De Cazarré aos Bolsonaros: como o discurso machista se disfarça de proteção

Juliano Cazarré foi alvo de debate público no Brasil por afirmar que seu controle sobre a mulher seria “proteção”.

O caso expõe um padrão de violência simbólica em que homens confundem dominação com cuidado.

Analistas apontam que esse discurso decorre da histórica combinação de patriarcado e capitalismo, que separa papéis públicos masculinos e privados femininos.

Estudos de Angela Davis são citados para demonstrar que essa lógica de controle não é neutra nem universal.

Existe uma violência que não levanta a voz. Que não deixa marca visível. Que chega embalada em discursos sobre proteção, cuidado e amor — e que por isso mesmo é das mais difíceis de nomear e das mais perigosas de sustentar.

É a violência do homem que diz “eu te protejo” e acredita, genuinamente, que isso é um gesto de afeto. Que não enxerga — ou não quer enxergar — que proteção, quando não foi pedida e não pode ser recusada, é outra coisa: é controle com boa aparência. É autoridade com vocabulário gentil. Foi esse o nó que a recente discussão em torno de Juliano Cazarré expôs publicamente — não como caso isolado, mas como sintoma de algo que o Brasil ainda evita enfrentar com honestidade: muitos homens foram ensinados, por gerações, a confundir dominação com cuidado. E o problema não está nos casos mais ruidosos. Está na normalidade silenciosa com que esse ensinamento se reproduz.

Esse discurso não nasceu ontem. Foi construído ao longo de séculos dentro de uma arquitetura social muito específica, em que capitalismo e patriarcado caminharam juntos organizando papéis complementares e desiguais: homens ocupam o espaço público, produzem riqueza e exercem poder; mulheres sustentam silenciosamente a vida privada. Enquanto o trabalho masculino passou a ser remunerado, reconhecido e associado à autoridade, o trabalho feminino foi tratado como obrigação natural —........

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