Sábado, dia 7 de outubro. Circularam pelo mundo imagens dos ataques do grupo terrorista Hamas em território israelense. Atiradores em parapentes executando civis. Bombas, ataques a jovens desarmados que participavam de um festival de música.

Aproximadamente 1200 pessoas mortas.

Começou, assim, mais um episódio da guerra árabe-israelense, que se arrasta desde a fundação do Estado moderno de Israel, em maio de 1948.

A imprensa ocidental, majoritariamente pró-sionista, não fala em outra coisa. A guerra Hamas X Israel ofuscou todas as outras pautas, mobilizando paixões em todos os países, inclusive no Brasil.

Neste texto, quero tratar o assunto a partir de uma questão específica, e que me parece ser a mais fundamental: os usos políticos perversos que o Estado de Israel faz da memória do Holocausto.

A própria existência do Estado moderno de Israel (não confundir com a nação de Israel tal como descrita no Velho Testamento) se deve à memória do Holocausto. Não seria exagerado dizer que o Israel moderno é exemplo paradigmático de um “Estado memória”.

Resumindo: um dos eventos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi o Holocausto (“Shoah”, em hebraico), entendido como a política de destruição dos judeus implementada pelo governo alemão, sob a liderança de Adolf Hitler. Como o nazismo tinha no nacionalismo agressivo uma de suas principais características, os judeus se tornaram alvo prioritário, na medida em que sua identidade não tem a nacionalidade como critério de sustentação.

Resumindo, antes de ser francês, alemão ou espanhol, o judeu é judeu, e será sempre judeu.

Com esse nacionalismo beligerante, o nazismo atualizou o velho antissemitismo, movendo contra os judeus alemães uma verdadeira indústria da morte, que exterminou aproximadamente 6 milhões de pessoas.

Sem dúvida, o extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial é um dos eventos mais violentos da história humana. Mas não é o único. Tomando apenas a modernidade como recorte, podemos citar:

Todos esses eventos têm grande dimensão traumática, e deixaram legado de horror e sofrimento para a contemporaneidade. Mas não ocupam o mesmo lugar na memória coletiva, e não possuem a mesma capacidade de despertar comoção.

Por que isso acontece?

É que a produção de uma memória coletiva de alto impacto não se dá, apenas, em função do evento lembrado, mas, também, por conta do poder dos grupos interessados em inscrever suas narrativas no imaginário social.

A comunidade judaica internacional tem muito mais poder para inscrever seu trauma na memória coletiva do que armênios, negros, circassianos e cambojanos. Dizer isso não significa hierarquizar traumas, ou diminuir a violência sofrida pelo povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial.

Trata-se, apenas, de constatar uma obviedade: os judeus têm mais dinheiro e, portanto, maior capacidade para mover a indústria cultural, financiando filmes em Hollywood, viabilizando produtos editoriais que ficaram conhecidos como “literatura de trauma”, da qual o escritor italiano Primo Levi é o principal representante.

A maior parte das pessoas nunca ouviu falar no extermínio dos armênios, mas possui informações básicas sobre os campos de concentração nazistas em funcionamento no final dos anos 1930.

A maioria não sabe sequer onde fica o Camboja, mas é capaz de associar Adolf Hitler à violência perpetrada contra os judeus.

É socialmente mais confortável negar a existência do racismo do que dizer que o holocausto jamais aconteceu. Em diversas capitais ocidentais, é perfeitamente possível achar monumentos em homenagem a comerciantes de escravizados e a governantes que exploraram e escravizaram populações africanas. Desconheço lugar onde se possa encontrar uma estátua de Adolfo Hitler, ou rua ou praça com o nome de alguma liderança do III Reich. Na maior parte dos países ocidentais, defender o nazismo é crime previsto em lei. Nem todos esses países criminalizam o racismo com a mesma contundência.

Isso acontece porque a memória coletiva é, antes de qualquer coisa, exercício de poder, ativo valiosíssimo no mercado das disputas políticas, controlado pelos poderosos.

