Confesso que ainda fico estarrecido (e nem era pra ficar devida à frequência desses disparates) com a sanha da bancada evangélica em retirar direitos da comunidade LGBTQIAPN+, e o pior, usando a Bíblia para impor o que é família. Quem usa a Bíblia para determinar o que é ou não família comete alguns erros:

- Desconhece que a Bíblia é um livro recente na história da humanidade e que bem antes de ser escrita já existiam "famílias", e das mais diversas configurações;

- Família não é um conceito cristão, mas social, logo, sujeito às mudanças da sociedade;

- Se, ainda assim, utilizarmos a Bíblia para "padronizar" famílias, qual padrão usaremos? O de Abraão, "monogâmico", mas podendo usar escravas para procriar? O de Jacó, poligâmico, mas também com escravas para procriação? O de Davi, poligâmico? O de Salomão, extremamente poligâmico e ainda aberto ao concubinato? Adotaremos o levirato? O "celibato" proposto por Paulo?

- Entende, erroneamente, que sua religião e seu livro sagrado devem pautar uma sociedade onde deve haver plena liberdade de consciência e expressão religiosa ou mesmo o direito de não ter fé alguma.

Mas hoje, quando num país que ainda enfrenta desigualdades, fome, saúde precária, violências de gênero, desmatamento, genocídio da juventude negra, novamente essa bancada que não tem nada para fazer quer retomar o tema do “casamento gay”, lembrei desse texto que escrevi em 2011 (há 12 anos), quando o STF decidiu pela equiparação das uniões homoafetivas aos casamentos heteronormativos.

O bom casal gay

(Uma releitura da “parábola do bom samaritano”)

E numa tarde de domingo, vários pastores e líderes evangélicos e católicos, também apoiados pela ala “cristã” da Câmara e do Senado, encostaram Jesus na parede e lhe fizeram a pergunta crucial: Diga-nos logo quem são aqueles que fazem a Tua vontade e amam o próximo segundo a Tua verdade?

E Jesus então lhes contou uma história:

Um bebê foi abandonado por seus pais num valão que ficava entre duas igrejas: uma catedral católica, tradicional na cidade por sua beleza e imponência arquitetônica e um megatemplo evangélico, repleto de carros do ano à porta, cujo pastor ostentava seus muitos dotes financeiros em ternos de corte impecável e carros importados de causar inveja aos maiores empresários da cidade.

O pastor e sua esposa iam para o culto e ao pararem num sinal de trânsito perceberam o bebê jogado no valão, abriram o vidro blindado do seu carro e ouviram o choro da criança. Repreenderam o demônio que havia na “mãe tão desnaturada” que havia abandonado a criança ali, e já pensaram em organizar a Marcha Profética pelo fim do abandono de crianças. No entanto, devido às muitas viagens “em nome de Deus” e também do gasto que já tinham de condomínio e manutenção dos carros importados, não poderiam assumir o risco de levarem aquela criança pra casa, pois além dos gastos que lhe trariam, não sabiam sua procedência e se havia sobre ela qualquer espécie de maldição.

O sinal abriu, e partiram, orando por aquela situação.

Logo depois, no mesmo sinal passou um casal de católicos fervorosos. Há 20 anos lideravam movimentos de Encontros de Casais com Cristo, além do marido ser atuante nos Cursilhos de Cristandade. Viram aquela cena e choraram ao ouvirem o choro da criança abandonada. Falaram sobre as diversas Campanhas da Fraternidade, de como aquele quadro deveria ser mudado, perguntaram entre si pela turma da Teologia da Libertação, que não aparecia naquela hora e lamentaram não poder levar o bebê, devido ao fato de já terem gastos excessivos com seus cães labradores, ganhadores de concursos regionais. Mas saíram dali dispostos a participarem da próxima Marcha pela Família, organizados pelos setores de defesa da vida da sua igreja.

Já no fim da tarde, passava por ali dois rapazes, que comemoravam a recente decisão do STF em favor da união civil homoafetiva. Brindavam o fato de poderem legalizar a sua situação, já que há 8 anos viviam juntos. Mesmo em meio à música alta que tocava no carro, ouviram um choro ao longe, ao pararem no sinal vermelho.

Abaixaram o som e viram a criança que soluçava e já quase não tinha forças, abandonada ali ao relento, desde a manhã...

Choraram muito. Pararam o carro, desceram e pegaram o pequenino no colo. Seus corações arderam de amor por aquela vida tão frágil e indefesa que decidiram levá-la para o apartamento em que moravam, que passava por uma reforma, e decidiram deixar para depois a conclusão da sala-de-estar e transformaram o espaço no quarto do bebê. Deram-lhe o nome de Daniel, que um dos dois lembrara significar “Deus é meu juiz”, e o bebê agora sorria, ao tomar seu primeiro banho, nos braços dos seus novos pais...

E Jesus, encarando os olhares furiosos daqueles que estavam ali lutando pela honra da família cristã, perguntou:

- Qual destes casais provocou um sorriso de aprovação na face amigável de Deus?

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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O bom casal gay (releitura da parábola do bom samaritano)

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06.09.2023

Confesso que ainda fico estarrecido (e nem era pra ficar devida à frequência desses disparates) com a sanha da bancada evangélica em retirar direitos da comunidade LGBTQIAPN , e o pior, usando a Bíblia para impor o que é família. Quem usa a Bíblia para determinar o que é ou não família comete alguns erros:

- Desconhece que a Bíblia é um livro recente na história da humanidade e que bem antes de ser escrita já existiam "famílias", e das mais diversas configurações;

- Família não é um conceito cristão, mas social, logo, sujeito às mudanças da sociedade;

- Se, ainda assim, utilizarmos a Bíblia para "padronizar" famílias, qual padrão usaremos? O de Abraão, "monogâmico", mas podendo usar escravas para procriar? O de Jacó, poligâmico, mas também com escravas para procriação? O de Davi, poligâmico? O de Salomão, extremamente poligâmico e ainda aberto ao concubinato? Adotaremos o levirato? O "celibato" proposto por Paulo?

- Entende, erroneamente, que sua religião e seu livro sagrado devem pautar uma sociedade onde deve haver plena liberdade de consciência e expressão religiosa ou mesmo o direito de não ter fé alguma.

Mas hoje, quando num país que ainda enfrenta desigualdades, fome, saúde precária, violências de gênero,........

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