Rilke e o dia em que perdi tudo – menos a escrita

Rilke e o dia em que perdi tudo - menos a escrita

Entre 1903 e 1908, Rainer Maria Rilke respondeu a cartas enviadas por Franz Xaver Kappus, então um jovem cadete austríaco, com cerca de 19 anos quando escreveu a primeira carta, dividido entre a disciplina militar e o chamado da literatura. A primeira carta de Rilke é de 17 de fevereiro de 1903, escrita em Paris; a última, de 26 de dezembro de 1908, também de Paris. O conjunto só viria a público em 1929, três anos após a morte do poeta, quando Kappus reuniu as dez cartas e as publicou sob o título Briefe an einen jungen Dichter. Rilke, nascido em 4 de dezembro de 1875 em Praga — então parte do Império Austro-Húngaro — e de nacionalidade austro-húngara (mais tarde associado culturalmente à tradição germânica), morreu em 29 de dezembro de 1926, em Valmont, na Suíça. Viveu grande parte da vida sem estabilidade financeira, sustentando-se sobretudo por meio de sua escrita, de colaborações literárias, traduções e, de modo decisivo, pelo apoio de mecenas e aristocratas europeus, entre eles Marie von Thurn und Taxis, que lhe ofereceu abrigo e condições de criação em diferentes momentos. Em dezembro de 2026, completar-se-ão cem anos de sua morte — um centenário que não celebra apenas uma obra, mas a permanência inquietante de uma voz que ainda interpela. Quando li “Cartas a um Jovem Poeta” pela primeira vez, eu já havia começado muito antes a conversa que aquele livro aprofundaria. Alinhavei ideias, registrei perplexidades, descrevi indignações e ensaiei uma forma de existir pela escrita. Eu ainda não conhecia Rilke, mas já intuía o território em que ele pisaria com autoridade moral rara: a escrita como necessidade, não como ornamento. Na primeira carta, Rilke não pergunta ao rapaz se ele tem talento, prestígio ou técnica.

Entre 1903 e 1908, Rainer Maria Rilke respondeu a cartas enviadas por Franz Xaver Kappus, então um jovem cadete austríaco, com cerca de 19 anos quando escreveu a primeira carta, dividido entre a disciplina militar e o chamado da literatura. A primeira carta de Rilke é de 17 de fevereiro de 1903, escrita em Paris; a última, de 26 de dezembro de 1908, também de Paris. O conjunto só viria a público em 1929, três anos após a morte do poeta, quando Kappus reuniu as dez cartas e as publicou sob o título Briefe an einen jungen Dichter.

Rilke, nascido em 4 de dezembro de 1875 em Praga — então parte do Império Austro-Húngaro — e de nacionalidade austro-húngara (mais tarde associado culturalmente à tradição germânica), morreu em 29 de dezembro de 1926, em Valmont, na Suíça. Viveu grande parte da vida sem estabilidade financeira, sustentando-se sobretudo por meio de sua escrita, de colaborações literárias, traduções e, de modo decisivo, pelo apoio de mecenas e aristocratas europeus, entre eles Marie von Thurn und Taxis, que lhe ofereceu abrigo e condições de criação em diferentes momentos. Em dezembro de 2026, completar-se-ão cem anos de sua morte — um centenário que não celebra apenas uma obra, mas a permanência inquietante de uma voz que ainda interpela.

Quando li “Cartas a um Jovem Poeta” pela primeira vez, eu já havia começado muito antes a conversa que aquele livro aprofundaria. Aos 13 anos, iniciei meus diários. Aos 19, deixei de escrevê-los. Eram sete cadernos grossos, cada um com algo entre 200 e 300 páginas. Neles atravessei os anos inquietos, febris e muitas vezes sombrios da adolescência. Testei a palavra antes mesmo de compreendê-la inteiramente. Alinhavei ideias, registrei perplexidades, descrevi indignações e ensaiei uma forma de existir pela escrita. Eu ainda não conhecia Rilke, mas já intuía o território em que ele pisaria com autoridade moral rara: a escrita como necessidade, não como ornamento.

É por isso que o primeiro grande conselho do livro continua sendo o mais duro e o mais decisivo. Na primeira carta, Rilke não pergunta ao rapaz se ele tem talento, prestígio ou técnica. Ele o empurra para um exame sem testemunhas. Manda que ele se volte para dentro de si, investigue a razão que o leva a escrever e se confesse, no fundo da noite, se teria de morrer caso lhe fosse proibido escrever. Em traduções diferentes, a formulação varia um pouco, mas o núcleo é esse: “retire-se para dentro de si”, pergunte “preciso escrever?” e descubra se a escrita é necessidade vital.

O significado oculto desse conselho é mais severo do que parece à primeira leitura. Rilke está separando desejo de destino. Muita gente quer publicar; poucas pessoas aceitam pagar o preço interior de escrever. O poeta austro-húngaro não está fazendo uma apologia romântica do sofrimento. Está apenas desenhando uma fronteira. Escrever, para ele, não é atividade complementar da vida. É forma de responder à própria vida. Quem pode viver intacto sem escrever talvez admire a literatura; quem não pode talvez pertença a ela. Essa distinção me feriu e me iluminou quando jovem, porque meus cadernos já não eram passatempo. Eram morada. Eram defesa. Eram método de escavação de mim mesmo.

