IA e capital de risco: onde está a oportunidade de investimento em 2026 |
Por Tomás Penaguião, partner da Bynd VC
Em 2025, o capital de risco voltou a acelerar, superando os 400 mil milhões de dólares investidos a nível global e mantendo uma trajetória de crescimento consistente com os dois anos anteriores, de acordo com os dados revelados pela Dealroom.co. Este movimento tem um motor claro: a inteligência artificial (IA), que representa cerca de metade de todo o capital investido. Mais do que uma tendência, estamos perante uma mudança estrutural na forma como as empresas são criadas, como os negócios escalam e como se avalia o risco e o retorno.
O surgimento da IA generativa marca um verdadeiro ponto de viragem, comparável apenas a anteriores tecnologias que redefiniram a economia global – dos computadores pessoais nos anos 90, passando pela internet nos anos 2000 e chegando aos smartphones na década de 2010. À semelhança destas revoluções, a IA não é apenas um novo setor, mas uma tecnologia base que se está a tornar rapidamente numa camada horizontal em toda a economia. A velocidade de adoção da IA não tem precedentes. Só o ChatGPT, por exemplo, atingiu os 100 milhões de utilizados ativos mensais apenas dois meses após ser lançado, sendo este o crescimento mais rápido alguma vez registado num produto de consumo digital. Podemos dizer, hoje, que a IA deixou de ser experimental e passou a ser uma ferramenta central na rotina dos trabalhadores, dos consumidores e dos investidores.
Falando em particular do setor tecnológico, a IA está a transformar profundamente a forma como nascem novas startups. O custo de lançar um negócio tecnológico caiu drasticamente. Equipas pequenas conseguem, hoje, fazer em meses o que outrora exigia dezenas de pessoas e vários anos, ao recorrerem a ferramentas que aceleram a produção de código, o desenvolvimento de produtos e os testes de mercado. Para o capital de risco, isto altera a equação clássica: há mais startups, mais rápidas e a testarem hipóteses com menos capital inicial. Como investidores temos acompanhado esta transformação na primeira fila. Nos últimos dois anos, a Bynd investiu em quase uma dezena de startups de IA em áreas como a financeira, de marketing, legal, industrial ou vendas.
No entanto, nem todas as startups de IA representam boas oportunidades de investimento. Continuamos a ver muitos modelos facilmente replicáveis, dependentes em excesso de APIs externas dos LLMs (por exemplo, ChatGPT), que resultam, essencialmente, em chatbots ligeiramente melhorados, mas com pouca diferenciação e fraca defensabilidade a médio e longo prazo. O entusiasmo em torno da tecnologia não pode substituir uma análise rigorosa aos fundamentos do negócio.
A verdadeira oportunidade? Está nas startups que estão a construir agentes de IA profundamente integrados no funcionamento das empresas, especializados em casos de uso concretos e capazes de executar tarefas que antes não eram passíveis de automação. Estes agentes operam, então, em contexto real, com dados operacionais, processos internos e sistemas core, estando já a transformar setores inteiros ao gerar ganhos claros tanto em termos de eficiência quanto de produtividade. A proposta de valor é evidente e poderosa: automatizar processos repetitivos, com tempos de implementação curtos e retorno de investimento imediato para o cliente. É neste tipo de soluções que a IA passa de promessa a infraestrutura crítica.
De olhos postos em 2026, tudo indica que a procura e adoção de produtos de IA continuará a escalar, a par do surgimento de uma nova geração de fundadores altamente qualificados e talentosos a navegar esta onda tecnológica. Se nos últimos anos o impacto mais direto da IA se concentrou em áreas como o apoio ao cliente, o marketing, a programação e automação interna, o que se segue é a convergência da IA com a ciência e o hardware. Esta convergência terá impacto direto em áreas como a biologia, a saúde, a robótica e os veículos autónomos, abrindo espaço a oportunidades de investimento ainda mais transformadoras.
Em suma, para os investidores o desafio já não é decidir se devem investir em IA. Essa discussão está ultrapassada. A questão passa, agora, por perceber onde é que a IA cria valor duradouro, vantagens competitivas e modelos de negócio sustentáveis. Acredito que estamos a viver um período único para investir e apoiar empresas que não apenas usam a IA, mas que são capazes de a colocar no centro da criação de valor. São essas as empresas que vão definir a economia das próximas décadas, e que, muito provavelmente, vão redefinir também a própria noção de risco e retorno no capital de risco.