Semanas antes da invasão do Iraque pelos Estados Unidos começar, em março de 2003, visitei como correspondente da TV Globo o abrigo subterrâneo de Amiriyah, em um bairro residencial de Bagdá. Era o abrigo de número 25 da capital iraquiana.

O local, originalmente construído para proteger iraquianos dos mísseis disparados pelo Irã, na guerra entre os vizinhos que durou de 1980 a 1988, havia sido convertido em um memorial.

Saddam Hussein, então um aliado do Ocidente, tinha torrado bilhões de dólares comprando tecnologia militar e de defesa de países como Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos.

Às 4h30 da manhã de 13 de fevereiro de 1991, na primeira Guerra do Golfo, quando Saddam já havia se convertido em inimigo número um do Ocidente, depois de invadir o Kuwait, duas bombas de penetração disparadas por bombardeiros F-117 dos Estados Unidos atingiram em sequência o abrigo.

Para chegar ao memorial, no dia em que o visitamos, foi preciso usar um elevador. O buraco cavado pelas bombas GBU-27, de mais de 900 quilos cada, nos permitiu ver o céu.

A primeira das bombas de penetração conseguiu romper uma barreira de concreto de 3 metros e só explodiu depois disso.

Os Estados Unidos alegaram que o abrigo era utilizado por Saddam Hussein como um centro militar de comando e controle.

Porém, o que se sabe é que ao menos 408 pessoas, a maioria mulheres e crianças, foram incinerados enquanto dormiam. Eram civis.

Alguns morreram queimados pela água fervente do tanque de abastecimento do abrigo.

As impressões digitais de algumas vítimas ficaram grudadas no concreto do teto do abrigo, sugerindo que nem todos morreram na hora.

Para o Pentágono, o ataque foi a demonstração da eficácia do modelo GBU de bombas de penetração.

Pode parecer cinismo, mas planejadores militares consideram a morte de civis "dano colateral" quando se trata de confirmar que uma arma funciona.

MÃE DE TODAS AS BOMBAS

Desde então o armamento foi sofisticado. A GBU-43/B pesa mais de dez toneladas. Os Estados Unidos limitam a venda da bomba de penetração a aliados. Israel foi o primeiro país a ter acesso.

As GBU-43/B -- ou alguma outra versão dela -- podem ser testadas agora em Gaza, contra os túneis do Hamas.

A retirada da população civil do norte de Gaza não tem apenas o objetivo de evitar guerra urbana, na qual a maioria dos soldados reservistas de Israel não tem experiência.

O direcionamento das GBU é feito em terra, por uma equipe que aponta o alvo eletronicamente para garantir a precisão.

Chamada de "Mãe de todas as bombas" (MOAB), ela foi utilizada pelos Estados Unidos no Afeganistão.

A dúvida é se as GBU-43/B vão alcançar os túneis do Hamas. O repórter Seymour Hersh, que escreveu a respeito, especula que os túneis estão a 60 metros de profundidade.

É através deles que os palestinos se movimentam entre o Norte e o Sul de Gaza, antes de disparar foguetes improvisados contra Israel.

O mesmo Hersh informa que o objetivo diplomático de Israel agora é convencer o Egito e o Catar a financiarem a reconstrução de um antigo acampamento militar no deserto do Sinai, que Israel já ocupou. Yamit foi um assentamento de Israel no deserto do Sinai, desocupado à força quando o país reatou relações diplomáticas com o Egito. Foto Wikipedia

O acampamento de Yamit, hoje desmantelado, seria a moradia para os palestinos expulsos de Gaza.

Por enquanto, o Egito não cedeu nem mesmo na abertura da passagem de Rafah.

O governo militar egípcio, que ascendeu ao poder derrubando um governo fortemente influenciado pela Irmandade Muçulmana -- aliada do Hamas -- teme a instabilidade em potencial causada pela presença de milhares de refugiados palestinos.

Assim como Israel, o Egito recebe substancial ajuda dos Estados Unidos e pode acabar cedendo à pressão de Washington.

O Catar, base da emissora Al Jazeera, fez um acordo com o governo de Benjamin Netanyahu para financiar o Hamas, quando o primeiro-ministro israelense apostou na facção para dividir o inimigo e tirar a legitimidade internacional da Autoridade Palestina, o que enterrou na prática a ideia de uma solução de dois estados.

Israel tem capacidade militar para aniquilar o Hamas. Os Estados Unidos já moveram munição suficiente para arrasar Gaza.

A dúvida é se os soldados israelenses estão em condições de enfrentar um combate urbano e se o Hamas terá homens para fazê-lo.

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Hamas Israel Gaza Strip causa palestina

QOSHE - Vídeo: Como são as bombas que Israel pode usar contra túneis em Gaza - Luiz Carlos Azenha
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Vídeo: Como são as bombas que Israel pode usar contra túneis em Gaza

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16.10.2023

Semanas antes da invasão do Iraque pelos Estados Unidos começar, em março de 2003, visitei como correspondente da TV Globo o abrigo subterrâneo de Amiriyah, em um bairro residencial de Bagdá. Era o abrigo de número 25 da capital iraquiana.

O local, originalmente construído para proteger iraquianos dos mísseis disparados pelo Irã, na guerra entre os vizinhos que durou de 1980 a 1988, havia sido convertido em um memorial.

Saddam Hussein, então um aliado do Ocidente, tinha torrado bilhões de dólares comprando tecnologia militar e de defesa de países como Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos.

Às 4h30 da manhã de 13 de fevereiro de 1991, na primeira Guerra do Golfo, quando Saddam já havia se convertido em inimigo número um do Ocidente, depois de invadir o Kuwait, duas bombas de penetração disparadas por bombardeiros F-117 dos Estados Unidos atingiram em sequência o abrigo.

Para chegar ao memorial, no dia em que o visitamos, foi preciso usar um elevador. O buraco cavado pelas bombas GBU-27, de mais de 900 quilos cada, nos permitiu ver o céu.

A primeira das bombas de penetração conseguiu romper uma barreira........

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