A sombra de Centeno no Banco de Portugal |
A saída de Mário Centeno do Banco de Portugal não é apenas uma nota administrativa, é um ato de afirmação de poder interno e externo do governador Álvaro Santos Pereira, que comporta riscos políticos, institucionais e simbólicos. O ECO revelou em primeira mão que o Banco de Portugal e Mário Centeno chegaram a um acordo para a saída do ex-governador e atual consultor para a reforma aos 59 anos e com a pensão por inteiro, entre os 15 mil e os 17 mil euros brutos, mas acompanhada de outra informação não desmentida: A iniciativa partiu de Álvaro Santos Pereira e foi aceite por Centeno.
Centeno, recorde-se, foi ministro das Finanças do PS, transitou diretamente para governador do Banco de Portugal, e pelo meio aspirou a ser líder do Governo sucedendo a António Costa e até candidato a Presidente da República com o apoio do PS. Ironicamente, já como ex-governador, tentou uma candidatura a vice-governador do BCE, e teve o apoio do Governo que o tinha afastado meses antes, mas a possibilidade ficou pelo caminho. É evidente, assim, o perfil político e até partidário de Centeno e, tendo em conta este retrato, também é fácil perceber a capacidade do ex-governador e o potencial ruído interno, uma espécie de ‘dois papas’ no Vaticano… Centeno defendera publicamente, em setembro de 2025, que continuaria na casa, invocando uma carreira de 35 anos na instituição.
Quando um ex-governador com este peso sai assim, poucos meses depois da entrada de um novo líder, não estamos perante uma decisão de rotina, estamos perante uma rotura decidida no topo. Dito isto, a solução encontrada revela várias coisas. Álvaro Santos Pereira quis afirmar sua autoridade, e provavelmente conseguiu fazê-lo. Mas fê-lo da forma mais cara, política e financeiramente.
Um governador seguro do seu poder tende a absorver o passado, a enquadrá-lo, a esvaziá-lo por via da hierarquia, do tempo e até da redistribuição de influências. Quando escolhe empurrar o antecessor para fora, transmite outra mensagem, a de que a presença de Centeno continuava a ser vista como um foco de poder incómodo dentro da casa. Isso é uma demonstração de comando, mas também é, ao mesmo tempo, uma demonstração de vulnerabilidade porque sugere que a sua autoridade ainda não assentava apenas no cargo. Precisou de um gesto forte para se impor.
A autoridade institucional de um governador não é a mesma coisa que a autoridade política. Num banco central, a força mede-se menos por ruído e mais pela capacidade de liderar sem precisar de marcar território. Quando Santos Pereira sente necessidade de tirar de cena o seu antecessor, a leitura interna pode ser a oposta da que pretende projetar. Em vez de confiança, pode sugerir receio da sombra e um arranque defensivo. Álvaro Santos Pereira tomou posse como governador em outubro de 2025. O seu mandato ainda está no princípio. É precisamente por isso que esta decisão pesa tanto.
Depois, há a fatura pública. Mário Centeno nasceu em dezembro de 1966. A idade normal de acesso à pensão de velhice em 2026, no regime geral, é de 66 anos e 9 meses, ou seja, a generalidade dos portugueses só chega lá bastante mais tarde. No entanto, Centeno sai agora com a pensão completa — do fundo de pensões do Banco de Portugal —, num quadro estatutário próprio que a instituição não quis explicar. Haverá seguramente uma cobertura legal interna, pode haver até regras específicas, mas isso não resolve o problema principal. Um banco central não vive apenas da legalidade formal, pela sua função, vive também da legitimidade pública das suas decisões. E essa legitimidade enfraquece quando um ex-governador sai cedo, com pensão integral e sem transparência sobre os termos do acordo, que já levaram, aliás, André Ventura a anunciar que vai chamar o governador ao Parlamento para dar explicações. E o que estarão a dizer agora os outros consultores, seis, que ainda não chegaram à idade de reforma para aceder à pensão na totalidade? O Banco de Portugal vai seguir o mesmo princípio que deu a Centeno?
A reforma de Centeno é, por isso, cara em dois planos. É cara financeiramente, porque tudo indica que o banco assumiu um encargo relevante para acelerar o fecho deste capítulo. E é cara em termos reputacionais, porque reforça a perceção de que foi criado um regime de exceção para resolver um problema que é de Álvaro Santos Pereira. E nem será preciso muito esforço para pensar no que diria o economista Álvaro Santos Pereira do governador Álvaro Santos Pereira se fosse convidado a comentar esta decisão.
Há, por último, uma ironia política nesta operação. Ao afastar Centeno, Álvaro Santos Pereira pode ter resolvido um problema interno imediato, mas libertou um potencial foco de influência externa. Esta operação não mata o ‘centenismo’, na prática liberta-o, porque os seus amigos continuam no banco central. Fora do banco, Centeno deixa de estar sujeito à contenção institucional do cargo e da casa. Fora do banco, Centeno deixa de estar sujeito à disciplina silenciosa da instituição, vai ganhar margem para intervir, para pensar em voz alta, para regressar ao espaço público, académico ou eventualmente político e partidário. A história das instituições está cheia destes paradoxos. Santos Pereira expulsou Centeno para ganhar força e controlo e acaba por lhe dar uma liberdade que se poderá voltar contra si, dentro e fora do Banco de Portugal.
No final do dia, este desfecho diz mais sobre Álvaro Santos Pereira e sobre o que pode vir a ser a sua liderença do que sobre Mário Centeno. Diz que o novo governador fez uma demonstração de força e precisou de mostrar quem manda. Ora, quando um líder precisa de mostrar demasiado cedo quem manda, é porque teme que nem todos o tenham percebido ainda.
Num ECO Login que tem meses, ainda estava muito longe de se saber quem seria o novo governador, antecipei (e ficou escrito na ‘pedra’ para o devido escrutínio) que Santos Pereira seria uma escolha acertada para suceder a Centeno. A decisão de ‘reformar’ Centeno de forma compulsória não muda aquela avaliação, mas a partir de agora o governador deixou de ter desculpas (e sombras) para mostrar autoridade do governador, em particular na relação com o setor bancário, e para fazer as mudanças que anunciou querer fazer para transformar o Banco de Portugal nos próximos cinco anos.