Quem é Delcy Rodríguez, a nova presidenta da Venezuela? |
Estamos vivendo num mundo baseado em regras diplomáticas em decomposição, trata-se de uma fase da história da humanidade muito perigosa e ainda mais crítica para as nações sem poder militar de dissuasão, como a América Latina, e especialmente o Brasil. A agressão militar promovida pelos EUA sob o comando de Trump contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores é a expressão máxima de que já estamos vivendo num mundo do “vale tudo“! Essa covarde ação militar passou por cima da Constituição americana, atropelou a carta da ONU e ignorou o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isso significa que o grande “hegemon do norte” não respeita mais um mundo baseado em regras definidas no pós-Segunda Guerra Mundial e simplesmente nada acontece. Os desdobramentos são imprevisíveis e sombrios para a humanidade, principalmente num momento histórico em que nunca tivemos tantos estoques de armas hipersônicas e nucleares.
É nesse momento de altíssima tensão que Delcy Rodríguez assume a presidência da Venezuela com o aval da Suprema Corte e da cúpula das Forças Armadas. Mas antes de saber quem é a mulher mais poderosa da Venezuela nesse momento e o seu papel no processo de defesa da Revolução Bolivariana, vamos voltar um pouco na história para entender com mais nitidez a gravidade do momento geopolítico do planeta…
A primeira grande tentativa de estabelecer uma ordem mundial baseada em regras foi na construção da Liga das Nações após a Primeira Guerra Mundial em 1920. Com sede em Genebra, na Suíça, formalmente se estabeleceu um secretariado, assembleias permanentes e princípios que tinham como objetivo equalizar conflitos, equilibrar a gangorra de poder global e evitar invasões territoriais e guerras entre as nações. Mas já na década de 1930 a experiência da Liga das Nações entrou em crise com a invasão militar japonesa na Manchúria em 1931, promovendo todo tipo de violência e atrocidades contra o povo chinês. A crise se aprofundou com a invasão italiana sob o comando de Mussolini na Etiópia (1935), e em setembro de 1939 os nazistas invadem a Polônia, levando França e Inglaterra a declarar guerra à Alemanha, dando início à Segunda Guerra Mundial. Esses acontecimentos jogaram uma pá de cal no papel da Liga das Nações, que fracassou no seu objetivo de promover a paz mundial ao não conseguir estabelecer regras diplomáticas internacionais que fossem minimamente aceitas pelas grandes potências mundiais.
Na Segunda Guerra Mundial, três grandes blocos entraram em confronto – O bloco liberal-burguês liderado pela Inglaterra e depois EUA – o bloco nazifascista liderado pela Alemanha em aliança com a Itália e o Japão, e ainda, a URSS que por si só representava o terceiro bloco. A aliança entre o bloco soviético e o bloco liberal-burguês destruiu o nazifascismo e com o final da guerra em 1945, se iniciaram as negociações sobre uma nova ordem mundial, especialmente com a fundação da ONU sob os escombros da Liga das Nações. Os desdobramentos desse processo colocaram a humanidade diante de um mundo bipolar e da Guerra Fria. A institucionalização das Nações Unidas e suas agências foi uma tentativa de aprimorar os mecanismos e regras internacionais estabelecidas pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial – os aliados. O mundo seguiu sob as tensões e contradições da Guerra Fria até 1991 com a desagregação da URSS e a restauração do capitalismo no Leste Europeu. O que significou que o mundo baseado em regras não estava mais no contexto das negociações entre EUA e URSS. Entramos num mundo unipolar, onde os derrotados da Guerra Fria, em certa medida, passaram a assimilar a ideologia e as regras da hegemonia americana.
Essa situação se desenvolveu sob forte ofensiva norte-americana sobre os povos do mundo, que passou a levantar a espada do neoliberalismo sob a cabeça das nações sem praticamente nenhum obstáculo significativo até a virada do século. A ascensão econômica da China e a articulação do Sul Global em blocos geopolíticos e geoeconômicos – O BRICS e a OCX são as maiores expressões – passou a exigir reformas nos organismos internacionais, dando início à construção de uma arquitetura de mundo multipolar.
Nos parece que a resposta do Império Ocidental à ascensão chinesa e às articulações defensivas das nações do Sul Global foi a “virada de mesa“, especialmente com a rearticulação da extrema-direita no mundo liderada por Trump. A destruição de organismos internacionais criados no pós-Segunda........