Sei que corro o risco de tornar-me enfadonho e repetitivo. Já perdi a conta de quantas vezes escrevi por aqui ou disse em alguma entrevista o que canso de falar: não há como discutir política no Brasil sem levar em conta o elemento religioso. É um fato dado. Se vai mudar? Não sei, mas não será a curto e nem a médio prazo. A religião sempre esteve atrelada ao fazer política no Brasil.

Senão vejamos:

O primeiro acontecimento “histórico” do país: a primeira missa, celebrada no Monte Pascoal (fato que consta em todos os livros de história); a Revolta dos Malês teve forte influência da religião islâmica que muitos escravizados praticavam; A “Questão Religiosa” que sacudiu o Império numa trama que envolvia a Maçonaria, a Igreja Católica e, escondido no jogo, o protestantismo que começava a chegar por meio de missionários-maçons; a perversa “marcha da família com Deus pela liberdade”. Estes são apenas alguns exemplos dessa mistura explosiva que está entranhada no ethos brasileiro.

Com o advento da Teologia da Libertação na América Latina, a religiosidade cristã também se envolveu, e muito, nas lutas contra a Ditadura brasileira e ajudou a criar, através das Comunidades Eclesiais de Base, o maior partido popular da América do Sul: o Partido dos Trabalhadores. Sim, o PT tem fincada em sua história a leitura popular e revolucionária da Bíblia a partir dos pobres e excluídos. Quem diz que religião e política não se misturam, ou não entende de uma ou não entende da outra, ou, quem sabe, não entende nada das duas coisas.

O problema é que, com o advento do neopentecostalismo, que é a face mais desavergonhada de um evangelicalismo tradicional e conservador brasileiro, de raiz escravocrata (muitos missionários batistas e presbiterianos, no passado, apoiavam a escravidão. Inclusive alguns possuíam escravizados), racista, patriarcal e machista, e com uma ética conversionista e moralista, veio à tona o que já acontecia nos bastidores de evangélicos históricos e pentecostais no Brasil: um projeto de poder estruturado no fundamentalismo religioso. Projeto que também foi abraçado, acolhido e vestido com roupagens católicas pelos da “Renovação Carismática Católica”, que sempre resistiram ao “comunismo” dos padres progressistas da Teologia da Libertação.

Em meio a isso tudo, o que fez a esquerda? Primeiramente ignorou esse movimento incipiente até os anos 90 (mas que já dava sinais de existência) e depois passou a combatê-lo de maneira desastrosa, arrogante e, ultimamente, “lacradora”. Ideias como “crente é tudo alienado!”, “pastores são todos pilantras”, “igrejas só existem para lavagem cerebral”, e outros pensamentos afins grassam nos encontros e falas de muitas lideranças do campo da esquerda e, lamento informar, nada é mais distante da realidade do que essas ideias estereotipadas.

Estou dizendo que não há gente alienada nas igrejas, que não existem pastores pilantras e que algumas igrejas não fazem “lavagem cerebral” em seus membros? Claro que não. Mas que isso não reflete nem mesmo a maioria das igrejas, que estão muito mais para os “isentões” ou o “centrão” dessa luta política-ideológica-religiosa que para aquelas que sabemos ser antros de politicagem barata, venda de consciências e redutos empresariais fantasiados de igrejas. E não hesito em dizer que estes são minoria, porém, por terem MUITO DINHEIRO E MÍDIA, nos dão a sensação de serem muito mais do que são. Arrisco dizer que 40% da Igreja Evangélica brasileira hoje é “flutuante”, está “em disputa” entre os lados políticos e, a partir da forma como serão abordadas, podem muito bem constituir uma força democrática, ainda que com algumas colocações ainda conservadoras em seus discursos.

Minha grande preocupação é ver o quanto a esquerda cada vez mais “empurra Deus para a direita”, não acolhendo e investindo nos cristãos progressistas, não dialogando (até porque não faz a mínima ideia de como fazer isso) com essa massa “flutuante” e, pior, referendando cada vez mais a ideia de alienação evangélica cada vez que se refere aos principais expoentes dessa face perversa (que existe, mas como disse, não é hegemônica) e, com isso, afastando a possibilidade da disputa de mentes e corações que tentamos travar há décadas, de dentro, como pastores, pastoras e lideranças cristãs envolvidas com os Direitos Humanos, a Democracia e a plena Dignidade Humana.

A continuar nessa marcha de insensatez, arrogância pseudo-acadêmica e insistindo em não INVESTIR (sim, estou falando de dinheiro, mídia e visibilidade) nos cristãos que se colocaram nas trincheiras há tempos, como progressistas e de esquerda, experimentaremos uma derrota fragorosa nas próximas eleições, pois o discurso moralista pseudo-religioso, que nada tem a ver com o Evangelho, já está entranhado e espalhado de forma virulenta e tomando espaços cada vez maiores, como foi o caso dos Conselhos Tutelares. Isto é só o começo do projeto de dominação deles.

Mas há esperança! No entanto, para isso, precisamos que a esquerda ACORDE para a realidade. Negá-la não vai influenciar no fato de que ela está posta e escancarada: precisamos, e DEVEMOS, dialogar com evangélicos e católicos tomados pelo conservadorismo. Não haverá possibilidade alguma de sucesso do nosso lado caso isso não aconteça. Precisamos encarar as principais e mais polêmicas pautas sem a força da “lacração”, mas dispostos ao diálogo franco e sincero que, acredito, muitos cristãos ainda são capazes de fazer. Eu acredito que é possível. Mas teremos que descer do salto e ouvir o povo simples, sem desdenhar de sua fé, porque foi essa fé que os sustentou até agora em todos esses anos tão difíceis.

A fé não é inimiga da democracia, muito pelo contrário. E é pela fé que conseguiremos conquistar mentes e corações para um projeto melhor de Brasil e de América Latina.

Quem tem ouvidos, ouça!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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A esquerda empurra Deus para a direita

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28.10.2023

Sei que corro o risco de tornar-me enfadonho e repetitivo. Já perdi a conta de quantas vezes escrevi por aqui ou disse em alguma entrevista o que canso de falar: não há como discutir política no Brasil sem levar em conta o elemento religioso. É um fato dado. Se vai mudar? Não sei, mas não será a curto e nem a médio prazo. A religião sempre esteve atrelada ao fazer política no Brasil.

Senão vejamos:

O primeiro acontecimento “histórico” do país: a primeira missa, celebrada no Monte Pascoal (fato que consta em todos os livros de história); a Revolta dos Malês teve forte influência da religião islâmica que muitos escravizados praticavam; A “Questão Religiosa” que sacudiu o Império numa trama que envolvia a Maçonaria, a Igreja Católica e, escondido no jogo, o protestantismo que começava a chegar por meio de missionários-maçons; a perversa “marcha da família com Deus pela liberdade”. Estes são apenas alguns exemplos dessa mistura explosiva que está entranhada no ethos brasileiro.

Com o advento da Teologia da Libertação na América Latina, a religiosidade cristã também se envolveu, e muito, nas lutas contra a Ditadura brasileira e ajudou a criar, através das Comunidades Eclesiais de Base, o maior partido popular da América do Sul: o Partido dos Trabalhadores. Sim, o PT tem fincada em sua história a leitura popular e revolucionária da Bíblia a partir dos pobres e excluídos. Quem diz que religião e política não se misturam, ou não entende de uma ou não entende da outra, ou, quem sabe,........

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