O que é mesmo importante na vida? |
Vivemos em corrida permanente, cheios de urgências, com muito por fazer. Quando nos apresentamos aos outros mencionamos o que fazemos, os titulos que a vida nos atribuiu e pouco falamos de nós mesmos. Na vida procuramos, sobretudo, o bem-estar material, como se isso fosse o mais importante das nossas vidas. Do bem-estar saltamos para o muito-ter e quanto mais melhor. Se apresentarmos aos outros o muito que temos isso eleva-nos socialmente, bem como na aprovação, elogio ou consideração de terceiros. Mas, mais ainda, muitas vezes esforçamo-nos pelo melhor-parecer, independentemente do ser, do ter, do estar, sendo o mais importante o “parecer bem” diante dos outros. O que é sucesso? Será tudo isto o mais importante na vida?
Chegamos a ter medo de parar e não saber conviver com o silêncio, nem a nos descobrirmos interiormente. São muitas as capas que nos afastam, a nós e aos outros, do intimo do nosso ser, de onde nasce a verdadeira vida. Muitas vezes é um lugar pouco visitado e o mais triste é os dias correrem e abstermo-me dessa viagem interior, talvez, a mais importante que a vida me oferece. Não para me afastar dos outros ou auto-centrar-me mas para, definitivamente, partir para tudo e todos a partir daquilo que sou verdadeiramente, da minha versao original e mais autêntica.
Quando publico nas redes que “aceitei novos desafios na minha vida”, todos me perguntam quais os novos cargos? Que promoção tive? Uau, tanto mérito que me sobra, para espalhar e distribuir. Na verdade, construímos quase sempre a partir do sucesso e raramente a partir da vida.
Mas e se esse desafio for cuidar dos meus pais, atender a um amigo, a um colega, estar disponivel para quem precisa? Como serei apreciado? Estarei perante uma promoção? Ou o mundo despromove-me na consideração? Afinal, apenas escolhi o que importa, o que fica, o que marca, o essencial, o que perdura. Autorizei-me a ser e não a fazer, a servir e não a promover, a amar e não a parecer.
Quando me telefonam e me interrrompem, pedem-me desculpa porque “provavelmente estás numa reunião?”. E quando estamos a fazer algo de muito importante temos a verdadeira noção da pobreza da pergunta, como se estar numa reunião fosse a coisa mais importante da vida e não é. Muitas vezes, apenas é urgente. E se do nosso lado respondermos que “não, estou mesmo a fazer algo muito mais importante! Estou a ser eu mesmo, como filho, como pai, como amigo, como alguém que ajuda e serve. Estou a beijar, a abraçar, a proteger, a cuidar”. Se calhar nunca fui tão eu como nesses momentos. Passo a reconhecer essa voz interior que me chama (vocatio), propósito de vida, despido de máscaras, de melhor-parecer, de muito-ter. Abandonei o meu bem-estar pelo bem-amar ao outro, e passei com isso ao pleno-ser que é onde se encontra a maior e verdadeira riqueza.
E, nesses momentos descubro e encontro resposta para “o que é mesmo importante na vida”? Saber discernir o que é mesmo importante na vida exige sabedoria, saber escutar, saber parar, decidir e actuar. Muitas vezes começa na coragem de arriscar o improvável e de abrir caminho ao que ainda não teve lugar. Ir a jogo com o que somos, e não com as máscaras que nos protegeram nem com as táticas de infância que tomámos por defesa, mas que apenas nos afastaram de nós e, consequentemente, dos outros.
A escolha é pessoal, mas estende-se a todas as dimensões da vida - profissional, social e familiar - tornando-a una e integral: como filho, pai, irmão, amigo, colega e líder que serve.
Este artigo nao é sobre mim mas sobre aqueles que me inspiram a ser e a viver cada dia mais eu mesmo, em verdade e liberdade. “Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se com isso vier a perder-se ou arruinar-se a si próprio?” (Lucas, 9, 25).
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