Quando eu e minha colega e conselheira Conceição Lemes dirigíamos o site Viomundo, tínhamos grande preocupação com a qualidade dos comentários exibidos sob os textos publicados.

Estivemos entre os pioneiros na eliminação da troca de ofensas entre leitores e das postagens de quem se escondia no anonimato para plantar notícias falsas.

Era nossa impressão, à época, que nossos leitores habituais gostavam de observar a caixa de comentários mas, por causa do mau cheiro cumulativo, poderiam tomar a decisão de se afastar do site.

Eu mesmo tinha grande apreço pelos comentaristas, com os quais tinha aprendido muito.

Um deles era um engenheiro que denunciava que a privatização da telefonia no Brasil, no governo de Fernando Henrique Cardoso, só aconteceu quando já se antevia que a miniaturização dos chips provocaria a revolução dos celulares.

O Brasil, sustentava este comentarista, tinha condições de desenvolver sua própria tecnologia, o que não era de interesse das gigantes internacionais.

Foram dois coelhos mortos de uma só vez com o martelo da privataria: a soberania brasileira no setor, expressa fisicamente no centro de pesquisas da Telebrás em Campinas, e a entrega do bilionário mercado brasileiro a empresas quer cobram aqui preços acima da média internacional e são recordistas em reclamações de consumidores.

Como previa o engenheiro-comentarista, empresas-casca, que controlam diretamente apenas o setor financeiro da operação e terceirizam tudo o mais.

Já uma comentarista de esquerda foi quem me abriu os olhos para os crimes de Luis Posada Carriles, autor intelectual de um dos primeiros atentados terroristas contra a aviação comercial, que a mídia praticamente "esqueceu" por motivos ideológicos: foi um ataque que matou civis cubanos.

O avião da Cubana de Aviación explodiu depois de decolar do aeroporto de Barbados em outubro de 1976, matando 76 pessoas a bordo. O terrorista Carriles era agente da CIA, conseguiu refugiar-se nos Estados Unidos e morreu sem ser incomodado pelos mesmos que, anos depois, declararam "guerra ao terror".

No Brasil, esta experiência agradável de comunicação com os leitores desandou, conforme relatado pelo colega Luís Nassif, a partir do chamado Caso Veja: o engajamento da publicação dos Civita na defesa dos interesses do neoliberalismo e do PSDB, traduzido em ataques viscerais ao PT ao longo dos anos 2000.

Hoje celebrado inclusive por leitores petistas e de esquerda, Reinaldo Azevedo foi um dos pioneiros em engajar seus leitores em ataques concertados contra seus críticos, que lotavam as caixas de comentários com ofensas do mais baixo nível, como se fosse um enxame propagando o ódio.

Nassif e Paulo Henrique Amorim estiveram entre os principais alvos do embrião daquilo que viria a se tornar o esgoto bolsonarista dos tempos atuais.

O efeito de longo prazo foi o de dar às caixas de comentários um ar fétido, capaz de provocar repulsa.

Este problema nunca foi resolvido a contento pelas plataformas digitais ou pelos que se utilizam delas para fazer jornalismo.

Algumas publicações simplesmente baniram os comentários.

Outras simplesmente acrescentaram um alerta de que não são responsáveis pelos comentários de terceiros.

Muitos leitores simplesmente deixaram de espiar os comentários, que no bolsonarismo se tornaram muito mais agressivos e carregados de fake news.

A promissora revolução digital foi se transformando, lentamente, também em um pesadelo.

Um dos poucos casos de sucesso, inclusive de transição digital, foi o do New York Times, diário de referência dos Estados Unidos que em maio deste ano atingiu 9,7 milhões de assinantes para um conjunto de projetos editoriais em todo o mundo.

A empresa tem uma base de 100 milhões de leitores registrados, com acesso limitado ao conteúdo.

Além de registrar lucro, o Times tem futuro: 29% de seus leitores tem entre 18 e 29 anos de idade e 34% de 30 a 49.

Isso se deve especialmente a mudanças editoriais, como as coberturas de eventos importantes "ao vivo", um departamento que produz vídeos de alta qualidade, inovações gráficas, um criativo caderno voltado para crianças e ênfase em notícias que podem ajudar o leitor -- de dicas culinárias a novidades nas áreas de Saúde e Tecnologia.

Porém, dentre as mudanças também se destaca a forma como o Times lidou com a caixa de comentários, com o objetivo de extrair o melhor que milhões de pessoas com formação específica poderiam agregar ao conteúdo editorial.

O Times assumiu rígido controle dos comentários que seleciona para publicação, criou um sistema de graduação que permite aos próprios leitores avaliar os comentários mais informativos e passou a destacar a colaboração de alguns leitores a partir de avaliação feita por um grupo de jornalistas.

Ou seja, o diário novaiorquino fez do limão uma limonada e transformou a experiência de ler comentários em algo agradável, que aumenta o tempo de permanência dos leitores em sua própria plataforma. Usou a sabedoria dos assinantes como uma vitrine que valoriza o produto editorial.

Em resumo, devolveu o esgoto ao esgoto. Eliminou a caixa de comentários como instrumento da perversão e do ódio alheios.

Há luz no fim do túnel.

Temas

internet New York Times jornalismo de redes crimes de ódio na internet

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Controle do esgoto digital ajuda a explicar sucesso do Times

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07.10.2023

Quando eu e minha colega e conselheira Conceição Lemes dirigíamos o site Viomundo, tínhamos grande preocupação com a qualidade dos comentários exibidos sob os textos publicados.

Estivemos entre os pioneiros na eliminação da troca de ofensas entre leitores e das postagens de quem se escondia no anonimato para plantar notícias falsas.

Era nossa impressão, à época, que nossos leitores habituais gostavam de observar a caixa de comentários mas, por causa do mau cheiro cumulativo, poderiam tomar a decisão de se afastar do site.

Eu mesmo tinha grande apreço pelos comentaristas, com os quais tinha aprendido muito.

Um deles era um engenheiro que denunciava que a privatização da telefonia no Brasil, no governo de Fernando Henrique Cardoso, só aconteceu quando já se antevia que a miniaturização dos chips provocaria a revolução dos celulares.

O Brasil, sustentava este comentarista, tinha condições de desenvolver sua própria tecnologia, o que não era de interesse das gigantes internacionais.

Foram dois coelhos mortos de uma só vez com o martelo da privataria: a soberania brasileira no setor, expressa fisicamente no centro de pesquisas da Telebrás em Campinas, e a entrega do bilionário mercado brasileiro a empresas quer cobram aqui preços acima da média internacional e são recordistas em reclamações de........

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