Operação para prender Vorcaro mostra também lentidão perigosa da PGR

Operação da PF prendeu Daniel Vorcaro e outros investigados por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de sistemas da Interpol.

A PGR teve 72 horas para analisar o pedido de prisão enviado pela PF no dia 27 de fevereiro, mas pediu mais prazo alegando impossibilidade de atendimento.

O ministro André Mendonça criticou publicamente a inércia da PGR e indeferiu o pedido de prazo adicional.

As investigações apontam ameaças concretas à integridade física de cidadãos e à vida de um jornalista.

A função de “fiscal da lei” e titular da ação penal conferida à Procuradoria-Geral da República (PGR) não é apenas um adereço burocrático, é um motor que deveria pulsar no ritmo das urgências democráticas. Contudo, o que assistimos nesta quarta-feira (4), na operação que mirou Daniel Vorcaro e outros investigados, levados à prisão, foi um descompasso preocupante entre a gravidade dos fatos e a velocidade da caneta do doutor Paulo Gustavo Gonet Branco.

Os fatos são de uma contundência que dispensa exercícios teóricos prolongados. Estamos falando de suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, invasão de sistemas da Interpol e, no ápice do perigo, ameaças concretas à integridade física de cidadãos e à vida de um jornalista. Quando a Polícia Federal aponta que há um cronômetro rodando contra a segurança de profissionais da imprensa e autoridades, o “tempo institucional” precisa se curvar ao tempo da realidade.

Ao ser acionada no dia 27 de fevereiro, a PGR teve 72 horas para analisar o pleito da PF. A resposta, enviada ao ministro André Mendonça, soou como um balde de água fria no pragmatismo jurídico: a alegação de que o prazo era “exíguo” e de “impossível atendimento”. Ora, em um cenário onde se investiga o acesso indevido a sistemas sigilosos e planos de violência, o que é “impossível” é a espera.

O ministro Mendonça, em uma postura raríssima de firmeza necessária, não apenas negou o pedido de mais prazo, como “lamentou” publicamente a inércia da PGR. Sua decisão foi um lembrete de que direitos fundamentais dos investigados, citados por Gonet como motivo para a cautela, não podem ser usados como escudo quando o direito à vida de terceiros está no prato da balança.

É justo reconhecer que a PGR desempenhou um papel técnico e brilhante nas ações penais envolvendo a tentativa de golpe de Estado no Brasil. Ali, o rigor foi a tônica. No entanto, o caso Vorcaro parece ressuscitar uma faceta que beira a ingenuidade: a tendência de diminuir a gravidade de fatos que, embora complexos, exigem respostas imediatas. E isso a PGR já fez outras vezes.

Não é a primeira vez que vemos o órgão tratar pedidos de prisão com uma lente de distanciamento que ignora o perigo iminente. A justiça que tarda, neste contexto de crime organizado e ameaças de morte, não é apenas falha; ela é potencialmente letal e pode gerar prejuízo irreparável.

O Brasil enfrenta um momento sensível em que as organizações criminosas e os crimes de colarinho branco se sofisticam através da invasão de dispositivos informáticos e do uso da força bruta. A PGR não pode se dar ao luxo de ser um espectador de camarote que apenas pede “mais tempo”, enquanto o país pega fogo ou enquanto vidas são colocadas num cronômetro regressivo.

A celeridade não é inimiga do zelo. Pelo contrário, em casos de urgência absoluta, a agilidade é a maior prova de compromisso com a Justiça. Que a operação de hoje sirva de alerta: o titular da ação penal precisa estar à altura da velocidade dos crimes que se propõe a combater. A sociedade brasileira, e especialmente aqueles que estão na linha de frente da notícia e do combate ao crime, não podem esperar pelo tempo da burocracia quando a ameaça bate à porta.


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