No final da passada semana, as hostes benfiquistas acordaram em sobressalto. Orkan Kökçü, o turco que bateu o recorde de valor pago pelos ‘encarnados' por um jogador, disse ao "De Telegraaf" sentir-se incompreendido e pediu que lhe dessem o papel que melhor enaltecesse as suas qualidades.

Vou saltar a parte das declarações e da sua legitimidade, do timing ou falta dele, e de tudo o que em termos emocionais esta entrevista pode significar para o próprio, para o treinador do Benfica e para toda a estrutura ‘encarnada'. Ou seja, neste artigo não haverá sangue.

Kökçü foi possivelmente dos jogadores mais cobiçados da Europa no último verão. Melhor jogador da Liga Holandesa, diz-se que rejeitou o Manchester United para assinar pelo Benfica. Segundo o próprio, pesou na decisão a forma como o clube lisboeta tem exportado talento. Infelizmente, por todo o mediatismo, valores e reputação do jogador, esperava-se um impacto à la Enzo Fernández, algo que ainda está por acontecer.

Roger Schmidt conhecia-o bem, mas, por ora, é um casamento longe de ser feliz. À primeira vista parece algo estranho, visto que Kökçü ocupa a mesma posição que tinha no Feyenoord e que o levou para as bocas do mundo. Mudaram as funções e aí reside o problema para o jovem internacional turco, sobretudo a quantidade de missões defensivas a que está sujeito sob a alçada do treinador alemão, por palavras do próprio.

Comecemos pela construção. Kökçü é um médio de transporte, gosta de receber de frente para o jogo, mais próximo aos centrais, para através do drible ou em combinações progredir pelo corredor central. É aí que se destaca. Dar-lhe a posição mais adiantada do triângulo do meio-campo castra-o, obrigando-o a receber muitas vezes de costas para o jogo, capítulo onde não está tão à vontade. O futebolista turco prefere procurar colegas entrelinhas com passe, do que propriamente ocupar essa posição, e de trás para a frente chegar perto da área para rematar de longe.

Aqui reside um problema chamado João Neves. Porque, em teoria, o emparelhamento natural de Kökçü seria com um jogador de cariz defensivo como Florentino, com uma área de ação que permitisse ao turco libertar-se em campo. João Neves, apesar da capacidade que tem defensivamente, é um jogador que também sobressai pelo que faz com bola.

No Benfica, a altura em que Orkan esteve mais confortável foi quando descaiu para a esquerda para pegar no jogo, já bem recentemente. Ainda assim, nos ‘encarnados' não goza do estatuto que vivia no Feyenoord. Todo o jogo e ritmo eram controlados por si e, em Portugal, isso não acontece, algo que, à luz das recentes declarações, parece frustrá-lo.

Pegue-se agora na missão defensiva, a raiz de todo o problema.

Nos Países Baixos há uma preocupação defensiva diferente. É um futebol virado para o golo e onde se exige menos responsabilidade (defensiva) aos criativos. Kökçü, estrela da companhia, tinha funções no momento de pressão, mas era um jogador que no meio-campo defensivo era mais desocupado. Preocupava-se em fechar espaço e tentar sair em transição caso a bola lhe chegasse aos pés.

Em Lisboa isso mudou. O estatuto e a necessidade de se criar um Enzo 2.0 levaram a que Schmidt tentasse fazer do turco uma máquina defensiva, com capacidade de chegar à frente na pressão, e que defensivamente tivesse um sentido apurado de proteção de baliza em situações de cruzamento, ou entradas adversárias no último terço. No Benfica há apenas um jogador que se pode alhear de missões defensivas e chama-se di María.

O já mencionado Florentino, num cenário hipotético, é a cola que podia fazer João Neves e Kökçü sobressairem. Porém, para que isso aconteça, era necessário sentar no banco um dos dois.

A tal entrevista ao "De Telegraaf" marca um possível ponto sem retorno da relação entre Kökçü e o Benfica, porque agora haverá menos abertura do treinador em adequar-se a um jogador que pouco se esforçou para resolver internamente o problema. Afastado da equipa, Kökçü terá ainda menos possibilidades de reclamar o protagonismo que acha merecer.

QOSHE - ​D. Kökçü I, o incompreendido - Afonso Cabral
menu_open
Columnists Actual . Favourites . Archive
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

​D. Kökçü I, o incompreendido

16 4
18.03.2024

No final da passada semana, as hostes benfiquistas acordaram em sobressalto. Orkan Kökçü, o turco que bateu o recorde de valor pago pelos ‘encarnados' por um jogador, disse ao "De Telegraaf" sentir-se incompreendido e pediu que lhe dessem o papel que melhor enaltecesse as suas qualidades.

Vou saltar a parte das declarações e da sua legitimidade, do timing ou falta dele, e de tudo o que em termos emocionais esta entrevista pode significar para o próprio, para o treinador do Benfica e para toda a estrutura ‘encarnada'. Ou seja, neste artigo não haverá sangue.

Kökçü foi possivelmente dos jogadores mais cobiçados da Europa no último verão. Melhor jogador da Liga Holandesa, diz-se que rejeitou o Manchester United para assinar pelo Benfica. Segundo o próprio, pesou na decisão a forma como o clube lisboeta tem exportado talento. Infelizmente, por todo o mediatismo, valores e reputação do jogador, esperava-se um impacto à la Enzo Fernández, algo que ainda está por acontecer.

Roger Schmidt conhecia-o bem,........

© Renascença


Get it on Google Play