Como existem desigualdades também entre as vítimas de violência, algumas conseguem mobilizar com mais eficiência os aparelhos discursivos de produção de memória, como cinema, literatura, museus. É exatamente esse o caso dos judeus, o que ajuda a explicar a força simbólica do Estado moderno de Israel.

Quando logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a ONU decretou a instituição de um Estado judeu em uma área densamente povoada por muçulmanos, o que estava em questão era o poder da memória do Holocausto. Já que os judeus tinham sido submetidos a uma experiência de destruição de grande proporção, sua segurança dependia da existência de um Estado próprio capaz de protegê-los.

Tratava-se, portanto, de uma memória de defesa, de conservação.

De lá para cá, muita coisa mudou

O Estado de Israel se construiu ao longo dos anos como uma poderosa força imperialista naquela região do mundo. Potência militar alinhada com os países mais poderosos do planeta, Israel modificou radicalmente o estatuto da memória Holocausto. Não mais uma memória de defesa, mas sim uma memória de agressão. Não mais a reivindicação da segurança do povo judeu, mas sim a justificação para o ataque aos direitos fundamentais de outros povos, sobretudo os palestinos.

Neste exato momento, Israel bombardeia Gaza e Cisjordânia, sem diferenciar alvos terroristas de hospitais, escolas e conjuntos habitacionais civis. O discurso de legitimação continua sendo o “direito à autodefesa”, fundado na memória do holocausto. A memória mais poderosa da cultura ocidental, que por conta do sionismo agressivo de Israel se tornou, também, a mais perigosa.

A crítica ao terrorismo de Estado praticado por Israel é ineficaz sem a releitura da memória do holocausto. O mundo de hoje não é mais o mundo da década de 1940.

Os judeus não são mais o povo perseguido, não são mais as vitimas. O Estado moderno de Israel é o algoz. Se alguma comparação ainda fosse possível, nos levaria a colocar Benjamin Netanyahu lado a lado com Adolf Hitler e mostraria como a Faixa de Gaza se tornou a versão socialmente aceita de Auschwitz.

* Rodrigo Perez Oliveira é historiador

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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O poder, e o perigo, da memória do Holocausto

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15.10.2023

Sábado, dia 7 de outubro. Circularam pelo mundo imagens dos ataques do grupo terrorista Hamas em território israelense. Atiradores em parapentes executando civis. Bombas, ataques a jovens desarmados que participavam de um festival de música.

Aproximadamente 1200 pessoas mortas.

Começou, assim, mais um episódio da guerra árabe-israelense, que se arrasta desde a fundação do Estado moderno de Israel, em maio de 1948.

A imprensa ocidental, majoritariamente pró-sionista, não fala em outra coisa. A guerra Hamas X Israel ofuscou todas as outras pautas, mobilizando paixões em todos os países, inclusive no Brasil.

Neste texto, quero tratar o assunto a partir de uma questão específica, e que me parece ser a mais fundamental: os usos políticos perversos que o Estado de Israel faz da memória do Holocausto.

A própria existência do Estado moderno de Israel (não confundir com a nação de Israel tal como descrita no Velho Testamento) se deve à memória do Holocausto. Não seria exagerado dizer que o Israel moderno é exemplo paradigmático de um “Estado memória”.

Resumindo: um dos eventos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi o Holocausto (“Shoah”, em hebraico), entendido como a política de destruição dos judeus implementada pelo governo alemão, sob a liderança de Adolf Hitler. Como o nazismo tinha no nacionalismo agressivo uma de suas principais características, os judeus se tornaram alvo prioritário, na medida em que sua identidade não tem a nacionalidade como critério de sustentação.

Resumindo, antes de ser francês, alemão ou espanhol, o judeu é judeu, e será sempre judeu.

Com esse nacionalismo beligerante, o nazismo atualizou o velho antissemitismo, movendo........

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