Neles havia de tudo. Estavam minhas primeiras resenhas de filmes como “O Mundo dos Aventureiros”, “Teorema”, “Marcelo Zona Sul”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “O Sétimo Selo”, “Jules et Jim”, “Acossado” e “E Deus Criou a Mulher”. Não eram críticas maduras, naturalmente. Eram tentativas de apreender o que aquelas imagens incendiavam em mim. A adolescência lê e vê o mundo com excesso, mas às vezes esse excesso é o único instrumento disponível para tocar o real. Meus cadernos eram isso: um laboratório sentimental e intelectual, às vezes confuso, às vezes iluminado, mas sempre verdadeiro.

Aos 15 anos e alguns meses, eu já havia lido 150 livros. Fiz uma lista com títulos, autores e uma frase sobre o que cada obra deixara em mim. Hoje, olhando para trás, percebo que aquela lista era menos um inventário de leituras do que um mapa de formação. Rilke aconselhava o jovem Kappus a buscar nos elementos da vida cotidiana, da infância, da memória e da experiência interior a matéria de sua criação. Também aí suas palavras ressoaram profundamente em mim. Havia nos meus diários um esforço ainda bruto, mas genuíno, de converter vida em linguagem antes que a vida escapasse sem testemunho.

Outro conselho central, e por muito tempo mal compreendido, aparece ainda nessa primeira carta: uma obra de arte é boa quando “nasce da necessidade”. A frase está ali, com clareza. E ela não é confusa. Confuso é o ambiente cultural que a cerca hoje. Rilke está dizendo que o valor de uma obra não começa na recepção, nem na crítica, nem na visibilidade, mas na sua origem. O critério inaugural não é o mercado: é a combustão interior que a tornou inevitável. Uma obra feita para agradar talvez circule mais; uma obra nascida de necessidade tende a durar mais. Eis a diferença.

Foi também nos meus diários que se alojou, com a solenidade secreta dos primeiros desastres íntimos, o amor platônico por uma professora quando eu tinha 13 anos. Escrevi cinco cartas para ela. Apenas duas foram entregues. Três ficaram no limbo dos rascunhos, nascidas e mortas dentro dos cadernos. Hoje vejo que aquelas cartas não entregues talvez tenham sido mais importantes do que as enviadas. Elas me ensinaram a dimensão subterrânea da linguagem: nem toda palavra foi feita para o mundo; algumas existem para organizar o tumulto da alma. Rilke, anos depois, me ensinaria que o amor também precisa de interioridade, que não é fusão sentimental nem espetáculo emotivo, mas tarefa difícil entre seres que precisam preservar a própria densidade. Na sétima carta, ele insiste que “o amor é difícil” e que sua forma mais alta não anula a solidão: a amadurece.

Havia ainda a estante com portas e cadeado. Ali estava o meu tesouro. Não ouro, não dinheiro, não certificados: pensamentos ilimitados, imperfeitos, ora contemplativos, ora indignados. Meu arquivo mais precioso era feito de papel pautado e vulnerabilidade. Aos 16 anos, poucas coisas no mundo tinham para mim valor comparável àqueles cadernos. Eles guardavam não apenas o que eu pensava, mas a prova de que eu estava aprendendo a pensar.

E então veio junho de 1979.

Eu estava na Bahia e, de Salvador, seguiria para a área indígena Kiriri, em Ribeira do Pombal. Foi uma experiência única, dessas em que oito ou nove dias parecem conter, comprimida, uma vida inteira. Há viagens que ampliam paisagens; outras ampliam consciência. Aquela fez as duas coisas. Ao regressar a Salvador, porém, fui atingido por uma notícia que ainda hoje me dói com uma nitidez quase física. Meu amigo Sérgio Couto veio até mim abatido. Disse que, nos dias em que estávamos na área indígena, caíra sobre o bairro de São Cristóvão, próximo a Itapuã, um dilúvio de chuvas. O telhado velho da casa onde eu morava com outros jovens idealistas não resistira. Todos os quartos haviam sido alagados. Tentaram salvar o que puderam. Meus livros e meus cadernos, porém, ficaram ensopados de água e terra e precisaram ser descartados.

Há perdas que não envelhecem. Apenas aprendem a respirar dentro de nós.

Aquele episódio não destruiu somente papel. Destruiu a matéria visível de uma travessia interior. Levou embora anotações, listas, cartas, resenhas, indignações, deslumbramentos, o retrato vacilante de um adolescente em formação. Talvez por isso eu nunca tenha me recuperado inteiramente. Mais de quarenta anos depois, ainda sinto que uma parte da minha juventude foi enterrada viva naquela lama. E, no entanto, aqui a atualidade de Rilke se impõe com força quase cruel. Na quarta carta, ele pede paciência diante do que ainda não se resolveu no coração e aconselha a “viver agora as perguntas”. Na oitava, escreve que certas tristezas são momentos em que algo novo entra em nós. Não é pouco. Nem é confortável. Mas continua verdadeiro.

Talvez seja esse o motivo de um livrinho tão breve permanecer tão extraordinário. “Cartas a um Jovem Poeta” não pertence apenas ao início do século XX. Pertence a qualquer tempo em que a pressa queira substituir a maturação, em que a exposição queira tomar o lugar da escuta, em que a ansiedade de aparecer tente usurpar a disciplina de se tornar. Seu conselho não envelhece porque toca o que em nós custa mais a nascer: uma fidelidade sem plateia à própria voz.

No meu caso, essa voz começou em cadernos hoje perdidos. Mas nem mesmo a água, a terra e o esquecimento conseguiram anular inteiramente o que eles fizeram comigo. Os cadernos morreram. O gesto permaneceu. E talvez seja essa a mais severa e bela verdade que Rilke me ajudou a compreender: escrever não salva nada do tempo, mas às vezes salva do naufrágio aquilo que, sem a palavra, nem sequer chegaria a ter forma.

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