A coragem de não ter a certeza
Vivemos num tempo que nos estranha. Parece que quanto mais informação temos, mais inseguros nos sentimos. Quanto mais complexo se torna o mundo, mais procuramos respostas simples. E quanto maior é a ambiguidade à nossa volta, mais nos agarramos a crenças, ideias e identidades que nos parecem dar a sensação de chão firme.
É compreensível. É humano. E é também onde começamos a construir uma redoma à nossa volta e a fechar-nos.
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O problema não reside na procura de segurança, mas em confundir segurança com certeza. A certeza fecha. A segurança genuína não vem de certezas que já não questionamos, mas de sabermos quem somos suficientemente bem para não precisarmos de as defender a qualquer custo.
Simone de Beauvoir escreveu que a ambiguidade não é um problema a resolver, mas é a condição humana. Quem insiste em eliminá-la, em encontrar respostas definitivas que ponham ordem na desordem, não encontra clareza. Encontra rigidez. E a rigidez tem um custo: deixamos de ver o que não confirma aquilo em que já acreditamos.
Vemos isso hoje em todo o lado. Crescem movimentos que prometem certeza em troca de simplicidade. Ressurgem ideais que a história já testou e reprovou. Os extremismos saem da gaveta não porque sejam novos ou verdadeiros, mas porque respondem a uma necessidade real: a necessidade de saber onde estamos, quem somos, de que lado ficamos.
Mas essa não é a resposta. É como se tratássemos o sintoma com o que o agrava.
O pensamento genuíno, como dizia John Dewey, começa sempre com perturbação. Com o desconforto de uma crença que já não encaixa na realidade. Quem nunca sentiu as suas próprias crenças a tremer dificilmente as examinou de facto.
Duvidar não é desmoronar. É o ponto de partida para maior honestidade.
Mas há uma condição: a dúvida sem âncora parece que nos paralisa. A abertura sem bússola torna-se um ruído que nos inquieta. E é aqui que o autoconhecimento se torna essencial: não para nos dizer o que pensar, mas para sabermos de onde pensamos. Quais são os nossos valores reais, não os que declaramos à mesa do café. O que nos move e o que nos paralisa. O que defendemos por convicção e o que defendemos por medo de mudar.
Sem esse trabalho interior, somos varridos pela corrente, ora pela certeza dos outros, ora pela nossa própria necessidade de conforto.
E esse trabalho não se faz em isolamento. A reflexão sem fim não traz clareza, traz ruminação. É preciso ir ver, experimentar. Expor as nossas ideias ao contacto com a realidade e com os outros. A curiosidade, a que é genuína, sem ansiedade de chegar, é talvez a postura mais inteligente que podemos cultivar no presente.
Ser contracorrente neste tempo não é ter opiniões fortes e defendê-las a qualquer custo. É ter a coragem de permanecer aberto quando tudo à nossa volta pressiona para escolhermos um lado. É desacelerar quando o ritmo exige velocidade. É dizer que precisamos de mais tempo para respirar, analisar e fazer sentido antes de avançar.
E talvez o mais difícil de tudo seja mudar de opinião sem sentirmos que traímos algo.
Mudar de opinião não é fraqueza. Não é incoerência. É sinal de que continuámos a pensar e de que a realidade nos ensinou algo que ainda não sabíamos. Numa cultura que premeia a convicção e interpreta a mudança de posição como falta de carácter, fazê-lo é genuinamente corajoso.
Keynes, confrontado com quem o acusava de contradição, respondeu: quando os factos mudam, eu mudo de ideias. E nós?
Duarte Afonso Silva, Development Manager Executive Education na Católica Lisbon School of Business & Economics.
Este espaço de opinião é uma colaboração entre a Renascença e a Católica-Lisbon School of Business and Economics.
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