Ficar também é futuro
Quem, como eu, cresceu nos anos 80 lembra-se de um país onde kiwi era exótico, curgete parecia sofisticada e abacate não fazia parte da nossa civilização. Hoje explico isto aos meus filhos, entre cromos do Mundial e revival da série de sucesso Stranger Things. Eles riem-se. Para eles, tudo chega rápido, tudo parece estar perto.
Mas há uma coisa que continua longe, o interior.
Durante décadas ensinámos os jovens a sair para estudar, trabalhar e “ter futuro”. As vilas, aldeias e pequenas cidades do interior e da raia ficaram para trás. Muitos dos que estudaram fora acabaram por não voltar. E, durante muito tempo, voltar foi quase visto como falhar o caminho da modernidade.
A pergunta agora é outra. Como convencemos a Geração Z, e daqui a pouco a Geração Alpha, de que ficar ou voltar também pode ser moderno?
Um estudo europeu recente, Here to stay?, analisou jovens rurais dos 18 aos 30 anos em 14 países, entre 2019 e 2023. O dado mais interessante é que 57% queriam permanecer na sua zona rural e 19% admitiam apenas mobilidade próxima ou limitada. Cerca de 76% não queriam cortar com o seu território.
Isto não significa que todos queiram ser agricultores ou viver isolados no campo. Significa que muitos jovens não rejeitam o interior. Querem estudar, trabalhar, circular, sair e voltar. Querem ter mobilidade sem perder pertença. Querem que ficar não seja uma condenação e que voltar não seja um recuo.
É aqui que o neo-ruralismo deve ser levado a sério. Não como moda estética, nem como fotografia bonita de uma oliveira ao pôr do sol. O fenómeno mais interessante é cultural. Há uma geração a questionar o modelo urbano dominante, as rendas impossíveis, o trânsito, a ansiedade permanente e a sensação de que se trabalha muito para........
