Paradoxo do gado: odeia carnaval, mas comemora resultado de desfile de escola de samba
Bolsonaristas criticaram desfile da Acadêmicos de Niterói no carnaval carioca por homenagem a Lula, alegando propaganda eleitoral e ofensas, sem apresentar provas.
Setores da extrema direita, tradicionalmente críticos ao carnaval, comemoraram o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, usando o resultado para atacar Lula e o PT nas redes sociais.
Políticos de direita, como o governador Romeu Zema e o deputado Nikolas Ferreira, também celebraram o rebaixamento da escola, associando-o a uma derrota de Lula.
Senadores bolsonaristas propõem projetos para cortar recursos de agremiações carnavalescas que façam "apologia do crime" ou promovam agendas partidárias e autoridades políticas.
Desde o último domingo (15/2), após o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Lula no grupo especial do carnaval carioca, as redes sociais foram tomadas por bolsonaristas furiosos. A todo vapor, os internautas de extrema direita acusaram o desfile de propaganda eleitoral antecipada, de perseguir a família cristã e de ridicularizar a figura de Jair Bolsonaro – como se o próprio já não fizesse esse papel. Sem provas e a partir de fake news, como é de praxe. Porém, não houve nem um nem outro: ninguém pediu voto para Lula, tampouco houve preconceito religioso. Como em todo movimento delirante, os bolsonaristas criam uma realidade paralela e passam a nortear suas ações a partir disso.
Não é algo novo. A extrema direita odeia o carnaval – considerado “uma festa promíscua”. Acima de tudo, como todos os ressentidos, o que esses setores conservadores odeiam, de fato, é qualquer tipo de manifestação de caráter popular, alegria e exaltação à vida. Não por acaso, Mussolini definiu o fascismo como “a sociedade da vida dura”. Ou seja, o oposto do carnaval. A homenagem a Lula foi só mais um ingrediente para o discurso de ódio.
No entanto, na quarta-feira de cinzas (18/2), os mesmos bolsonaristas que odeiam a festa mais popular do país voltaram em peso às redes sociais para comemorar o rebaixamento da agremiação niteroiense. Trata-se do paradoxo do gado: odeia carnaval, mas comemora seu resultado. “Escola do PT foi rebaixada”, “A lei do retorno foi rápida”, “Lula rebaixou a escola”, “Agora vamos colocar os comunistas para correr”, “Onde o STF não tem alcance, o negócio funciona” e “O tanto de dinheiro que Lula investiu na escola de samba para perder” – entre outras pérolas – puderam ser vistas no Instagram, Facebook, X e similares.
Políticos da extrema direita, que nada fazem pelo povo, também vibraram com o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, em um vídeo postado nas redes sociais, publicou cenas de comemoração com a legenda: “A primeira derrota do PT em 2026 já veio, e a gente fica muito triste com uma notícia dessas”. Por sua vez, Nikolas Ferreira postou: “A escola foi rebaixada, o que demonstra como o Lula está afundando o Brasil. Isto sim foi uma homenagem muito bem adequada”. Engrossando o coro, a Revista Veja, com seu mau jornalismo corriqueiro, noticiou: “Enredo sobre Lula faz Acadêmicos de Niterói ser rebaixada no carnaval carioca”. A Revista Oeste foi mais sensacionalista: “Escola anticristo rebaixada”.
De repente, haters de carnaval, para lacrar nas redes, se transformaram em analistas de desfile de escola de samba. Indivíduos que jamais pisaram numa quadra de escola de samba ou sequer sabem diferenciar uma comissão de frente de um carro alegórico passaram a ser especialistas em harmonia, evolução e conjunto de exigências técnicas. O carnaval, que para eles é sinônimo de promiscuidade e baderna, virou termômetro de competência administrativa.
Fora da Terra Plana, sabemos que não é a primeira vez que uma escola que ascende ao grupo especial é rebaixada no primeiro desfile. Geralmente, é o que acontece. “O rebaixamento não se deu pelo enredo. Deu-se por um conjunto de exigências técnicas. Vergonha mesmo é quando um presidente usa a máquina pública para tentar se reeleger e ainda perde a reeleição, tornando-se o primeiro presidente a não conseguir ser reeleito”, escreveu a criadora de conteúdo Denice Oliveira, em comentário no Facebook. Nos últimos vinte anos, em catorze oportunidades – ou seja, quase 75% dos casos – a escola que ascendeu ao grupo especial terminou rebaixada. Mas usar o cérebro não é uma prática dos bolsonaristas. Além disso, não é preciso ser um gênio para concluir que a repercussão de um desfile carnavalesco em fevereiro não irá impactar a eleição presidencial oito meses depois.
Por outro lado, muito mais sério do que os delírios na internet, nos bastidores políticos está em curso uma operação para acabar com o carnaval. Como noticiou a Fórum, projetos propostos por senadores bolsonaristas pretendem impor cortes no direcionamento de recursos públicos a agremiações carnavalescas que, supostamente, façam “apologia do crime” ou promovam determinadas agendas partidárias e exaltem autoridades políticas e ocupantes de cargos eletivos em exercício de mandato. Mais uma vez, a campanha da extrema direita pela “liberdade de expressão” se mostra uma farsa.
A única “liberdade” que defendem é a de insultar as minorias sociais.
