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Foi você que pediu um Nobel?

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07.04.2026

A ignorância, os insultos, as contradições, a linguagem e a vulgaridade assumidas por Donald Trump a partir da Casa Branca, parecem uma história de banda desenhada; daquelas de mau gosto que retratam uma ficção, só ao alcance de uma infatigável imaginação.

É triste ver um presidente de um país como os Estados Unidos descer abaixo dos padrões mínimos de comportamento, para convencer o regime iraniano, que não é flor que se cheire, a reabrir o estreito de Ormuz e a prescindir dos seus projetos nucleares.

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Não está em causa o reconhecido carácter criminoso do regime de Teerão. Nem o papel do Irão no financiamento e proteção aos grupos terroristas que sonham com a destruição do Estado de Israel. Nem, muito menos, o direito de Israel se defender de ataques exteriores de vizinhos que não o suportam e que gostariam de erradicar o povo judeu.

O mundo está infelizmente cheio de Estados que patrocinam aberta ou encapotadamente o terrorismo e a guerra; Estados que sufocam minorias ou Estados cujas minorias submetem ao terror e à pobreza a maioria dos seus cidadãos; Estados com ligações subterrâneas ao crime e ao tráfico de droga ou de seres humanos; Estados que desafiam qualquer lógica de direitos humanos e de legalidade.

Apesar disso, Estados considerados democráticos não declaram sistematicamente guerra a esses países, a não ser em casos extremos. E se o fizessem estariam a colocar sucessivamente em risco de vida, milhões de pessoas, especialmente as mais inocentes.

De resto, muitos aliados de Donald Trump são países que não respeitam nem tencionam respeitar direitos considerados fundamentais.

Não há, por isso, neste momento, nenhuma racionalidade positiva e defensável na guerra que os Estados Unidos decidiram desencadear contra o Irão. Nenhuma evidência foi comunicada quanto ao acelerar do programa nuclear iraniano. Nenhuma demonstração foi feita quanto a uma qualquer inflexão político-militar iraniana que tornasse esta intervenção justificada e minimamente justa.

Não é de excluir também que os iranianos, nas suas diferenças culturais e religiosas, acabem por adiar os sonhos de acabar com o regime, pretendendo antes acabar com a guerra. E assim, desse modo, é possível que o regime tirânico e feroz de Teerão venha a encontrar na reconstrução do país que o inimigo externo destruiu, o mínimo de cimento que lhe permita agregar opositores internos e manter-se no poder por mais anos.

Na ânsia de ficar na História (e vai ficar...), Trump confunde Venezuela com Irão. E Netanyahu sabe a diferença entre Gaza e Teerão, mas a distinção não lhe convém.

A fragilidade política do atual governo dos Estados Unidos – nestas decisões e nestes contextos – é confrangedora e perigosa. Fragiliza a paz global e reduz a sua legitimidade noutros cenários, incluindo na Ucrânia. A Rússia que invadiu a Ucrânia, passando a ferro o direito internacional, apela agora a que os americanos respeitem o que Putin sempre ofendeu.

No meio de uma disrupção que nunca desejou nem previu, a Europa pode sonhar que depois de Trump venha alguém que restabeleça pontes e alianças, mas se não fizer mais do que isso, arrisca ficar pior do que nunca.

No contexto atual, ganha força a posição do Papa. Leão XIV tem a serenidade e a profundidade que escasseiam em líderes com pés de barro.

Enquanto o secretário americano da Defesa usa a religião para justificar a política, ao defender que os soldados dos Estados Unidos no Irão estão a combater por Jesus, o Papa, nascido em Chicago, tem vindo a insistir no oposto: não misturem Jesus com esta ou outras guerras.

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De uma forma clara, retirou qualquer justificação religiosa à guerra com o Irão. Disse Leão XIV que Jesus não ouve as orações daqueles que buscam a guerra. E pediu que não se envolva o nome de Deus em conflitos violentos.

Ainda recentemente, no Vaticano, o Papa recebeu conjuntamente cristãos e muçulmanos que vivem em África e, perante todos, rejeitou a radicalização religiosa e apelou à eliminação do preconceito, da raiva e do ódio.

Nas últimas semanas, e face à loucura da guerra, o Papa tem apelado sucessivamente à paz e à defesa da vida. E a uma defesa integral: desde a conceção até à morte natural.

Não se trata de ativismo, mas de convicções e de uma fé profunda. Perante diferentes agressões à vida, o Papa responde com a mesma defesa, dos mais fracos e inocentes. Não tem dois pesos nem duas medidas.

