Quando a guerra escolhe meninas como alvo |
O ataque a uma escola de meninas em meio ao conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã foi confirmado. Não se trata, portanto, de especulação ou ruído de guerra. Trata-se de um fato que precisa ser analisado à luz do Direito Internacional, da ética pública e da responsabilidade política global.
Escolas são bens civis. Crianças são pessoas protegidas. Meninas são sujeitos de direito.
A Convenção de Genebra de 1949 e seus Protocolos Adicionais estabelecem o princípio da distinção, segundo o qual é proibido atacar civis e bens de caráter civil. O Protocolo Adicional I, em seu artigo 52, protege expressamente bens civis contra ataques. O artigo 77 reforça a proteção especial às crianças em conflitos armados. A Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989, determina no artigo 38 que os Estados devem respeitar e garantir o respeito às normas do Direito Internacional Humanitário aplicáveis às crianças. A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, a CEDAW, impõe aos Estados o dever de adotar medidas que assegurem às meninas acesso à educação e proteção contra todas as formas de violência.
Quando uma escola de meninas é atingida, não estamos diante apenas de uma tragédia humanitária, mas de um possível descumprimento direto de compromissos multilaterais que estruturam a ordem internacional do pós-guerra. Esses tratados não são retórica diplomática. São a materialização da promessa civilizatória construída depois das maiores catástrofes do século XX.
Uma bomba que cai sobre uma sala de aula não destrói apenas concreto e madeira. Ela interrompe trajetórias. Ela suprime possibilidades. Ela apaga futuros que sequer tiveram a chance de começar.
Atacar meninas significa atacar a próxima pesquisadora que poderia liderar uma descoberta científica, a futura magistrada que defenderia direitos fundamentais, a professora que formaria cidadãos críticos, a parlamentar que enfrentaria autoritarismos. A guerra, nesse sentido, não mata apenas no presente. Ela compromete estruturalmente o amanhã.
Existe, ainda, um componente simbólico que não pode ser ignorado. Historicamente, a educação feminina foi alvo estratégico de projetos de dominação. Negar escola às meninas sempre foi uma forma de perpetuar poder concentrado e hierarquias patriarcais. Quando instituições educacionais destinadas a meninas são atingidas em conflitos armados, a mensagem transmitida é devastadora: mulheres continuam sendo vistas como vulneráveis, descartáveis ou secundárias.
Onde está a ONU diante disso?
A Carta das Nações Unidas estabelece como propósito central manter a paz e a segurança internacionais e promover o respeito aos direitos humanos. No entanto, o funcionamento do Conselho de Segurança, frequentemente paralisado por vetos e disputas geopolíticas, revela os limites de uma arquitetura internacional que muitas vezes reage tarde demais ou de forma insuficiente. A omissão institucional, especialmente quando vidas civis são atingidas, fragiliza a credibilidade do sistema multilateral e reforça a sensação de que determinadas populações são mais protegidas que outras.
É impossível dissociar esse cenário internacional da política doméstica. Não podemos continuar elegendo líderes que naturalizam discursos misóginos, relativizam direitos humanos ou tratam a guerra como demonstração de força simbólica. A misoginia não é apenas um traço de caráter. É uma ideologia que desumaniza mulheres e meninas. Quando mulheres deixam de ser percebidas como plenamente humanas, tornam-se mais facilmente toleráveis como vítimas, seja na esfera privada, seja em conflitos armados.
Nós morremos pelas mãos de quem diz nos amar. Morremos pela ausência de políticas públicas eficazes. Morremos pelo silêncio institucional. E morremos também quando sistemas políticos priorizam armas em detrimento de educação, diplomacia e proteção de civis.
Sempre fomos alvos. No corpo, na linguagem, nas estruturas jurídicas e, em muitos momentos da história, também na guerra.
Mas não estamos condenadas à posição de vítimas permanentes. O ataque a uma escola de meninas é um alerta global de que a democracia depende da presença ativa, educada e politicamente fortalecida de mulheres. É um chamado para que ocupemos espaços de decisão, de formulação de políticas públicas, de negociação internacional e de produção de conhecimento. Precisamos estar nos parlamentos, nos tribunais, nas universidades, nas organizações multilaterais e nos centros de poder onde se definem prioridades orçamentárias e estratégias diplomáticas.
Não se trata de reivindicar poder para reproduzir a lógica bélica que historicamente nos excluiu, mas para transformar a própria lógica do poder. A defesa do futuro exige mulheres vivas, meninas educadas e instituições comprometidas com a vida civil.
Quando uma escola de meninas é bombardeada, não é apenas um prédio que cai. É a própria promessa de um mundo mais plural, democrático e humano que é colocada sob escombros. E a resposta a isso não pode ser resignação. Deve ser mobilização política, jurídica e social, em escala global.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.