André Mendonça: a terrível mente evangélica no STF – por Pastor Zé Barbosa Jr |
André Mendonça, ministro do STF, é criticado por decisões no caso do Banco Master que teriam favorecido investigados próximos ao seu campo político e religioso.
Artigo argumenta que o ministro atua como "guardião de um grupo" ao tomar decisões seletivas sob o manto da legalidade.
Críticos apontam que, em vez de promover investigação rigorosa, Mendonça teria criado "atalhos jurídicos" que beneficiam aliados.
A atuação do ministro levanta questionamentos sobre a neutralidade esperada de um magistrado da Suprema Corte.
Há algo de profundamente perturbador e, ao mesmo tempo, revelador, na atuação do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Vendido ao país como o “terrivelmente evangélico”, expressão que ele próprio abraçou como marca de identidade, Mendonça se tornou símbolo de uma contradição cada vez mais visível: a instrumentalização da fé para fins de poder, proteção de aliados e blindagem política.
No caso envolvendo o chamado escândalo do Banco Master, essa contradição não apenas apareceu, ela está gritando.
Ao tomar decisões que favoreceram investigados, como a liberação de depoimentos em CPMI e outras medidas interpretadas como alívio jurídico para figuras próximas ao seu campo político e religioso, Mendonça não apenas atuou como juiz. Atuou como guardião de um grupo. E aqui reside o problema central: quando um magistrado da mais alta corte do país age seletivamente, ainda que sob o manto da legalidade, ele não apenas julga — ele escolhe quem merece ser alcançado pela verdade.
E isso, para alguém que se apresenta como defensor do Evangelho, não é um detalhe. É uma ruptura. O próprio texto bíblico, frequentemente evocado por lideranças evangélicas, é cristalino ao afirmar que “não há nada oculto que não venha a ser revelado, nem escondido que não venha a ser conhecido”. Trata-se de um princípio espiritual, mas também ético: a verdade deve emergir, doa a quem doer. Não há exceções para amigos, aliados ou irmãos de fé.
Quando André Mendonça atua no sentido contrário — dificultando investigações, relativizando responsabilidades ou criando atalhos jurídicos que beneficiam determinados grupos — ele não está apenas tomando uma decisão técnica. Está reinterpretando, na prática, o próprio conceito de justiça. E mais grave: está fazendo isso sob a bandeira do cristianismo.
O resultado é uma distorção perigosa. O Evangelho, que em sua essência aponta para justiça radical, defesa dos vulneráveis e compromisso inegociável com a verdade, passa a ser associado a estratégias de poder, proteção corporativa e conveniência política. O que deveria confrontar o pecado passa a protegê-lo — desde que ele esteja do “lado certo”.
Esse não é um problema isolado. A atuação de Mendonça no STF, em diferentes momentos, tem sido marcada por decisões que dialogam mais com uma agenda ideológica e religiosa do que com o espírito universal da Constituição. Ao invés de representar a neutralidade que se espera de um ministro da Suprema Corte, ele frequentemente parece atuar como representante de um segmento — e não da sociedade como um todo. Isso levanta uma pergunta incômoda: a quem serve um ministro “terrivelmente evangélico”?
Se a resposta for “à justiça”, então suas decisões deveriam ser as mais rigorosas possíveis contra qualquer indício de corrupção, desvio ou abuso — especialmente quando envolvendo figuras públicas e instituições influentes. O Evangelho não protege poderosos; ele os confronta. Não encobre erros; ele os expõe. Não cria privilégios; ele os desmonta.
Mas, se a resposta for “a um projeto de poder”, então tudo passa a fazer sentido. A fé deixa de ser bússola moral e passa a ser ferramenta de legitimação. A justiça deixa de ser princípio e vira instrumento. E o Supremo, nesse contexto, deixa de ser guardião da Constituição para se tornar palco de disputas travestidas de decisões técnicas.
O caso do Banco Master, com suas ramificações políticas, econômicas e religiosas, escancara esse dilema. Ao invés de permitir que tudo venha à luz, como manda o próprio Evangelho, há movimentos que sugerem o contrário: contenção, controle, proteção. E talvez seja esse o maior problema de todos.
Porque, quando a fé é usada para justificar o silêncio diante da injustiça, ela deixa de ser fé. Torna-se ideologia. Torna-se poder. Torna-se, no limite, aquilo que o próprio Cristo denunciou com mais veemência: a hipocrisia dos que falam em nome de Deus, mas agem em favor de si mesmos.
A trajetória de André Mendonça no STF ainda está em curso. Há tempo para revisões, para correções de rota, para reencontro com os princípios que ele próprio diz professar. Mas, até aqui, o que se vê é um retrato inquietante: o de uma fé que, ao invés de iluminar a justiça, parece obscurecê-la. E, nesse cenário, a pergunta que ecoa não é jurídica. É moral e ética.
No fim das contas, em relação ao ministro “terrivelmente evangélico”, quando este termo vem à tona, uma coisa é certa: Não há nada de evangélico. É só terrível mesmo. E mente.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum