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Compensações

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14.04.2026

Só possa lamentar que essas polémicas não ajudem àquele processo de reaproximação (ainda que não ainda de reconciliação) entre essas vítimas e a Igreja. Desse facto ninguém beneficia, nem as vítimas, nem a Igreja.

Importa, por um lado, desfazer uma imagem distorcida, ou pelo menos parcial, da forma como decorreram as entrevistas da fase inicial desse processo, destinado ao apuramento da verosimilhança das queixas apresentadas. Os relatos que têm vindo a público são apenas os das (poucas) pessoas que dessas entrevistas guardam impressões negativas. A este respeito, posso apenas partilhar o que testemunhei nas onze entrevistas em que participei: em nenhuma delas presenciei hostilidade, desrespeito ou falta de empatia para com as vítimas, nem que estas se tenham sentido incomodadas ou revitimizadas. Compreende-se que essas, como outras vítimas, não venham publicitar a sua experiência positiva, para preservar a sua privacidade. Mas não podem ser ignoradas essas experiências positivas. Sobretudo porque a insistência no relato das experiências negativas (una verdadeira campanha) desincentivou, e continua e desincentivar, a apresentação de outros pedidos de apoios por parte de outras vítimas.

Muito longe de qualquer forma de interrogatório policial ou judicial (daí que não tivesse qualquer sentido a presença de advogado, como alguém pretendeu), tratou-se de uma conversa que em si mesma fez parte de um processo reparador. Tanto assim foi que em muitos casos essa entrevista serviu de estímulo para que as vítimas iniciassem um processo de apoio psicológico de que necessitavam desde há décadas. Ou que a partir da entrevista ganhassem coragem para pela primeira vez revelarem os abusos aos familiares mais próximos, incluindo o cônjuge. As psicólogas forenses, do Grupo Vita, que participaram na entrevista dispunham-se a ser contactadas posteriormente pelas vítimas entrevistadas sempre que o seu apoio fosse solicitado.

Nem a necessidade de descrever os abusos, ou de relatar aspetos de décadas da vida pessoal (para avaliar toda a dimensão dos danos) se traduzia numa qualquer forma de revitimização. Depois de tantos anos a ocultar os factos, ou de não ser dado crédito ao relato dos mesmos, ou de eles serem desvalorizados, a oportunidade dada às vítimas de os relatar agora a quem as escutava sem........

© Renascença