Os apelos de Leão XIV coincidiram, no tempo, com o ataque aos participantes na Caminhada Pela Vida, em Lisboa. Um sinal, também entre nós, de que há um longo caminho a fazer para quebrar intolerâncias e aceitar diferenças. Muitos comentadores e alguns meios de comunicação olharam para outros lados, quando os factos aconteceram. Tivesse sido outro, o alvo do alegado "cocktail molotov", e tivessem sido outros a lançá-lo, outra também teria sido a indignação manifestada.

Por mais que nos doa, à nossa medida e ao nosso nível, também nós, com honrosas exceções, temos dois pesos e duas medidas. Oscila-se entre a condenação e a compreensão, em função das convicções de cada um, mesmo quando a semente da violência é lançada à nossa frente.

É por aqui que a violência começa. E faz o seu caminho. Divide corações, justifica o injustificável, aceita o inaceitável, compreende o incompreensível, tudo em nome de meras conceções ideológicas e dos respetivos preconceitos.

Se isto sucede na vida pessoal ou comunitária, ao pé de nós e aos nossos olhos, acontece ainda com maior força e expressão no plano internacional, na tensão entre conceções, interesses e centros de poder.

A retórica de Trump nas redes sociais, por exemplo, não destoa dos milhares de posts que diariamente e à escala mundial exalam violência e ameaças, muitas delas anónimas e por isso cobardes.

Os "heróis das redes" podem ser de direita ou de esquerda, mas parecem todos uma espécie de "mini-Trumps" que fustigam tudo e todos aqueles que os contrariam política, religiosa e culturalmente.

Nas redes sociais, o presidente americano alinha no tom que presume (infelizmente, com alguma razão) ser popular e rentável do ponto de vista eleitoral. Entre prazos que dá, retira ou prolonga (ainda que alguns se destinem a dar tempo e espaço para projetar forças militares na zona de conflito) Trump encontra sempre mais achas para a fogueira do Golfo.

Fez do insulto uma arma violenta, ao nível das ameaças que grupos terroristas costumam lançar em comunicados incendiários. Envolve-se em debates e diatribes, que não honram nenhum cidadão, muito menos o Presidente dos Estados Unidos. Pior, quanto mais grita mais desesperado parece estar.

Donald Trump já percebeu que esta guerra não correu como previa ou como lhe garantiram que correria. Apanhado entre eleições intercalares deste ano e uma crise energética e militar de vocação global, Trump precisa de uma saída limpa.

No momento em que escrevo, decorre mais um ultimato, com Trump a renovar promessas do inferno e a ameaçar fazer numa noite, o que não conseguiu em quase 40 dias de guerra – conquistar o Irão.

Desesperado e provavelmente encorajado por Nethanyau, Trump, o Presidente que aspirava ao Nobel da Paz, pode ter a tentação do abismo. Sinal disso é o facto de já ter declarado não se importar com crimes de guerra e estar preparado para atacar instalações civis.

O Presidente americano não ignora que os ataques deliberados a instalações civis iranianas poderão ter como contrapartida ataques do Irão às estações de dessalinização de água dos países do Golfo. A concretizarem-se, tais ataques conduziriam a um desastre humanitário na região e a novas ondas de refugiados. Só uma cegueira completa poderia levar o Presidente Trump a ordenar crimes de guerra em massa aos militares americanos, desencadeando mais crimes de guerra do lado iraniano.

Porém, o homem de negócios que habita a Casa Branca também sabe que a economia americana vai sofrer e que em novembro, nas eleições, muitos eleitores podem não perceber nem perdoar.

A haver alguma, a contenção de Trump ficar-se-á a dever, não a uma qualquer contemplação humanitária, mas a uma intrincada equação em que se jogam poder, negócios e a volatilidade de uma personalidade permeável à adulação e ao elogio hipócrita.

Por isso, qualquer avanço de última hora nas negociações, por mínimo que seja, talvez sirva para Trump cantar vitória e suspender a guerra ou encaminhá-la para o fim.

As negociações lideradas pelo Paquistão parecem as mais promissoras, mas será necessária (muita) cabeça fria, para evitar uma explosão do conflito, a um nível não calculado inicialmente pela Casa Branca.

Na retórica, o que resta do regime iraniano surge tanto mais desafiante quanto mais desesperado parece estar Donald Trump. Mas sabendo que o desespero é o melhor amigo da loucura, é possível que o pragmatismo de Teerão prefira uma luz ao fundo do túnel, em vez de testar o belicismo de Trump e arriscar uma completa derrocada, humanitária, política e militar em que todos perdem.

Em pleno contrarrelógio, para a guerra ou para a paz, acredito que Deus continua a escrever direito no meio de linhas tortas, que é a forma mais benevolente de classificar lideranças tão pouco recomendáveis.

josé luís ramos pinheiro

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