Basta um ataque em Israel para que o mundo evangélico entre em polvorosa: as redes sociais de evangélicos “tradicionais” e, principalmente pentecostais e neopentecostais é invadida por mensagens do tipo “Ore pela Paz em Israel” (só em Israel, percebam!) ou então alusões a uma interpretação literal de “profecias” do Apocalipse, onde a “volta de Jesus” se configura conforme os acontecimentos entre Palestina e Israel.

Tornou-se comum, também no atual cenário político nacional, ao ver-se uma manifestação da bancada evangélica ou de seus representantes, ter alguém ao lado com a bandeira de Israel. Fato que tem chamado a atenção de muita gente, afinal, em última instância o cristianismo seria a negação do judaísmo (ou seu fim = finalidade) para aqueles que se dizem seguidores do Rabi de Nazaré, Jesus, o Cristo.

Se houvesse um mínimo de coerência entre evangélicos (o que é realmente difícil), a lógica seria que OU Israel é o “povo de Deus” na Bíblia OU Jesus não é o Messias, já que, nos Evangelhos Jesus é rejeitado como Messias pela religião judaica e, por isso, se inicia um novo movimento que resultará na religião Cristã. Se Israel, HOJE, é o “Israel bíblico”, conforme o ensino evangélico, Jesus então foi um falso Messias, pois o “Israel bíblico” não o reconhece como DEUS (e aqui a questão é puramente conforme o ensino “teológico” evangélico, não sendo a opinião do articulista).

Mas nem toda equação é tão lógica quanto parece ser…

No início do Sec. XIX, mais precisamente nos anos 30 deste século, uma nova corrente teológica, denominada “Dispensacionalismo” ganhou espaço nos Estados Unidos, desenvolvida pelo pregador inglês John Nelson Darby e difundida e popularizada em todo território através da “Bíblia de Referência Scofield”, uma Bíblia que trazia anotações e estudos elaborados pelo teólogo e pastor estadunidense Cyrus Scofield. Essa corrente foi quase predominante durante muito tempo.

A teoria dispensacionalista atribui a Israel, entre outras coisas, papel fundamental para o fim dos tempos, a volta de Jesus e o estabelecimento total do Reino de Deus. Israel, “povo escolhido” de Deus, passa a ter, então, proeminência para todos os cristãos que abraçam esse tipo de pensamento, que ganha força extrema no pós-guerra e, principalmente, em 1948, com a criação do Estado de Israel, pela ONU.

A partir daí Israel torna-se, para a maioria dos protestantes/evangélicos que abraçaram essa teologia dispensacionalista (que no Brasil tem grande entrada em igrejas pentecostais e neopentecostais – e também em algumas igrejas históricas), o “relógio de Deus para o mundo”. Portanto, tudo que acontece a Israel, desde então, tem repercussão no “mundo espiritual” e também no cumprimento das profecias quanto ao fim do mundo e o reinado de Cristo. Daí essa paixão evangélica por qualquer coisa referente a Israel: tudo o que acontece lá, repercute cá.

É claro que há muito mais coisas envolvidas, principalmente no âmbito político-bélico quanto à parceria Estados Unidos – Israel (que é absorvida e difundida por boa parte da massa evangélica brasileira), principalmente quanto se tem conhecimento do “Destino Manifesto”, que é uma espécie de “doutrina, profecia e missão” na fundação dos EUA, onde é manifesto o destino daquela nação ser “o novo Israel para o mundo”.

Logo, Estados Unidos e Israel têm, como missão divina, papel fundamental na salvação do mundo. E parte da Igreja Evangélica Brasileira não perderia por nada uma boquinha nas “bodas do Cordeiro”, capitaneadas por essas duas nações “divinamente escolhidas”. E assim se explica essa predileção/escolha dos evangélicos (principalmente os que são orientados por teologias estadunidenses) por Israel como “povo escolhido” e “nação santa”, independente das atrocidades do Estado de Israel e o fato de não terem nada a ver com a noção de Israel na Bíblia.

Enquanto isso, Jesus, provavelmente palestino, anda por aí, entre os marginalizados e oprimidos, desde palestinos aos negros de nossas favelas, contra todo império que se levante, em nome dele, para oprimir, retirar direitos, segregar e promover a desigualdade…

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Evangélicos e Israel: entendendo a história e a histeria – Por pastor Zé Barbosa Jr

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11.10.2023

Basta um ataque em Israel para que o mundo evangélico entre em polvorosa: as redes sociais de evangélicos “tradicionais” e, principalmente pentecostais e neopentecostais é invadida por mensagens do tipo “Ore pela Paz em Israel” (só em Israel, percebam!) ou então alusões a uma interpretação literal de “profecias” do Apocalipse, onde a “volta de Jesus” se configura conforme os acontecimentos entre Palestina e Israel.

Tornou-se comum, também no atual cenário político nacional, ao ver-se uma manifestação da bancada evangélica ou de seus representantes, ter alguém ao lado com a bandeira de Israel. Fato que tem chamado a atenção de muita gente, afinal, em última instância o cristianismo seria a negação do judaísmo (ou seu fim = finalidade) para aqueles que se dizem seguidores do Rabi de Nazaré, Jesus, o Cristo.

Se houvesse um mínimo de coerência entre evangélicos (o que é realmente difícil), a lógica seria que OU Israel é o “povo de Deus” na Bíblia OU Jesus não é o Messias, já que, nos Evangelhos Jesus é rejeitado como Messias pela........

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