A responsabilidade social dos meios de comunicação social na abordagem dos crimes violentos praticados contra as mulheres

Os homens e rapazes sabem quando cometem violência contra as mulheres e praticam-na porque se determinam nesse sentido. 

Portanto, a violação praticada contra mulheres é um crime em que há uma escolha consciente para a prática do ato. Não há motivação capaz de legitimar a conduta do ou dos agressores na falta de consentimento claro da vítima. Numa relação sexual tem de obrigatoriamente haver espaço para o sim.

A violação não é um crime suscetível de opinião, muito menos de perguntas capciosas quanto ao contexto em que a vítima se encontrava e as possíveis posturas que podia ter tomado para evitamento do crime.

Insistir-se numa narrativa sugestiva quanto ao comportamento da mulher para justificar uma violação significa escrutinar o comportamento da vítima ao invés de pôr o seu foco no comportamento do ou dos agressores. 

A violação não é um crime suscetível de opinião, muito menos de perguntas capciosas quanto ao contexto em que a vítima se encontrava.

A violação não é um crime suscetível de opinião, muito menos de perguntas capciosas quanto ao contexto em que a vítima se encontrava.

No entanto, é precisamente desta forma que se tem alimentado ao longo de décadas toda a cultura da violência praticada contra a mulher, em particular da violação praticada contra a mulher, com a legitimação e banalização de condutas violentas dos agressores e sua consequente desresponsabilização, potenciadora que é de reiteração e de mimetização pelos seus pares. 

Trata-se de uma atitude não intencional, mas estrutural, de uma sociedade que tem enraizados valores que traduzem a desigualdade de género, que enviesam totalmente o entendimento que se tem a respeito deste tipo de crime violento que há muito deveria ter sido erradicado e substituído por valores de igualdade, liberdade e respeito que os seres humanos têm de ter uns pelos outros. 

Ainda assim, a par da cultura patriarcal, temos vindo a assistir a um mundo digital reacionário promotor, para os jovens, de ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, igualdade e liberdade, que põe em causa de forma crescente e avassaladora a ideia de justiça social.

Precisamente por entender que este tipo de atitude não é intencional, mas antes estrutural, há muito que venho a defender a formação dos profissionais que interagem com vítimas e a grande importância que os meios de comunicação social têm na prevenção e no combate ao crime.

A par da cultura patriarcal, temos vindo a assistir a um mundo digital reacionário promotor, para os jovens, de ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, igualdade e liberdade.

A par da cultura patriarcal, temos vindo a assistir a um mundo digital reacionário promotor, para os jovens, de ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, igualdade e liberdade.

A comunicação social é um meio de informação por excelência ao alcance dos cidadãos em geral, tem uma responsabilidade social acrescida na medida em que o seus profissionais de comunicação são seguidos por milhares de pessoas e que, inevitavelmente, as suas opiniões são escutadas e acolhidas pelos seus seguidores. Daí a sua importância. As palavras e expressões generalistas que são ditas, comentários que são feitos, têm um alcance e peso magnânimes porquanto abrem espaço, branqueam, normalizam comportamentos, contribuindo para a ausência de limites e para uma desigualdade societária. Por isso, este tipo específico de profissionais não pode abordar os casos de violência, particularmente de criminalidade violenta, sem terem qualquer preparação para o efeito ou sem sequer refletirem antecipadamente nos impactos das suas palavras, sob pena de estarem a contribuir para a normalização da violência, banalização do crime e perpetuação da desigualdade de género e violência praticada contra a mulher, com claro desrespeito pelas vítimas sobreviventes. As palavras, que refletem um padrão, uma estrutura, têm um peso cultural muito grande. Contribuem inclusivamente para uma sociedade misógina, algo absolutamente inaceitável numa sociedade que se diz democrática e respeitadora dos Direitos Humanos. 

A comunicação social é um meio de informação por excelência ao alcance dos cidadãos em geral, tem uma responsabilidade social acrescida.

A comunicação social é um meio de informação por excelência ao alcance dos cidadãos em geral, tem uma responsabilidade social acrescida.

Há que dar lugar à indignação, consistente reflexão e diálogo sobre o tema. Sendo que, a empatia e solidariedade devem estar do lado das vítimas e não nos devemos acanhar de o dizer, tão pouco de o demonstrar.

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