Mais do que votar: o teste da democracia liberal brasileira em 2026

Em 2026, especialistas apontam que a democracia liberal brasileira, instituída pela Constituição de 1988, não se garante apenas pelo voto.

O cientista político Adam Przeworski resume: “democracia é um sistema no qual os partidos perdem eleições”.

Financeirização, plataformas digitais algorítmicas, aumento da desigualdade e a politização de cortes supremas enfraquecem a representação e o controle do poder.

Apesar da continuidade das eleições, o arranjo institucional enfrenta um deslocamento silencioso que põe em risco a alternância governamental sem rupturas.

Há uma ilusão confortável no debate público brasileiro: a de que a democracia está garantida porque há eleições. Como se o simples ato de votar fosse suficiente para sustentar um regime político complexo. Não é. Nunca foi.

A democracia liberal — aquela que o Brasil adotou com a Constituição de 1988 — não é uma promessa a ser cumprida nem um ideal abstrato projetado no futuro. É um arranjo institucional concreto, construído para organizar o conflito, limitar o poder e permitir a alternância no governo sem ruptura. E justamente por isso, ela não existe fora da tensão: depende de regras que podem ser manipuladas, de instituições que podem ser capturadas e de equilíbrios que podem se romper. Quando esses elementos se degradam, o que permanece não é a democracia — é apenas a sua aparência formal.

É o que o cientista político polonês Adam Przeworski, sintetiza de forma direta: “democracia é um sistema no qual os partidos perdem eleições”. A frase é simples, mas carrega uma exigência profunda. Para que ela funcione, não basta votar — é preciso que as regras sejam aceitas, que os árbitros sejam confiáveis e que os perdedores reconheçam o resultado como legítimo. Quando isso deixa de ocorrer, o sistema não desaparece imediatamente. Ele se esvazia por dentro.

Essa discussão deixou de ser teórica no século XXI porque os mecanismos que sustentam a democracia liberal passaram a ser tensionados de forma simultânea e sistêmica. A financeirização das economias reduziu a margem de manobra dos governos eleitos; as plataformas digitais fragmentaram o espaço público e reorganizaram a disputa política sob........

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