uma oferta competitiva e diversificada vai além dos clientes diretos desses postos. A presença de operadores focados no preço gera o chamado “efeito de vizinhança”: onde surge um posto com preços competitivos, os operadores tradicionais na envolvente sentem a pressão para ajustar as suas tabelas.

A concorrência é, portanto, o único mecanismo capaz de autorregular o mercado de forma justa, ao longo do tempo. Quanto mais os consumidores exercem o seu poder de escolha em postos eficientes, maior será o incentivo para que todo o setor procure soluções de custo mais baixo. É a democratização do acesso à mobilidade através da pressão competitiva e de modelos de negócio centrados no cliente e na sua comodidade.

O setor da energia está a mudar, mas a transição para uma economia mais sustentável não pode ser feita à custa do estrangulamento imediato da economia real. Enquanto o país debate a eletrificação, milhões de portugueses continuam a depender diariamente de combustíveis

fósseis para trabalhar, produzir e circular. Na verdade, o “país real” apoia-se neste setor para entregar, diariamente, produtos, riqueza e postos de trabalho.

A mensagem para o consumidor e para os decisores é clara: o mercado oferece opções, mas essas opções só sobrevivem se forem incentivadas. Não podemos continuar a viver de camadas e camadas de burocracia que asfixiam o investimento, refreando, dessa forma, uma maior oferta no mercado. Escolher e potenciar a concorrência não é apenas uma questão de poupança individual; é um ato de cidadania económica que obriga o sistema a ser mais transparente e eficiente, combatendo de forma eficaz as fraudes e a destorção do mercado, mas, simultaneamente, abolindo travões burocráticos desnecessários. No final do dia, o combustível mais caro é aquele que não nos dá liberdade de escolha.


© Sapo